Tribuna do Leitor

Desabafo cultural

Edson de Oliveira
| Tempo de leitura: 3 min

Não tendo mais condições de me conter diante de tantos absurdos que rotineiramente acontecem no Brasil, principalmente na área da cultura, aquela que assegura ou destrói o futuro da pessoa; e analisando friamente um assunto que deve ser de conhecimento de todos, principalmente dos interessados nele, faço alguns comentários sobre a desanimadora e dolorosa verdade que envolve o desacreditado e putrefato ensino público no Brasil.

Mantenho, há onze anos, um curso de Português (gramática) e Matemática em uma conceituada e idônea instituição filantrópica de Bauru, curso esse, gratuito (não visa a lucro) e direcionado a concursos públicos. Os pleiteantes a cargos públicos, no referido curso, são pessoas responsáveis, conscientes e dedicadas, porém mal preparadas pelas escolas públicas por onde passaram por culpa única e exclusiva de um programa mal elaborado, pela área que responde por esse assunto. São alunos com Curso Colegial completo e muitos com Curso Superior. Dá pena, desânimo, dó, revolta, vontade de chorar, em perceber a falta de conhecimento deles sobre os mais elementares assuntos.

Vamos aos fatos: em se tratando da letra a, não sabem quando ela é artigo, pronome demonstrativo, pronome oblíquo ou preposição. Aliás, nunca ouviram falar nisso. Se o assunto versa sobre crase, acham que crase é o acento grave. Jamais tiveram aulas sérias sobre a contração da preposição a com os artigos a, as e com os pronomes demonstrativos a, as, aquele(s), aquela(s), aquilo. Absurdo! Se o assunto é sobre verbo, meu Deus! Não sabem absolutamente nada. Têm dificuldades incríveis para formação de qualquer tempo ou modo, principalmente em se tratando do Imperativo Positivo. Não sabem definir qualquer uma das dez categorias gramaticais, nem sabem quantas são. Com referência ao verbo SER, que é de difícil sistematização, o debacle é total.

A ignorância verbal chega a extremos. Há alguns anos, a (note bem) secretária da Educação do Estado de SP, portanto, nada menos que a maior autoridade em Educação no Estado motor da União, esteve aqui em Bauru e proferiu uma palestra na USC, onde foi enfática ao declarar com todas as letras: "Antes de eu assumir a pasta, houveram muitos problemas". Sobre o houveram, neste caso específico, só uma coisa a declarar: "A senhora perdeu uma grande oportunidade de não abrir a boca". É melhor permanecer calado deixando que todos pensem que você seja um idiota, do que abrir a boca e acabar com a dúvida! Em se tratando de Concordâncias e Regências, podem ser Verbal ou Nominal, poucos ouviram falar, e se ouviram foi muito superficialmente.

Quando estudamos Análise Sintática, mal sabem achar o sujeito da oração. Se o período é composto, não sabem denominar a oração Coordenada nem a Subordinada, uma vez que nunca ouviram falar numa tal Categoria Gramatical chamada Conjunção. E Análise Sintática é de importância vital para quem fala ou escreve, tanto que o eminente catedrático, professor Luiz Antonio Sacconi em seu livro "Não erre mais" é contundente ao afirmar: "Quem não sabe Análise Sintática, ainda que grotescamente, não sabe falar e não sabe escrever". Estamos falando de postulantes a cargos públicos, que deveriam dominá-la. É com verdadeiro descaso que as autoridades envolvidas em tão importante assunto, o tratam. O ensino no Brasil foi literalmente jogado no lixo. Nada mais se estuda, nada mais se aprende, e todos são aprovados no final do ano.

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