Articulistas

Que tiro foi esse?

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A funkeira Jojo Toddynho perguntaria também quem foi o "viado" que teve a ideia de fechar a fábrica da Mondelez, condenando 800 bauruenses ao inferno do desemprego. Há os que culpam o prefeito de gazetear quando deveria estar cuidando dos interesses da cidade. Outros atribuem o infeliz evento à falta de "lideranças políticas". Bobagens. A culpa pelo fechamento, fusões e sinergias que liquidam postos de trabalho, aqui e no mundo, é da inteligência artificial. Aquela tal plataforma tecnológica capaz de raciocínios inovadores nos negócios. O computador, municiado de dados, provoca "insights" nos gestores - palavra inglesa que significa a compreensão súbita de alguma coisa ou determinada situação. Quem mandou fechar as fábricas de Bauru e de Piracicaba não foi nenhum "viado". Foi o computador, com base na Teoria da Utilidade.

Tudo começou em 1977, quando o até então imbatível enxadrista russo Garry Kasparov, jogando com as pretas com o programa de computador Deep Blue, foi forçado a desistir para não levar xeque-mate. As tecnologias inteligentes não param de evoluir. A capacidade cognitiva, tradicionalmente inerente a seres humanos - julgar, analisar e tomar decisões - é hoje dominada por máquinas que aprendem. O Big Data já movimenta 25 bilhões de dólares anuais. Os programas analisam um imenso volume de dados que impactam os negócios do dia a dia. São utilizados para elaborar dispositivos que simulam a capacidade humana de raciocinar, perceber, tomar decisões e resolver problemas. Enfim, a capacidade de ser inteligente.

Desde o início deste século fala-se na "internet das coisas". É um outro ramo da inteligência artificial. Em Vitoria da Conquista, na Bahia, os 20 mil alunos da rede municipal de ensino têm uma etiqueta de radiofrequência no uniforme. Da entrada dos estudantes na escola, uma mensagem é enviada para os celulares dos pais dos alunos ausentes. Existem casos mais surpreendentes, como o Uber, a maior empresa de táxi do mundo e que não tem nenhum veículo. A Nike, maior fabricante de tênis, que não é dona de nenhuma fábrica. A Alibaba, chinesa, varejista mais valioso, não possui estoques. Airbnb, o maior provedor de hóspedes do mundo, não possui nenhum imóvel. Tudo isso, em síntese, significa a pulverização de milhões de empregos no mundo, em todas as categorias profissionais. "As mudanças são tão profundas que, na perspectiva da história da humanidade nunca houve um momento tão potencialmente promissor ou perigoso". Quem disse isso foi Klaus Schwab, autor dos livros mais lidos sobre a Quarta Revolução Industrial. Tivemos a primeira revolução com a máquina a vapor (1760-1840). No final do século 19, veio a segunda revolução, com o advento da eletricidade e da linha de montagem. A terceira, na década de 1960, com o computador digital. Na virada deste século, a inteligência artificial, a robótica, os veículos autômatos, a impressão 3D, e as nanotecnologias completam o milagre do Deus ex machina.

E o que é feito do homem nisso tudo? Dentro de mais dez anos as máquinas poderão ocupar 50% das vagas de emprego, incluindo funções administrativas no escritório e na produção. As carreiras tradicionais focadas em salário, nível hierárquico e status vão perdendo lugar para outros critérios de sucesso. Ao contrário do passado, a noção de pertencimento, de fazer parte de uma comunidade, é hoje definida pelos interesses e valores individuais e projetos pessoais. Vamos viver mais, graças à modernização e não teremos como nos manter. O capitalismo, por suas próprias contradições, terá que encontrar caminhos. Assumirá a responsabilidade coletiva por um futuro em que a inovação e a tecnologia estejam focados na humanidade, e na necessidade de servir ao interesse público. É o grande desafio ético. A automação está pronta para liberar as pessoas do trabalho mecânico e repetitivo, para exercer sua criatividade, raciocínio e habilidades sociais. A Suíça, estuda a renda básica para todos os cidadãos de todas as idades. A Suécia, reduz a jornada de trabalho para 6 horas, para que sobrem mais empregos. Os resultados são bons.

Enormes cortes de funcionários são cada vez mais frequentes. A perenidade do trabalho não faz mais sentido. Para quem gosta de estabilidade, a situação é aquela do "apertem os cintos... o piloto sumiu". Mas, há vida sem crachá. A Geração Z (nascidos na era digital) não quer se matar de trabalhar. Prefere ter tempo para ser feliz. Se possível, o tempo todo. Quer gostar do que faz e está preparada para passar por várias carreiras na vida, sem traumas. Nem tem a pretensão de chegar aos 30 ganhando muito. Outra coisa que as máquinas inteligentes devem ter apontado: essa moçada já está de saco cheio de Halls,Trident, Bubaloo e Chiclets.

Comentários

Comentários