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Vida e morte na nave de lona

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Talvez já tenha sido influência da Copa da Rússia: pintou interesse repentino e fui ver, na Netflix, o filme (russo) sobre a trajetória do primeiro homem a viajar pelo espaço: Yuri Gagarin. Aproveitei para ser transportado à minha própria infância ao perceber o nome daquela histórica missão espacial tripulada e de sua nave: Vostok.

O voo orbital pioneiro na Vostok durou pouco menos de duas horas, o que deve ter sido mais ou menos o mesmo tempo de duração daquele dia que tive a bordo do Vostok, o circo. Nem preciso dizer que foi inesquecível. É curiosa a forma como esses flashs de memória se dão a respeito dos nossos próprios primórdios. Mil coisas acontecem quando se é bem criança, mas o que fica grudado na mente é uma ou outra experiência especial.

Vostok. Foi mágico. Aliás, tinha mágico numa época sem Mister M para quebrar o encanto. Pelo contrário: ver aquele cara ali no picadeiro fazendo coisas impossíveis foi influência total para despertar meu interesse por truques, a ponto de ter vários deles ao longo dos anos que se seguiram.

Era um circo bem completo e com um absurdo número final de Globo da Morte com cinco ou seis motociclistas. Semanas depois, estavam eles no "Fantástico", tratados como heróis por conta da órbita barulhenta que desenhavam naquela redonda estrutura de metal.

Eram os melhores da América Latina, os únicos a apresentar tal espetáculo com tantas motos girando ao mesmo tempo. Também posso lembrar dos trapezistas, dos equilibristas, dos palhaços. Como pode grudar na mente tanta coisa de um único dia de 1979 ou 1980.

Curiosamente, há em mim total esquecimento sobre animais naquela sessão. É provável que havia, mas não consigo ter tal recordação. Tristemente, a lembrança de uma família, desde o ano 2000, deve ocorrer até hoje justamente por conta de leões no Vostok instalado em Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife: um dos bichos, de dentro da jaula, alcançou um garoto durante o intervalo e a tragédia se consumou.

José Miguel tinha 6 anos e, se nada disso tivesse ocorrido, poderia ser ele hoje a escrever sobre como foi estupendo ter ido ao circo pela primeira vez com seu pai. Exatamente como foi incrível comigo. E ainda tinha a música: "Vai, vai, vai começar a brincadeira..."

Sou a favor de circo sem animais. E de só se ter boas lembranças da infância: esse lugar sem dores, apenas de descobertas. Daquelas que merecem, de vez em quando, decolar do porão da memória para lembrar o adulto que existe, sim, a eternidade: ela mora dentro de um dia de deslumbramento.

O autor é editor do JC.

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