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Paquera melada

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Bem usada, a palavra é cosmética. Tudo cobre e embeleza. Disso sabe o publicitário. Não poucas vezes, ele precisa vender um produto, mas a coisa complica. É que algumas propostas comerciais escandalizam, ferem a sensibilidade do consumidor. Hora de puxar da cartola criativa o jeitinho macio de falar. Hora de dourar a pílula, de reverter expectativas e de, até mesmo, vender gato por lebre. Enfim, momento da linguagem eufêmica. Sabendo falar, tudo se pode dizer e, consequentemente, vender. Cosméticas, as palavras sempre souberam o que devem cobrir.

Imaginemos um publicitário precisando "vender" um aplicativo de paquera. Mas não uma paquera qualquer. Nessa vai rolar dinheiro. Diante de produto tão delicado, ele se vê obrigado a peneirar as palavras. Deu nisso: "Você merece o melhor que o mundo tem a oferecer e está preparada para agarrar a sua oportunidade. Seja uma jovem, estudante ou modelo, sua busca é por um relacionamento maduro com alguém que te apoie emocional, intelectual e financeiramente". Apoio financeiro? Isso mesmo, vai entrar grana no negócio. Complicado.

Trata-se de uma mensagem com destinatário definido: jovem estudante ou modelo, estrategicamente chamada de "Sugar Baby", um bebê de açúcar. Um perfil bastante amplo, já que não faltam jovens que são (ou dizem ser) modelos ou estudantes. Depois, a oferta: a promessa de um relacionamento "maduro". Maturidade, nesse contexto, significa que a jovem sabe o que quer, tendo, inclusive, superado a visão romântica do príncipe encantado (mas de bolso furado). Finalmente, define-se o parceiro: é o "Sugar Daddy", "o papai de açúcar". Nesse mel todo, o "doce papai" apoiará o "doce bebê" nas suas dificuldades emotivas, intelectuais e, sobretudo, fi-nan-cei-ras. Dito de outra forma, o coroa vai abrir o bolso.

Depois, a publicidade "conversa" com ele, o "Sugar Daddy": "Você já trilhou muitos caminhos até se tornar o homem de sucesso que é hoje. Você é honesto, sabe quem é, o que espera e o que pode oferecer. Você é um cavalheiro, um mentor que procura uma princesa para cortejar (e investir não é um problema!)".

Agora, os parênteses indicam um cochicho: certas coisas devem ser ditas ao pé da orelha. Investimento em mulher, por exemplo. Tudo encaixado: de um lado, a princesinha madura quer o "papai de açúcar" (príncipe falido nem pensar); de outro, o homem de sucesso, geralmente mais velho, quer, babando, a "doce princesinha". Pronto, o publicitário juntou a fome com a vontade de comer (perdoem-me a ambiguidade). E para que tudo fique honesto e limpinho, o texto capricha ao dizer que o "patrocinador" é alguém "honesto", um "cavalheiro", um "mentor" (não é um canalha não!). Ele investirá na princesinha e depois "investirá" contra a princesinha. Credo.

A verdade é que, por mais que o marqueteiro doure a pílula, muitos não a engolirão. Para eles, é um arranjo indecente: gente comprando gente que vende sexo. Isso é prostituição. Dizem ser absurda essa história de que o patrocinador está interessado em ser "mentor" da frágil princesinha. Balela que ela esteja buscando "apoio emocional". Ela quer é grana e ele, o doce prometido.

Os defensores da paquera endinheirada reagem: "Não se trata de prostituição. Prostituição é consumo pontual: pagou, usufruiu, acabou. O que se propõe é um relacionamento afetivo, continuado e honesto. Cada um sabe o que quer do outro e o que o outro quer de si". Dizem mais: "a vida sempre foi assim, as pessoas se movem por interesses, logo as trocas são normais. Trata-se de relacionamento adulto de pessoas que não vivem amarradas pela coleira das regras sociais. Não enxerga quem não quer."

São opiniões de quem analisa o site estando fora dele. Melhor ouvir um casal açucarado: "Não espero mais encontrar o amor da minha vida. Caí na real. Estou me relacionando com um homem mais velho 25 anos. Ele gosta de mim, me dá atenção e presentinhos. Me deu uma bolsa Chanel. Pesquisei na internet, ele tem muito dinheiro. Não é bonito, mas é limpinho e temos gostos parecidos." (Sarah, 30 anos).

"Excitante. Adoro ser admirado por uma jovem mulher porque tenho dinheiro e poder. Estou pagando mesada, mas a menina é sensacional. Ela tem os sonhos dela e eu tenho os meus. Nada mais justo que um ajude o outro." (Miguel, 55 anos)

Eis a cara do mercado: viramos mercadoria. Estamos em oferta. Tudo se negocia. Muitos em liquidação.

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras.

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