Tribuna do Leitor

Marielle, para sempre, presente!

Kátia Valérya dos Santos Souza - Professora de Educação Física, coordenadora do Núcleo de Base
| Tempo de leitura: 4 min

O Núcleo de Base "PT PresenTe" de Bauru-SP, através das vozes de suas mulheres, vem a público manifestar nosso profundo e indignado repúdio mediante, o vil e bárbaro assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL do Rio de Janeiro e do motorista Anderson Pedro Gomes que a conduzia após sua última participação em um debate denominado "Jovens Negras Movendo as Estruturas", que foi realizado na Casa das Pretas, no bairro da Lapa, no centro do Rio de Janeiro.

Manifestamos também nosso apoio e solidariedade às suas companheiras, aos seus familiares e ao PSOL. Esta notícia nos toma de susto e choque ao saber que esta morte foi encomendada, articulada e planejada por forças, que querem calar a voz da favela, que querem calar a voz das mulheres e homens negros.

Marielle, mulher negra, mãe, lésbica, periférica, moradora do Complexo da Maré teve a ousadia e a coragem de ser o que ela quis ser e se apresentava como "Cria da Maré".

Em 2002, ingressou na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), estudando Ciências Sociais com uma bolsa integral obtida pelo Programa Universidade para Todos (Prouni). Após se graduar em Ciências Sociais, concluiu um mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde defendeu a dissertação intitulada "UPP - A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro ."

Marielle era socióloga, feminista, militante dos direitos humanos e uma política brasileira. Filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), elegeu-se vereadora do Rio de Janeiro na eleição municipal de 2016, com a quinta maior votação, com um total de 46.502 votos. Crítica da intervenção federal no Rio de Janeiro e da Polícia Militar denunciava constantemente abusos de autoridade por parte de policiais contra moradores de comunidades carentes.

Na noite de 14 de março de 2018, foi brutal e covardemente, assassinada a tiros. Execução! Enganam-se aqueles que pensam que matando a carne de Marielle conseguiram calar sua voz e sua alma, não, não calaram, pelo contrário, este fato gerou uma mobilização de força movida a gritos e lágrimas que intensificarão a resistência, da população negra deste país que é vítima de um genocídio implacável, que não mede quem, que idade, nem que local são assassinados diariamente, seja no Rio de janeiro ou em todos os cantos deste país. A ordem é utilizar a violência máxima. A ordem é exterminar!

E Bauru, nossa cidade sem limites, não fica fora deste contexto vergonhoso.

Marielle nos provou que a mulher negra pode e deve ocupar os espaços acadêmicos, sociais e políticos. O exemplo de Marielle ecoará eternamente forte e atual e inspirará milhares de mulheres negras e brancas a lutarem contra esta falta de humanização e contra a violência extrema que este modelo neoliberal quer nos impor. O projeto é claro: vamos destruir tudo e todos em nome do Capital. Sem a menor piedade! Marielle nos mostrou que a luta é diária. Que para a mulher negra existir tem que lutar para fazer valer sua vontade.

Na noite de 14 de março, meados do mês de luta de todas as mulheres no mundo, Marielle foi silenciada. Quem apertou aquele gatilho e a executou não foi apenas o dedo indicador vendido do assassino, foi também o dos mandantes e todos aqueles que impõem uma condição miserável para a população trabalhadora, em sua maioria negra, deste país.

Apertaram aquele gatilho, naquele instante, junto com o assassino, aqueles que retiram direitos trabalhistas; que negam investimento em educação; que atuam para fortalecer os mais ricos; que desviam dinheiro público para seus bolsos e para a iniciativa privada; aqueles que falam em meritocracia; aqueles que votam contra o povo; aqueles que querem que querem o povo negro varrendo suas calçadas e limpando suas latrinas; aqueles que bateram panela, vestiram a camisa da CBF e seguraram o pato, ambos amarelos; aqueles que dizem que Bolsa Família, Prouni, Minha Casa Minha Vida e demais programas sociais são esmola e que não querem que a população pobre deste país tenha comida no prato e livros nas mãos. Todos estes! Assassinos de negros pobres!

E eles são implacáveis e o objetivo é matar de fome a população pobre deste país. Não vão conseguir, pois Marielle nos mostrou que é possível conquistar espaços e ter direito a ter direito.

As mulheres de Bauru naquela manhã se organizaram e realizaram um ato público forte e significativo, no dia 15 de março de 2018, às 17h, em frente à Câmara Municipal - casa esta que deveria destinar suas ações e esforços para a promoção da melhoria de vida da população bauruense - para demonstrar nossa indignação gritando nossa luta e garra ao microfone, para que todos saibam: vocês não calaram Marielle, porque muitas Marielles surgiram e vão lutar!

Seguiremos firmes e mais fortes na luta! Marielle presente! Marielle vive! "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela." - Angela Davis.

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