Domingo de Páscoa transformada em coelhos, chocolate e bacalhau. Pelo menos serve para reflexões sobre religião, cada vez mais engolfada pelo deus-mercado. Filósofos, como Maquiavel, Voltaire, Rousseau, Diderot, Comte e o contemporâneo Habermas, compartilharam a descrença nos dogmas religiosos. Ainda assim, consideram que a religião é útil para manter sob controle a ralé, a plebe, o populacho, a massa, a chusma... Não li "Religião para Ateus" (Ed. Intrínseca), de André de Botton. Contentei-me com a tradução de uma resenha de Terry Eagleton, filósofo e crítico literário inglês. Ele resume a postura desses pensadores, entre os quais inclui Botton, num mote - "eu mesmo não acredito, mas, do ponto de vista político, é mais prudente que você acredite". A meu ver, uma contraditória forma de pensar por aqueles que, enquanto filósofos, deveriam zelar pela integridade do intelecto.
Para Jacques Derrida (em 1994), existe uma confusão entre os campos da religião e da ética. A maioria das pessoas pensa que os valores mais elevados da humanidade - o amor, o respeito ao outro, a abdicação da agressividade, o desejo de estabelecer a paz na comunidade - estão depositados e resguardados na religião. Por esse motivo, qualquer crítica que se lhe faça é entendida como um ataque a esses valores fundamentais para a civilização. Ao não se discriminar o que é próprio da religião e o que é próprio da ética, conclui-se apressada e erroneamente que o não religioso, o ateu, é um ser aético e antimoral.
No empenho de estabelecer o que é estritamente do domínio do religioso, Derrida pinça duas experiências específicas - a da fé e a do sagrado. À primeira vista, seriam elas exclusivas da religião. Mas Derrida mostra que não é bem assim. Em primeiro lugar, se entendemos a religião como prática ligada ao trato com o divino e suas revelações, logo percebemos que a fé não se restringe a esse campo. A fé se faz imprescindível em qualquer contato entre os homens. É preciso ter fé no outro, é preciso crer no que ele diz, acreditar que ele fala a verdade. De forma semelhante, o sagrado também não se limita ao divino, pois a consideração à vida e ao outro deve ter essa conotação.
Há os que acham que fé e razão são incompatíveis. Essa oposição tradicional começou no Iluminismo. À época, melhor seria apoiar o pensamento científico. Derrida afirma o contrário. É justamente por ter fé na palavra do outro que a transmissão do conhecimento se faz possível. Esse "acreditar" tem sido usurpado nas redes sociais. Pessoas abusam da boa-fé para espalhar fake news. Algo que a filosofia e a religião ainda não conseguiram conjurar. Qualquer relação humana se baseia na possibilidade de aliança com o outro, na crença de ouvir dele a verdade. Pôr em risco essa relação, de forma não acidental, mas massificada, teria consequências catastróficas para a humanidade, já alertava o recém-falecido Stephen Hawking. Ninguém melhor do que um deus para garantir e dar credibilidade às sempre frágeis e incertas promessas e alianças entre os homens.
O que Derrida propõe é que aquilo que aparece simbolizado, idealizado e "purificado" na religião, e que se acredita ser especifico dela, na verdade são aspectos essenciais das relações entre os homens. Aponta para uma religião não "religiosa". No sentido comum, "ateologizada", fruto das necessidades humanas. Nesse sentido, o título de Botton, uma religião para ateus, parece apontar para a mesma direção. De qualquer forma, tenha o nome que tiver, precisamos de um pai poderoso que nos garanta amor e proteção contra os perigos existentes e a ameaça onipresente da morte.
Muitos pensam que a ética decorre de preceitos religiosos, seria ela um depurado leigo dos mandamentos divinos. Entretanto, Freud defendeu que a ética decore de procedimentos humanos necessários para a sobrevivência. Cada homem deve conter sua sexualidade e sua agressividade para que seja possível a convivência em comum, para que o grupo social sobreviva. Há os que defendem religião como necessária para a estabilidade social. Pena que, muitas vezes, é ela que coloca em risco os laços sociais. No momento em que o fundamentalismo e os dogmas diferentes entram em choque, impera a violência, instala-se a intransigência e intolerância.
Precisamos ter Deus de volta.
O autor é jornalista e articulista do JC.