Quando aquele livro chegou às mãos do menino, deu para ver sua cara de surpresa. A primeira expressão facial foi de alegria, mas logo ficou séria. Ao abrir o volume de capa dura percebeu que, ilustrado com muitas figuras e equações matemáticas, o assunto exigia estudo. Estava na cara, ou melhor, na capa com o título: 'Física sem Mestre'. Sendo um presente de seu pai, abraçou-o ternamente, agradecido.
Só mais tarde, muito mais tarde, é que ele entendeu a mensagem daquele presente. O livro do autor alemão Emil Braunweiler ( editora Melhoramentos, 1950 ) era uma simples iniciação para promover um eclipse na ignorância de quem só sabia fazer perguntas. Foi lá que leu sobre um físico chamado Albert Einstein (1879-1955) anunciando seu pensamento revolucionário sobre equivalência da matéria e energia em sua famosa equação [E=mc²].
Não só isso, mas todas os temas daquela disciplina, desde a mecânica dos estados físicos até eletricidade, ótica, magnetismo, teoria da relatividade e a postulação da física quântica. Mas foi outro detalhe que chamou a atenção do menino. Dizia respeito ao nosso país.
O texto informava que Einstein veio ao Rio de Janeiro em 21 de março de 1925 e declarara "O problema que minha mente formulou foi respondido pelo luminoso céu do Brasil". Tal afirmação se referia à observação do eclipse solar registrado em 1919 por uma equipe inglesa, na cidade cearense de Sobral, o que comprovou suas teorias.
Em 1921 recebeu o prêmio Nobel.
O pensamento daquele menino foi longe e, isso sim, mexeu com ele. Decidiu, então, deixar seu espírito voar e ultrapassar limites. Para ele, tudo era novidade no seu voo existencial e assim é até hoje. Crescido, só agora o pequeno pode entender o que outro gigante da Física moderna disse sem falar: "Nós somos humanos e nossa natureza é voar" (Stephen Hawking, 1942 - 2018).
Essa afirmação deu-lhe coragem para continuar questionando o mundo. Foi o que ele me pediu hoje para perguntar aos estimados leitores: que eclipse das nossas mazelas será necessário para o espírito humano voar mais alto ainda e buscar a compreensão de si mesmo e do universo?
O autor é professor da Faculdade de medicina da Unesp de Botucatu. Contato: fhaber@uol.com.br