Tribuna do Leitor

Amizade para sempre

Hilário Nunes da Silva
| Tempo de leitura: 4 min

Na década de setenta, minha família mudou para o Jardim Marambá. Eu, lógico, fui contrariado, estava com aproximadamente treze anos, digo que fui forçado pois adorava (e adoro!) o Parque Vista Alegre, minhas idas no "buracão", onde é hoje o Jardim Araruna, de jogar bola no campinho de futebol, onde atualmente é o reservatório de água, no começo da rua Pio XII. Todavia, naquela época não havia literalmente democracia, fui voto vencido e lá estava eu um bairro desconhecido, ainda relativamente desabitado. Já pela nova moradia, resolvi então passear pelo bairro, sim, naquela época não tínhamos problema de assaltos, sequestros, crianças e adultos iam e viam à vontade, e, reforçando essa ideia, eu ainda criança ia sozinho da rua Pio XII, já mencionada, onde ficava minha casa, até a escola Eduardo Velho filho, quando ela estava situada na esquina da Araújo Leite com rua Aimorés, com certeza mais de dois quilômetros. Lá estava eu a perambular pelo bairro quando vejo uma "pelada", campinho de terra, traves de madeira.

Quando acabou a jogo, comecei a conversar com os "jogadores" e acabei conhecendo o que seria e ainda é um dos grandes amigos que tenho, o Ângelo, mais conhecido por Neto. Lá se vão mais de quarenta anos... Longas conversas na calçada, até "tarde" da noite, a maioria delas sobre meninas, namoradas, time de futebol, moto, sim, adorávamos moto e gostamos até hoje, a primeira CB 400 que tive, ele escolheu. Também tivemos apenas uma discussão, por mea culpa, brigamos por motivo de futebol, brincávamos de jogar onde hoje é a praça Anacleto Chaves, no final da Duque de Caxias, que, aliás, fomos na inauguração, e é claro, por motivo fútil, discutimos. Passados alguns meses, o encontrei na rua e como a maioria dos pré-adultos imaturos, não pedi desculpas, mas ele, mais inteligente, começou a conversar comigo, mostrou orgulhoso no peito feito com pincel atômico (ainda existe este termo?) o "A" de aprovado no Tiro de Guerra, me falou altaneiro que fui mencionado pelo então e ainda hoje grande sgt. Valezi de um elogio que tive, na turma do TG anterior, pois fiz um ano antes dele, isso tudo sem mesmo eu pedir desculpas...

Espírito bom e evoluído. Vale mencionar que o Tiro de Guerra foi uma das melhores épocas de minha vida. E quando fomos assistir ao filme O exorcista, na sessão da meia-noite, tente entender isso há algumas décadas atrás, voltamos a pé e desviando de todas as sombras, pois tínhamos a certeza que o demônio estava escondido nelas. Acontece que os colegas foram ficando em suas casas e eu seria o último e ficaria sozinho até chegar na minha residência, aproximadamente uns cinco quarteirões da casa de Neto. Nunca corri tanto e a cada sombra, na minha imaginação, lá estava ele, a grade de minha casa tinha quase dois metros, até hoje não sei como pulei sem abrir o portão... Claro que fui motivo de chacota de todos eles no dia seguinte. Também tinha o Bar do "Purtuga", como o chamávamos, jogávamos sinuca e quem perdia pagava a coxinha e o refrigerante. Esse meu amigo, o Neto, sempre teve melhores condições que eu, em certa época inclusive fui empregado dele, mas nunca em nenhum momento isso influenciou nossa amizade, ao contrário, quando não ajudava, não atrapalhava. Sim, e mesmo ganhando, sempre pagava a conta no bar. Hoje já casados e com filhos, filhas e neta, ainda nos vemos, não como antigamente, é claro, mas quem disse que amizade tem a ver com frequência de visitas?

Em média cinco ou seis vezes por ano, sentamo-nos na calçada, falamos de nossos segredos mais cabeludos, nossos erros, sem, no entanto, sofrermos a menor crítica, a menor censura. Na última vez, fomos comer coxinha na padaria... pena não ter uma mesa de bilhar! Fui ver a definição de amizade e li que é a relação afetiva entre indivíduos. É o relacionamento que as pessoas têm de afeto e carinho por outra, que possuem um sentimento de lealdade, proteção. Definição fraca pelo sentimento que há tantas décadas nutre nossa relação. Indo ao encontro com a definição de seu nome, Ângelo, bom amigo de um caráter que impressiona, de uma tranquilidade que me ensinou muito, probo, ilibado, exemplo de filho, pai e esposo. Com certeza, nos conhecemos de vivências passadas e prosseguirá para a imortalidade. Obrigado, Neto por tê-lo como amigo.

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