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O propósito

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Mario Sérgio Cortella defende a vida plena. Ele, o colega Luiz Felipe Pondé e o historiador Leandro Karnal se tornaram uma espécie de "tradutores de pensamento" de boa parte da sociedade contemporânea. Dos três, que também se notabilizam como professores e comunicadores, gosto mais de Cortella. Talvez porque, dentre eles, parece ser o mais simpático e espontâneo. E acerta na mosca.

Ontem cedo, li algumas declarações recentes que ele deu em evento em São Paulo - mais especificamente ao canal VivaBem - sobre uma coisinha à toa: o sentido da vida. O "medo dos medos", para a maioria, é a morte. Cortella vê outro: o de ter uma vida "inútil, fútil e desperdiçada". Em resumo: precisamos de propósito. Ainda mais agora que todas as pesquisas apontam para novos ciclos de aumento da expectativa da existência. Vamos fazer o quê com tanta vida assim?

Propósito foi o que não faltou aos jovens franceses que, em maio de 1968, fizeram história: uma revolta estudantil acabou ganhando adesão de operários e os ecos daquele ano intenso são sentidos até hoje.

É bem verdade que as coisas ficaram amplas demais e os atos motivados por uma causa se tornaram gritos de guerra contra todo um sistema, mas valeu. Não foi inútil nem desperdício a moçada da terra da torre ter, num primeiro momento, reagido à prisão de estudantes que protestavam contra a guerra do Vietnã, o que se transformou em uma bola de neve de reinvindicações, inclusive, por mais direitos civis.

No Brasil, Caetano Veloso se apropriou de um slogan da época, espalhado pelas ruas de Paris, com sua música "É Proibido Proibir". Uma outra palavra de ordem dos franceses rebelados era "seja realista, exija o impossível". Em 6 de maio de 1968, por exemplo, a galera foi às ruas protestar contra sanções universitárias e exigir a libertação dos universitários encarcerados.

O pau comeu. Dezenas de presos e feridos. O presidente De Gaulle acabou antecipando eleições para junho, ele e sua turma ganharam, depois renunciou (em 1969) e morreu (em 1970). Pronto, acabou. Todos morreremos: contra isso não adianta protestar.

Melhor ouvir Taiguara, que canta em "Viagem": "Vai, abandona a morte em vida em que hoje estás". Ou ler Cortella, que tem uma frase assim atribuída a ele: "A tragédia não é quando um homem morre. A tragédia é o que morre dentro de um homem".

O autor é editor do JC.

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