O número de jovens de até 25 anos com dívidas contraídas e não pagas no comércio de Bauru disparou nos últimos cinco anos. Segundo dados da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), o volume de novos inscritos nesta faixa etária em serviços de proteção ao crédito, como o próprio SPC, triplicou de 2018 para 2022, mesmo ainda faltando quase três meses para este ano acabar.
Fatores como a pandemia de Covid-19, aumentos da inflação e da taxa de juros e facilidade para acesso ao crédito estão entre os motivos que ajudam a explicar o problema. Conforme a CDL, em 2018, 284 jovens consumidores da cidade tiveram o nome negativado por inadimplência junto às lojas associadas do órgão, uma média de 24 pessoas a cada mês.
Já de 1 de janeiro a 5 de outubro de 2022, foram incluídos 939 novos nomes no sistema de serviços de proteção ao crédito, média mensal de 104 indivíduos. No ano inteiro de 2021, foram 1.108 inclusões de devedores com até 25 anos, o que corresponde a 92 pessoas por mês.
E, assim como a quantidade de jovens endividados, o montante devido por cada um deles também aumentou. Em 2018, o valor médio era de R$ 679,13 e, agora, saltou para R$ 1.393,89.
Consultor jurídico da CDL, Elion Pontechelle Junior avalia que, além de questões macroeconômicas, os jovens são mais vulneráveis à inadimplência porque, ao ingressarem no mercado de trabalho, passam a experimentar, pela primeira vez, a possibilidade de decidir como gastar o próprio dinheiro.
DESCONTROLE
Considerando que grande parte da população brasileira não possui acesso à educação financeira, as chances de descontrole no orçamento não são pequenas. "E o problema normalmente acontece quando eles abrem conta em banco e pegam cartão de crédito, inclusive para fazer uso junto com os pais, que já estavam endividados", analisa.
O economista Diego Richene menciona que, para quem não faz controle de gastos, o uso do limite do cartão e outras formas de crédito acabam funcionando como uma espécie de complemento de renda. Assim, tendo em vista as altas taxas de juros cobradas, o jovem pode ficar inadimplente, sem sequer ter a real dimensão da 'bola de neve' que representa este endividamento.
Richene também pontua a dificuldade que os mais novos enfrentam para se manter no mercado de trabalho, devido à falta de qualificação profissional, enquanto a maioria das empresas exige experiência. "Para se ter ideia, a taxa de desemprego no Brasil está em 8,9%, mas, entre os jovens, ela dobra, chegando a 18%. Sem renda, evidentemente, eles não conseguirão pagar suas contas", completa.
CENÁRIO ECONÔMICO
As dificuldades geradas pela pandemia, com a perda de empregos e até mesmo a falência de pequenos negócios, também estão na lista das causas do aumento do número de inadimplentes com até 25 anos. Outro motivo é a alta da inflação, que chegou ao pico de 12,13% em abril, no acumulado de 12 meses, e contribuiu para corroer a renda dos trabalhadores.
Mais uma vez, para os jovens, que geralmente recebem salários mais baixos, a situação tende a ser ainda pior. "E, neste sentido, a Reforma Trabalhista foi uma faca de dois gumes, porque ela flexibilizou regras para o trabalho, criando, por exemplo, o trabalho temporário e o contrato intermitente de trabalho, com o objetivo de gerar mais empregos. Por outro lado, estas regras acabaram desprotegendo alguns direitos trabalhistas e os jovens são os mais afetados", observa o economista Diego Richene.