A liberdade, como fundamento da vida, perde sua significação em qualquer sociedade quando se relega ao aprimoramento da inteligência ao descurar-se a educação como fator excelso do aperfeiçoamento de um povo. A vida sem liberdade é escravidão. Não há vida sem liberdade e sim um mero ato de se estar vivo.
A liberdade não se adjetiva, ela é livre em si mesma. A liberdade, que fortalece e revigora cada vez mais aquele que aprimora a inteligência, só sobrevive quando é total e quando se autolimita livremente.
A liberdade rejeita em necessário respeito à inteligência, às limitações artificiais, expulsando com energia o corpo estranho que as provoca. A liberdade em excesso é licenciosidade, de menos é submissão: só ajusta medida, colocada pelo aprimoramento da inteligência, dará os limites de sua permanência. Num regime sem liberdade não há escala de valores, confundindo-se, num nivelamento absurdo, a inteligência e a burrice. O despreparo e a incompetência são presas fáceis da demagogia e do arbítrio, contribuindo para o retrocesso dos povos.
O médico paulista está hoje inserido neste contexto, onde a inteligência vacila e a liberdade se esvanece. A omissão imperdoável de todos nós, cedendo espaço para o avanço dos interesses daqueles que buscam o poder apenas pelo mando e retirando da classe média a liberdade de trabalho, conduziu a nação a uma estrutura que escraviza o médico e não emancipa o paciente. A assistência médica que se realiza em São Paulo é, de um modo geral, um acinte à inteligência, estimulada por um perverso sistema que burocratiza o médico e não respeita a liberdade do ser humano.
Se tivéssemos, forçoso é reconhecê-lo, a omissão da classe média, aceitando "bicos" como empregos e dando a eles um tratamento "bicoso" que, cultivado pela incompetência, transformou-se em modo de vida, não menos certo é que disso se aproveitaram os demagogos de todos os tipos para permanecer a estrutura escravagista hoje dominante.
A medicina, pelo seu próprio ministério e pela nobreza do elemento que manipula, exige a liberdade como imposição da inteligência e de respeito ao ser humano.
O ser humano é biopsicossocial e carrega em si todos os sentimentos inerentes ao complexo que lhe permite a busca de um mínimo de felicidade a que tem direito. No campo da medicina, há que se compreender que a doença é um processo psicossomático e assim deve ser tratado.
O médico não pode ser um reles mecânico e o paciente uma simples máquina, onde a troca de peças se efetua na frieza de uma rotina inteiramente material.
Existe algo superior que os aproxima efetivamente do relacionamento: o sofrimento de um e a missão do outro.
São forças que sublinhadas pelo amor, não permitem a submissão a que hoje estão sujeitas. É preciso reagir. Entre algumas formulas, a principal é reconhecer o produto médico, hoje um desconhecido.
Não basta, porém, bons médicos.
É preciso que exista um sistema que lhe conceda a liberdade de assim continuarem, sem serem compelidos a um conformismo que com o tempo, a todos nivelará por baixo.
Partindo da premissa de que quem faz assistência médica é o médico, somente o pleno conhecimento deste produto poderá reorientar as ações da sociedade para a assistência médica livre e inteligente que todos desejamos.
Não paira a dúvida que um médico ruim haverá de produzir uma assistência médica ruim e um médico bom dará uma assistência médica boa. Não há assistência médica boa com médicos incompetentes. Há dúvidas sobre está afirmativa? Na medicina, a competência com a liberdade é garantia da liberdade e da competência.
Todavia, para que se reconheça a competência que assegura a liberdade, é preciso reconhecer o médico e estabelecer um mínimo de proficiência, sem a qual ela não mais existe. Hoje o médico é um desconhecido.
Não o reconhecem e ao seu grau de competência os órgãos que têm por dever legal e moral zelar pelo aprimoramento da assistência medica.
É preciso que todos se conscientizem, inclusive autoridades, que doença não é mercadoria e menos ainda ideologia, não podendo sofrer as deletérias ações de intermediação, nem qualquer outra intervenção do falido regime estatizante, que desfigura a liberdade de pacientes e médicos.
Para o aprimoramento de qualquer produto é necessário o reconhecimento do médico do Estado de São Paulo. Há entre nós e os laboratórios farmacêuticos um entendimento para a realização do censo após a pesquisa.
Teremos então o pleno conhecimento dos problemas do médico, para assim melhor atacá-los, fugindo do tão vulgar "achismo" que hoje prepondera neste país.
O "eu acho" será substituído por números concretos e reais. O médico qualificado, forte, é orgulhoso dos seus conhecimentos, não enfraquece a sua arte e não decai no seu exercício.
Este médico não penaliza o paciente e não se subalterniza a uma estrutura prepotente, fortalecida pela inconsciência e irresponsabilidade dos defensores da demagogia da igualdade.
Um produto bom não produz resultados ruins, somente os sujeitos as vicissitudes da ciência, desde que exercida com probidade, liberdade e competência.
O autor é médico.