Regional

Medo de combustíveis acabarem gera corrida a postos em Bauru

Thiago Navarro e Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 8 min

Samantha Ciuffa
No Jardim Bela Vista, a procura foi tanta que a fila em um dos postos de combustíveis chegou a dar a volta em todo o quarteirão

Antes do anúncio feito na noite dessa quinta-feira (24) do acordo para suspender a greve nacional dos caminhoneiros, Bauru viveu um dia atípico. Um dos mais emblemáticos efeitos da paralisação foi a verdadeira corrida a postos de combustíveis, o que gerou filas de mais de duas horas e fez até com que, em alguns estabelecimentos, o produto até acabasse. 

Por conta da grande procura por combustível, não chegou a haver um desabastecimento geral na cidade, mas os preços aumentaram em praticamente todos os postos, assim como ocorreu em vários municípios da região.

A reportagem foi às ruas e encontrou filas de até quatro quadras para abastecer nos estabelecimentos bauruenses com os menores preços. Na média, a gasolina estava entre R$ 3,99 e R$ 4,39, enquanto o etanol variou entre R$ 2,53 e R$ 2,89.

Conforme o Jornal da Cidade noticiou ontem, o movimento já havia trazido mais efeitos na cidade. Itens básicos que compõem a mesa da população, como batata, cebola e tomate, registraram alta de preço. Também havia falta de outros produtos nos supermercados. 

PREFEITURA

Também antes do anúncio do acordo, a prefeitura mudou alguns serviços e limitou o abastecimento dos veículos. Foram liberados até 15 litros para veículos leves, 50 litros para caminhões e 100 litros para os trucados. Apenas veículos da Secretaria de Saúde, como o Samu, e do Copo de Bombeiros, continuariam com abastecimento normal.

A administração direta ainda adiou os serviços de recape, como o que estava em andamento na avenida Marcos de Paula Raphael, no Núcleo Mary Dota, por falta de CAP 50/70, material usado na produção de asfalto. Desta forma, apenas casos mais graves seriam priorizados, no tapa-buraco. Já a pavimentação feita por empresas terceirizadas, como no PAC Asfalto, ainda continuou, mas houve necessidade de redução, desde ontem, motivando a diminuição do ritmo de trabalho nos bairros que estão recebendo asfalto novo.

Por fim, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) informou que iria priorizar serviços de emergência, como falta d'água, retorno de esgoto em imóveis, consertos de redes de água e reparos de adutoras. A autarquia ainda disse que iria dar prioridade a vazamentos de grande porte.

Outros serviços, como fiscalização e remessas administrativas, seriam reduzidos ou suspensos para diminuir o uso de veículos.

Procon faz alerta para os aumentos abusivos

Como muitos postos elevaram bastante os preços, a coordenadora do Procon de Bauru, Fernanda Pegoraro, alertou aos consumidores que procurassem a entidade, no Poupatempo, caso detectassem aumento abusivo. "É necessário trazer o cupom fiscal com o valor cobrado pelo litro, no caso de combustível, e documentos pessoais. Com isso, podemos desenvolver ações fiscalizatórias. A identificação depende mesmo das denúncias do consumidor", frisa.

Ela lembra ainda que, se comprovado o aumento abusivo, o estabelecimento pode ser alvo de processo judicial. O Procon fica no Poupatempo e as denúncias também podem ser feitas pelo e-mail procon@bauru.sp.gov.br. "As denúncias podem ser feitas pessoalmente ou pela Internet, o importante é que as pessoas falem com a gente", finaliza.

Paralisação dos caminhoneiros teve aumento de bloqueio

Falta de combustível em várias cidades provoca filas nos postos  

Malavolta Jr.
Greve dos caminhoneiros na região de Agudos

No quarto dia de paralisação dos caminhoneiros em protesto contra a alta no preço dos combustíveis no Brasil, a região ganhou novos pontos de bloqueio, em Igaraçu do Tietê e Torrinha. O número de adesões nos locais onde a greve começou na segunda-feira (21) também aumentou. Em algumas cidades, como Bariri e Lençóis Paulista, alguns postos estão sem combustível. Frigoríficos também tiveram que realizar adequações por não conseguirem escoar a produção. Nessa quinta-feira (24) à noite o governo e um grupo de caminhoneiros anunciaram um acordo para suspender a greve por 15 dias.

Em Igaraçu do Tietê, segundo a Polícia Rodoviária, desde às 7h dessa quinta-feira (24), cerca de 300 caminhoneiros ocupam o pátio de um posto de combustível e acostamentos na altura do quilômetro 180 da rodovia Deputado João Lázaro de Almeida Prado (SP-255). No final da tarde, outro ponto de bloqueio foi instalado no quilômetro 19 da rodovia Dr. Américo Piva (SP-197), em Torrinha.

Luizinho Andretto
Motoristas de Jaú fizeram fila para abastecer em posto na avenida Anna Claudina

Pontos de paralisação nas rodovias engenheiro João Baptista Cabral Renno (SP-225), em Cabrália Paulista (quilômetro 270) e Santa Cruz do Rio Pardo (quilômetros 306 e 309); Comandante João Ribeiro de Barros (SP-225), em Pederneiras (quilômetro 220); Professor João Hipólito Martins (SP-209), a Castelinho, em Botucatu (quilômetro 19); e Dona Leonor Mendes de Barros (SP-333), em Marília (quilômetro 322), ganharam novas adesões. Em nota, a Concessionária Auto Raposo Tavares (Cart), que administra o trecho de Cabrália Paulista e Santa Cruz do Rio Pardo, informou que obteve liminar na justiça para garantir a circulação dos veículos e que acompanha os pontos de manifestação para manter a integridade de motoristas e manifestantes. "Sem prejuízo do direito constitucional de manifestação, a Cart reitera a importância de manter a segurança viária", alega.

Malavolta Jr.
Oswaldo Pires de Camargo, um dos organizadores da paralisação em Agudos

A reportagem visitou um ponto de bloqueio montado na altura de um posto no quilômetro 318 da rodovia Marechal Rondon (SP-300), em Agudos. Um dos organizadores do movimento, o caminhoneiro Oswaldo Pires de Camargo, que é de Agudos, conta que o número de manifestantes aumentou bastante neste quarto dia de greve. Nessa quinta-feira (24), segundo ele, cerca de 700 veículos ocupavam acostamentos e pátio do posto em apoio à paralisação.

"Não está dando nem para sobreviver direito. Quando quebra o caminhão, para conseguir dinheiro para arrumar dá trabalho. Nós não temos força de ninguém. Então, fica difícil. E esse preço do diesel, que era R$ 3,19 e foi para quase R$ 4,00, é um absurdo. Nós queremos ver uma melhoria e vamos ficar aqui até termos resultado", diz. Além de lanches, leite, água e refrigerante, ele conta que o grupo está recebendo doações de marmitas.

O caminhoneiro Gilberto Ramos da Silva, que é de Tatuí, fez uma entrega de tijolos em Birigui e, desde a tarde de quarta-feira (23), engrossa a lista de grevistas parados em Agudos. "É um movimento que deve ser abraçado. Nós estamos pagando pra trabalhar. Não tem margem de lucro mais", reclama.

O colega de profissão Benedito Camargo, de Marília, que se uniu ao grupo ontem, cobra uma política de valorização da categoria. "É o mínimo que a gente pode fazer para mostrar o valor que o motorista tem. Isso é para o governo ver que a gente não está brincando e respeitar mais os motoristas", afirma. "Está muito difícil, o óleo está muito caro, o combustível caro. Eu espero que essa grave beneficie todo mundo".

Malavolta Jr.
Paulo Sérgio de Oliveira, de Barueri, descansa em uma rede; momento de entrega de lanches aos motoristas

Morador de Barueri, Paulo Sérgio de Oliveira chegou ao posto na quarta-feira e passou a noite em uma rede. Ele conta que pretende ficar no local até que o governo anuncie alguma medida que beneficie a categoria. "Se a gente não aderir à greve, não vamos conseguir mudar nada", declara. "Com o preço do óleo diesel, o frete está ficando todo no combustível".

READEQUAÇÕES

Em razão da greve dos caminhoneiros, a JBS, que tem uma unidade em Lins, anunciou por meio de nota que está adotando algumas medidas nas suas fábricas, entre elas a paralisação de algumas unidades de carne bovina, aves e suínos, sob a justificativa de impossibilidade de escoamento da produção.

O gerente financeiro do Frigorífico Itabom de Arealva, Alessandro Bergamo, informou que a paralisação já afeta o escoamento da produção do abatedouro de frango. Ontem, nenhum veículo saiu da unidade porque vários caminhões que estavam retornando para serem carregados ficaram parados em bloqueios. "Tenho a venda e a mercadoria, mas não tenho o veículo para carregar. No caso do frango resfriado, a validade é curta, de apenas 15 dias, e, se a greve continuar, vamos ter que parar o abate", diz. Ele conta que uma reunião hoje irá decidir se o abate será suspenso em razão da maior adesão à greve.

A preocupação também é com o abastecimento de ração nas granjas, onde estão as aves que precisam ser alimentadas diariamente. De acordo com Bergamo, a greve pode reduzir o envio de ração porque os grevistas estão retendo os caminhões com soja nos bloqueios.

Malavolta Jr.
Greve dos caminhoneiros na região de Agudos 

O gerente explica que, na granja, a ração dura cerca de quatro dias e, sem a reposição, o estoque pode chegar ao fim. "Já há frigorífico com carga viva sendo parado. Ainda não ocorreu isso no nosso trecho, mas percebemos que a adesão à greve está aumentando", declarou. A unidade abate 100 mil aves por dia.

DESABASTECIMENTO

Com caminhões-tanques de distribuidoras de combustível parados nos bloqueios, motoristas da região fizeram filas em postos de diversas cidades para não correrem o risco de ficar a pé. O JC apurou que alguns estabelecimentos de Lençóis Paulista, Jaú, Bariri e Botucatu já estão sem etanol, diesel e gasolina.

A Prefeitura de Macatuba emitiu nota informando que, em razão da falta de combustível, a partir de hoje, o transporte circular vai funcionar apenas de manhã e no final da tarde para atender os trabalhadores. Já a coleta de lixo passará a ser feita três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras.

Em Botucatu, a prefeitura decretou estado de emergência e anunciou contingenciamento de combustíveis em alguns setores para garantir serviços essenciais, como transporte de alunos, merenda escolar, Samu, ambulâncias e viaturas da Guarda Civil Municipal (GCM). A coleta porta a porta da campanha do agasalho, marcada para o próximo sábado (26), foi cancelada.

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