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Dor e delícia de ter mente brilhante

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 9 min

Fotos: Samantha Ciuffa
Francisco Ishikiriyama e a mãe, Célia Ishikiriyama: diagnóstico de superdotação

Francisco mostra o robô que ele mesmo construiu

Certa vez, um professor da sétima série em uma escola da Alemanha deu o veredito a um de seus alunos: "você não vai dar em nada na vida". Anos depois, o garoto, que atendia pelo nome de Albert Einstein, se tornou o responsável por criar teorias que revolucionaram a física.

Isso já faz mais de 100 anos, mas, até hoje, crianças que com mentes brilhantes ainda enfrentam dificuldades para se adequar ao ensino regular da escola, podem ser mal compreendidas até mesmo pela inexperiência dos pais e sofrer bullying dos colegas. Não é fácil, para quem tem tão pouco tempo de vida, sentir-se diferente dos demais e, mais do que isso, ter a expansão do seu conhecimento limitada.

Na tentativa de contornar esta situação, mesmo que a passos lentos, Bauru desponta como município pioneiro, no Estado de São Paulo, no atendimento pedagógico especializado para estes estudantes. Por meio de uma iniciativa liderada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) desde 2015, alunos com altas habilidades começaram a ser identificados, para que tenham a oportunidade de desenvolver suas potencialidades, em qualquer área que seja (leia mais abaixo).

Foi no laboratório de robótica da instituição, por exemplo, que Francisco Yuki Ishikiriyama, 10 anos, se encontrou. Semanalmente, ele participa das atividades de robótica com música, quando tem oportunidade de montar robôs de maneira lúdica.

"Ele gosta de desmontar e montar coisas desde pequeno. Nunca gostou de brincar de bola e sempre teve um conhecimento muito vasto, um vocabulário realmente avançado", conta a mãe, Célia Aparecida Pereira Ishikiriyama, 38 anos.

ELETROSTÁTICA

Ela lembra que, com apenas quatro anos de idade, o filho deu "uma aula" sobre eletrostática para a diretora da escola para explicar porque se sentia desconfortável ao descer no escorregador. Mas, apesar da surpreendente capacidade de aprendizado, Francisco tinha dificuldades para se relacionar com outras pessoas de sua idade e, por vezes, ficava impaciente nas aulas, já que absorvia o que era ensinado em ritmo mais acelerado.

Ele foi, então, levado pelos pais a um médico, que chegou a suspeitar de Síndrome de Asperger, enquadrada dentro do transtorno do espectro autista. E, quando estava prestes a ingressar no primeiro ano do ensino fundamental, acabou ficando por um ano a mais no jardim de infância, por recomendação da diretoria da escola.

Na mesma época, quando já tinha aprendido a ler e escrever, veio o diagnóstico definitivo: Francisco tem altas habilidades, condição também conhecida como superdotação. "Além de robótica, ele conhece muito sobre biologia marinha e sobre o Japão. Qualquer assunto do interesse dele, ele vai a fundo. Com isso, acabou adquirindo um comportamento adulto e essa é a parte ruim, porque ele se tornou muito seletivo e quase não tem amigos", completa a mãe.

Aceituno Jr.
Maria Clara e suas versões para obras de Tarsila e Romero

DO TSURU A ABAPORU

"Um maço com cem folhas de sulfite não dura nada", diz Michelle Mendonça, 37 anos. Ela é mãe de Maria Clara Mendonça Silva, 10 anos, uma garotinha apaixonada pela arte de desenhar.

Na sala da casa onde mora, no Jardim Ouro Verde, ela tem, inclusive, um lugar cativo, com mesa e cadeira, onde passa horas deixando a imaginação fluir. De vez em quando, também reproduz, a mão livre, obras de pintores famosos, indo de Abaporu, da modernista Tarsila do Amaral, a O Gato, do contemporâneo Romero Britto.

"Também gosto de fazer origami. Tem o tsuru (ave sagrada do Japão), um papagaio, uma borboleta, um sapo. Aprendi vendo vídeos no YouTube até conseguir fazer sozinha", revela Maria Clara.

Tímida, a menina não é de daquelas crianças que gostam de falar pelos cotovelos, mas, mesmo econômica com as palavras, é notável o seu vocabulário e a articulação do seu raciocínio. "Ela sempre foi muito criativa. Além dos desenhos, também tem facilidade para fazer máscaras e fantasias", acrescenta a mãe, que sequer imaginou que a filha poderia demandar atendimento pedagógico especializado.

Foi a professora de artes da escola, orientada pelo projeto da Unesp, que suspeitou da superdotação. "Na Unesp, tive aula de ioga, aprendi sobre o sistema do corpo, conheci o laboratório de ciências", enumera Maria Clara. Além de artes, ela diz gostar de matemática, mas, por amar animais - especialmente pássaros, seu sonho é se tornar veterinária.

O Estado ainda é muito atrasado na área, diz especialista

Douglas Reis
Vera Capellini: falta de atendimento pode gerar introspecção

Todas as mães ouvidas pela reportagem são unânimes em afirmar que a falta de informações sobre a superdotação e a inadequação das escolas para acolher estes alunos são duas das principais dificuldades que atrasam e, por vezes, impedem o desenvolvimento das potencialidades das crianças. Uma das idealizadoras do projeto da Unesp, a professora do departamento de educação da universidade, Vera Capellini, faz a mesma análise.

Apesar de haver leis e resoluções que obrigam as três instâncias de governo a oferecer atendimento especializado, são poucas as cidades, como Bauru, que movem esforços, mesmo que de maneira incipiente, para garantir este direito.

“O Estado de São Paulo, como um todo, ainda é muito atrasado nesta área. Com isso, as crianças com altas habilidades podem passar toda uma vida escolar de frustração, sem poder experimentar e nunca vir a contribuir de maneira significativa para a sociedade”, comenta.

Em casos mais extremos, mas não incomuns, o grau de sofrimento dos superdotados pode ser ainda mais intenso, como é o caso de uma menina que está fazendo terapia, atualmente, no Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Unesp. “Ela não queria ir mais na escola, porque o que era ensinado não era interessante. Esta garota relatou que aprendia mais pesquisando na internet e em livros, mas se isolar não é o caminho”, pondera.

Segundo Vera, a literatura disponível sobre o tema aponta, ainda, que a falta de atendimento direcionado pode levar crianças mais introspectivas ou agitadas a serem alvos de bullying ou até a quadros de depressão.

DISPERSÃO E NOTAS ALTAS. COMO ASSIM?

Mariângela e Reuel Lanzetti revelam desafios, conquistas e sonhos de mãe e filho em meio às características bem próprias da superdotação?

Malavolta Jr.
Reuel Lanzetti, Mariângela Lanzetti e o livro "Extraordinário"

A dispersão e a inquietação na sala de aula e as notas sempre elevadas no boletim eram uma conta que não fechava para os professores e os pais de Reuel Vitor Lanzetti, 11 anos. Procurando respostas que demoraram a vir, especialistas chegaram a diagnosticá-lo com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). O resultado: o garoto passou quatro anos tomando medicação errada, um antipsicótico que o deixava sonolento.

Quem vê Reuel falando hoje, com tanta segurança, sobre sua vida e seus sonhos, mal pode acreditar nas crises que ele enfrentou. Certa vez, conta a mãe Mariângela Lanzetti, 37 anos, ele chegou a pular sobre os carros que estavam no estacionamento da escola e a subir no telhado da instituição.

Em um ato extremo de tentar fazer as coisas darem certo, o pai abandonou o emprego como vendedor para acompanhar o filho, por um ano inteiro, nas aulas do ensino fundamental. Em 2017, a família começou a observar melhoras significativas quando Reuel chegou ao sexto ano e foi transferido para um colégio particular que mantém a Escola da Inteligência, programa que desenvolve a educação socioemocional dos alunos, idealizada no País pelo médico psiquiatra Augusto Cury. "Ele também participa dos encontros promovidos pela Unesp, de robótica com música, e é atendido pela psicóloga de lá", conta Mariângela.

Os feitos de Reuel - que se define como "nerd dinâmico, com estilo próprio" - são muitos. Os primeiros começaram aos quatro anos de idade, quando o menino já sabia ler e escrever e conseguia fazer desenhos com simetria, coloridos em degradê.

"Foi a primeira vez que a possibilidade de ele ter altas habilidades foi citada, mas não demos importância, porque havia algumas dificuldades e não sabíamos que superdotação também tinha seu aspecto negativo. Foi um erro", lamenta a mãe, que passou a cursar pedagogia e fez cursos de educação especial para aprender mais sobre o filho, que tem diagnóstico de Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), caracterizado pela desobediência de crianças a figuras de autoridade.

SEM PADRÕES

Reuel chegou a ser agressivo com familiares e colegas. Hoje, diz ter boa convivência com meninos da sua idade, mas confessa que "é diferente" conversar com os adultos. "Assim como eu, meus colegas gostam de internet, são seguidores de canais no YouTube, mas os assuntos em conversas com meu pai, por exemplo, são outros", afirma.

Sem seguir padrões, o garoto diz que gostaria de ser "muitas coisas". Com boa habilidade para desenhar, ele também devora livros de biologia e química - embora ainda não tenha estas disciplinas na escola - e todo tipo de ficção. "Gosto muito de animais pré-históricos, de astronomia e ler sobre bactérias, células. Também quero ser um estudioso sobre energia estática", acrescenta.

Na lista, estão ainda habilidades acima da média com matemática, música e futebol. Com um bom tempo para pensar, Reuel também projeta o futuro: quer ser motorista de ônibus, arqueólogo, astrônomo, biólogo ou "detetive particular consultivo como Sherlok Holmes".

PROJETO

Bauru foi a primeira cidade do Estado a contar com projeto para oferecer atendimento pedagógico especializado a estudantes de escolas públicas considerados superdotados. Desde 2015, 23 alunos diagnosticados com altas habilidades participaram das atividades oferecidas pela Unesp e outros 13 estão, atualmente, participam dos encontros nas áreas de robótica, corporeidade, anatomia, paleontologia, astronomia, impressão 3D e esportiva.

Além disso, dentro de um protocolo firmado com o Ministério Público em parceria com a universidade, o governo do Estado disponibilizou um pedagogo especializado em educação especial para ministrar aulas na Escola Estadual João Pedro Fernandes, duas vezes por semana, no contraturno escolar, a 11 alunos com altas habilidades. Há negociações em curso ainda para que outro profissional seja designado para atender 13 estudantes na Escola Estadual José Viranda e um terceiro para dar aulas em uma escola do Centro a crianças de várias unidades. Vera Capellini diz que a prefeitura também se comprometeu a destacar, ainda neste ano, um pedagogo especializado para os alunos da rede municipal. Enquanto isso, a Unesp também oferece cursos de formação gratuitos aos professores municipais e estaduais, para que eles sejam habilitados a identificar possíveis alunos superdotados que possam ser encaminhados para o projeto.

"Nossa expectativa é fortalecer o projeto e fazer com que se torne uma política pública, para que ganhe autonomia e, em algum momento, não precise mais depender da Unesp", planeja.

A iniciativa foi idealizada pelas professoras Vera Capellini, do departamento de educação da Unesp, e Olga Rolin Rodrigues, do departamento de psicologia. Hoje, a equipe que conduz as atividades na Unesp é composta por cinco professores doutores em diferentes áreas, três alunos de doutorado, sete de mestrado e dois graduandos, por meio de iniciação científica.

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