| Fotos: Samantha Ciuffa |
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| Mototaxistas contam as experiências e os desafios de suas idas e vindas pela cidade |
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| Fernando Tenório se prepara para mais uma corrida |
Eles diminuem distâncias, encurtam as esperas e transportam, de um lado a outro da cidade, quem ou o que precisar. A profissão, que muitas vezes está associada a uma complementação de renda, é a primeira opção de muitos dos mototaxistas espalhados por inúmeros pontos de Bauru.
Com anos de profissão, eles também reúnem suas dificuldades e insatisfações, além de testemunharem as mudanças no trabalho no decorrer do tempo. Ainda sim, dividem a paixão pelas motos e a satisfação do atendimento ao público.
Em Bauru, o serviço de mototáxi é regulamentado desde 1999 por um decreto municipal, sendo necessário que o prestador do serviço tenha cadastro junto à Emdurb, curso preparatório no Sest/Senat e exigências como obter veículo com, no mínimo, sete anos de fabricação e registro na categoria aluguel, além de acessórios diversos: colete de segurança refletivo, antena corta cerol, mata-cachorro, entre outros. Atualmente, a cidade conta com 319 motociclistas cadastrados até maio deste ano, número próximo aos registrados nos últimos dois anos.
| Samantha Ciuffa |
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| Donizetti da Silva mantém o trabalho de mototaxista junto ao de porteiro: "Sempre tive dois empregos" |
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| Bruno Rafael Velasco Egídio aproveita o intervalo entre as corridas para uma partida de bilhar com os colegas; a atendente Guacira Pires Ramos observa ao fundo |
OPORTUNIDADE
Donizetti da Silva, de 54 anos, é mototaxista desde os tempos da regulamentação, há 19 anos. Ao longo desse tempo, ele desempenhou outras funções, tendo o mototáxi como complemento de renda.
“Hoje, eu sou porteiro e trabalho dia sim, dia não aqui no ponto. Toda a vida eu trabalhei com mais alguma coisa e tinha o mototáxi como uma oportunidade para ajudar na renda mesmo. Só não trabalho de noite porque é muito arriscado, difícil pegar corrida boa”, afirma Donizetti que trabalha na região do Jardim Europa.
Com apenas três meses de profissão, Bruno Rafael Velasco Egídio, de 25 anos, também divide o trabalho de mototaxista com outras atividades. “Essa foi uma opção de renda para mim, porque eu tinha amigos aqui no ponto”, afirma. O jovem faz curso noturno de Engenharia Civil e busca por outras oportunidades. “Por enquanto estou trabalhando com isso, mas pretendo conseguir alguma oportunidade na área mais pra frente”, diz enquanto joga uma partida de bilhar, prática comum entre os mototaxistas enquanto aguardam uma chamada.
OPÇÃO
Pai de família, com três filhos e mais um à caminho, Fernando Tenório, de 27 anos, vê a profissão de forma um pouco diferente de Donizetti e do colega de ponto, Bruno. O mototaxista atende a região da Vila Falcão e Vila Dutra e leva o serviço como sua primeira opção. “Minha esposa não trabalha. Então, é com o salário do mototáxi que vivemos. É uma quantia que dá pra cobrir nossos gastos”, destaca. Além disso, Fernando já trabalhou à noite e confirma a insegurança de Donizetti. “Prefiro trabalhar a tarde do que à noite. Faz uns sete anos que estou de dia, então não sei se mudou muito, mas sempre foi um período complicado para trabalhar, por questão de segurança”, conclui.
'COSTURANDO' O PRECONCEITO
| Samantha Ciuffa |
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| Rosimeire Delchiaro Bispo diz que não leva em conta o preconceito: "Sei que faço um bom trabalho" |
Uma demissão e a compra de uma moto, há 21 anos, mudaram os rumos da vida de Rosemeire Delchiaro Bispo, de 48 anos. Com alguns conhecidos mototaxistas, a oportunidade de trabalhar na área surgiu e ela agarrou. “De primeira, eu não gostei. Naquele tempo, era muita molecada, não eram homens sérios, pais de família que estavam querendo trabalhar”, afirma.
Poucos meses depois, ela foi trabalhar em um escritório, por três meses e novamente foi desligada. “Voltei para o mototáxi, em outro ponto. Neste sim, fiquei por 10 anos e agora estou aqui”, afirma a mototaxista de um ponto próximo à Rodoviária. “Aqui eu tenho autonomia. Não e vejo trabalhando com outra coisa”, conta.
Em um ambiente majoritariamente masculino, Rosemeire conta que já sofreu preconceitos. “Já teve homem que não aceitou a corrida, que estava na minha vez, porque não iria com uma mulher. ‘Já é ruim em um carro, imagina em uma moto’, eu já ouvi. Mas, também, muitas mulheres têm mais segurança em ir comigo. Alguns homens pedem para suas namoradas e filhas também”, conta. “Eu não ligo, sei que faço um bom trabalho. O trânsito mudou muito desde quando comecei, hoje é bem mais perigoso. Mas digo que tenho uma parabólica. Estou dirigindo por mim, pelo outro, pelo pedestre, pela criança e pelo animal, prestando atenção em tudo”, conclui.
ALÉM DOS BURACOS E VALETAS
Mototaxistas contam que as dificuldades encontradas no percurso não se resumem às condições estruturais da cidade
| Fotos: Samantha Ciuffa |
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| Ricardo Rodrigues Alves Corrêa lamenta a imprudência de alguns motoristas na cidade |
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| Alessandro Aparecido Pereira, Claudinei Garcia Cruz e Valdemir Bergamasco relatam prejuízos por conta de buracos |
Dentre as dificuldades encontradas pelos mototaxistas no dia a dia, buracos e valetas da cidade aparecem em alguns relatos. Mas grande parte desses profissionais nem leva isso em conta perto de outros desafios encontrados no percurso. "Nós estamos tão acostumados a desviar ou pegar outras rotas que estes nem são problemas tão grandes", afirma o gerente de um ponto de mototáxi no Geisel, Ricardo Rodrigues Alves Corrêa, 31 anos.
Há 5 anos nesta função, ele explica que, antes disso, já desempenhava o trabalho como mototaxista e o desafio sempre foi outro. "O que eu vejo de pior na cidade são os próprios motoristas. Ninguém enxerga o motociclista. Isso sem contar que, agora, as pessoas usam o celular enquanto dirigem. E não é só no ouvido, é digitando, o que divide ainda mais a atenção com o trânsito", reclama.
Além disso, Ricardo Rodrigues Corrêa - que gerencia o negócio que é de seu irmão há 15 anos - afirma que está com dificuldades para encontrar novos motoristas. Hoje, o ponto conta com oito motos, mas, em outros tempos, já foram 12 motoristas.
"Eu acho que o pessoal leva mais como um hobby ou como um 'bico', e não como uma profissão mesmo. Vem para o mototáxi, mas fica esperando aparecer uma oura coisa", conta. "Nossa intenção é deixar 24 horas. Mas estamos com dificuldade para achar motociclistas que queiram trabalhar à noite. Porque as corridas são meio estranhas, tem que ficar esperto para não ter relação com drogas, é mais complicado do que durante o dia, em que as corridas são mais para o Centro e shopping", completa.
GASTOS
| Samantha Ciuffa |
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| Paulo César Francisco sai para atender um cliente |
Uma das possíveis razões para a baixa procura pelo trabalho, de acordo com Paulo César Francisco, 47 anos, seriam os gastos para se manter na profissão. "A gente não tem incentivo da prefeitura para tirar moto zero mais barata. Nós temos muitos gastos. O custo para você se cadastrar, por exemplo, gira em torno de R$ 1,5 mil. Para quem está desempregado, é muito alto", comenta o mototaxista do ponto no Geisel há 2 anos.
Em um dos pontos do Centro da cidade, mais exatamente na quadra 7 da rua Agenor Meira, os mototaxistas comentam que as valetas e buracos até são um empecilho, mas o principal desafio está no preço das corridas.
"Está difícil para todo mundo. Aqui no Centro, vemos como o movimento caiu. Temos algumas corridas fixas, mas o movimento de pessoas parando aqui no ponto também deu uma diminuída. Fazemos um preço justo, mas muita gente não concorda. Isso é bem difícil, porque temos muitos gastos com a moto, inclusive por conta de buracos e valetas da cidade, e, às vezes, até saímos no prejuízo", comenta o mototaxista Claudinei Garcia Cruz, 48 anos, com os colegas de ponto.
CADASTRAMENTO
| Samantha Ciuffa |
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| André Ricardo Dioclides critica as dificuldades na regularização do serviço |
Dono de um ponto de mototáxi no Jardim Europa, André Ricardo Dioclides, 42 anos, concorda com o gerente do ponto do Geisel. "Serviço tem, cliente tem bastante, mas não achamos motociclistas para trabalhar", diz. Ele conta ainda que travou uma briga, por anos com a Emdurb por conta das normas para regularizar seu estabelecimento.
"Meu ponto tem que ter 100 metros do ponto de ônibus e eles vieram e marcaram. Deu 103 metros. Mas em outros casos, eu sei que os mototáxis ficam quase em frente ao ponto de ônibus. A Emdurb liberou para alguns e 'rasgou' as normas dos mototáxis. Muita gente está correndo por aí sem a carteirinha, chamado de clandestino, mas a culpa não é do trabalhador, mas da Emdurb, que aperta muito e não oferece nada", critica.
OUTRO LADO
De acordo com o encarregado do Setor de Transportes Especiais da Emdurb, Fausto Cézar Bertoldo Tigre, em um decreto antigo havia uma previsão legal de 100 metros de distância, que foi alterado. "O decreto atual, de 2015, diminuiu a distância para 50 metros. Na área central, que chamamos de polo gerador, não há um limite por norma, isso porque quisemos facilitar a fiscalização de clandestinos, que utilizavam estacionamentos de motos comuns para o exercício da profissão", frisa.
Ainda segundo ele, os gastos para se regularizar junto ao município somam cerca de R$ 1,1 mil. "São R$ 600 para o documento do veículo, R$ 300 para fazer o curso de especialização, uma taxa de R$ 160 paga na prefeitura, para o cadastro na Secretaria de Finanças e o alvará de R$ 63,48", especifica Tigre.
VOCÊ SABIA?
Este é o último domingo do Maio Amarelo. O movimento propõe chamar a atenção da sociedade para o alto índice de mortes e feridos no trânsito em todo o mundo. Diversos segmentos da sociedade promoveram ações de conscientização, durante todo o mês, inclusive em Bauru. Vale lembrar que, até abril deste ano, foram registradas na cidade duas mortes por atropelamento e duas de motoristas de motos. Estes, lideram os índices de vítimas fatais nos últimos anos.
| Samantha Ciuffa |
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| Jefferson Antônio da Silva: Uber provocou queda no número de clientes |
QUEDA NA PROCURA
Nos pontos em que a reportagem esteve, a maioria dos mototaxistas não tiveram reclamações em relação ao serviço recém-chegado na cidade, Uber. No entanto, o aplicativo foi apontado em uma das reclamações da classe, no ponto da Vila Falcão, a concorrência desleal em relação à regulamentação deste serviço. "Tanto nós mototaxistas quanto os taxistas sofremos uma burocracia grande para nos cadastrar. Estamos nos mobilizando para que esse serviço seja regulamentado também para eles, com o mesmo rigor que é para nós. Não foi só eu que senti a queda de clientes, em outros mototáxis eu também sei que caiu a procura em 70% ou mais", afirma Jefferson Antonio da Silva, de 34 anos.
Em nota, a Uber informa que a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) decidiu arquivar inquérito administrativo sobre suposta concorrência desleal relacionada à Uber em 2017. “Não é concorrência desleal. O foco da Uber é oferecer mais opções para as pessoas se movimentarem pelas cidades. O próprio CADE divulgou um estudo apontando que a chegada da empresa no mercado não mudou o panorama do transporte individual público do Brasil. E a Uber paga impostos. Somos uma empresa legalmente constituída no Brasil e estamos em dia com os impostos devidos para operar no País. Em 2017, a Uber pagou um total de R$ 972 milhões em tributos”, diz o texto.
A empresa ainda destaca que está sempre aberta para discutir os benefícios que a tecnologia pode trazer para as pessoas e para as cidades.
'ELE JÁ É UM AMIGO PARA MIM'
A frase é da diarista Agda Aparecida de Oliveira que conta com o mototaxista todos os dias; outros passageiros também comentam suas experiências de confiança?
| Aceituno Jr. |
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| Agda Aparecida de Oliveira precisa se locomover do local onde mora, no Jardim América, para diversos bairros de Bauru |
| Fotos: Samantha Ciuffa |
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| Laís Rodrigues vai com o mototaxista Silvio Cardoso Filho para casa, após o dia de trabalho |
Com o serviço de diarista, Agda Aparecida de Oliveira, de 45 anos, precisa se locomover do local onde mora, no Jardim América, para diversos bairros de Bauru. Cada dia a limpeza é em um lugar diferente e, para não acordar tão cedo, seu aliado é o mototáxi.
“Comecei pedindo às vezes, mas a comodidade de ir e vir de mototáxi, na hora em que eu preciso, é muito boa. Hoje, ele já sabe certinho o horário que eu preciso sair de casa, às 7h30, ligo um dia antes para combinar e sei que ele vem”, comenta. Ela também usa o serviço na hora de ir embora. "Quando não vou de carona, combino com ele também", diz.
Por fazer o mesmo ritual pela manhã e final de tarde, Agda comenta que já criou uma relação amistosa e de confiança com o mototaxista de todos os dias. “Eu brigo com ele, dou bronca, mas ele já um amigo para mim, alguém em quem eu confio até para ir ao banco caso eu precise”, comenta.
ENTREGAS
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| No ateliê de Maria Regina, as encomendas chegam ao destino pelas mãos dos mototaxistas |
E quando não é você, mas é o seu trabalho que está rodando por aí? Este é o caso de Maria Regina Martins de Oliveira, 54 anos, sócia em um ateliê de costura no Geisel. Ela e a sócia já não se preocupam em como entregar as encomendas de seus clientes. “Aqui, fazemos muitas estampas em camisetas, muitas peças de figurino para academias de dança e também precisamos buscar tecidos. Geralmente, não temos como sair de carro e deixarmos a loja sozinha”, conta.
É aí que eles entram. Assim como Agda, Maria Regina e a sócia confiam nos mototaxistas ‘de sempre’ para fazerem as entregas por elas. “Pedimos sempre no mesmo lugar e com bastante frequência. Se não vem um, vem outro e conhecemos todos os mototaxistas do ponto. São de confiança e nunca tivemos problemas”, afirma.
NÃO PERDER A HORA
Em uma relação menos pessoal com os mototaxistas, a vendedora Laís Rodrigues, 24 anos, também usa bastante o serviço. “Por mês, uso mototáxi, pelo menos, umas dez vezes”, comenta. A jovem trabalha na região do Shopping e estava em um dos pontos de mototáxis do Centro. “Vim com uma amiga para cá e, quando é assim, já pego um mototáxi para chegar mais cedo em casa. Também uso quando eu perco o horário e, geralmente, é neste trajeto, da casa para o trabalho e vice-versa”, conclui Laís.
RELACIONAMENTO BOM
| Samantha Ciuffa |
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| Guacira Iris Ramos convive com os mototaxistas diariamente |
Em meio aos marmanjos, uma senhora atende telefonemas e encaminha cada um deles para os destinos de seus clientes, sempre respeitando o motorista da rodada. É isso que faz Guacira Pires Ramos, de 63 anos, há um ano e três meses em um ponto de mototáxi localizado na Vila Falcão. “Faço questão de deixar tudo certo na ligação para que eles não tenham problemas com os clientes e o serviço seja bem oferecido”, destaca.
Guacira ainda frisa que, mesmo em muitos mototaxistas, o relacionamento com todos eles é bastante positivo. “Não dão trabalho nenhum. São todos gente boa, a gente tem uma relação de amizade e de conversa muito boa”, comenta.
E essa não é a primeira experiência da atendente neste ambiente. “Já trabalhei quatro anos à noite em outro ponto de mototáxi. Então, já estou acostumada. A diferença, é que o fluxo é um pouco menor e tomamos mais de cuidado com os pedidos, por que às vezes a polícia para. Aí, por garantia para os motoqueiros, eles têm que sair sabendo certinho onde estão indo”, explica a atendente.













