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| Banco Central (BC) publicou decreto determinando a liquidação extrajudicial da Crediserv |
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimento administrativo para investigar irregularidades cometidas pela gestão da Cooperativa de Crédito Mútuo dos Servidores Públicos Municipais do Município de Bauru (Crediserv). Em janeiro deste ano, o Banco Central (BC) publicou decreto determinando a liquidação extrajudicial da instituição e os cooperados amargam prejuízos, sem saber se, um dia, conseguirão reaver os valores investidos.
Após receber denúncia, o procurador da República André Libonati instaurou o procedimento e já solicitou informações ao BC para analisar o caso e saber quais medidas poderão ser adotadas.
O motorista Pedro Alves, 56 anos, diz já não tem esperanças de receber o dinheiro de volta. Ele investiu mais de R$ 9 mil na Crediserv, quantia que foi sendo descontada aos poucos, ao longo dos anos, de sua folha de pagamento.
O objetivo era arrecadar o valor acumulado, com juros, quando ele se aposentasse. O merecido descanso veio no início do ano passado, mas a recompensa esperada, não.
"Durante muitos anos, 2% do meu salário foi para a cooperativa. Este seria o meu FGTS, já que trabalhador estatutário não recebe FGTS, mas eles alegaram que não tinham dinheiro. Tive que fazer um empréstimo, que vou pagar por muitos anos ainda, para quitar minhas dívidas. Fui vítima de um golpe", lamenta.
Ainda no ano passado, conforme o JC publicou, a Crediserv passou por auditoria, recebeu técnicos do banco e teve de suspender os empréstimos aos cooperados. Quando a liquidação foi decretada, meses depois, o BC destacou "o quadro de insolvência patrimonial, as graves violações a normas legais e o risco anormal" a que estavam submetidos os credores da instituição.
SEM CHANCE
Liquidante nomeado pelo BC, com amplos poderes de administração, Luiz Carlos Cruzes Barbeiro é taxativo: "não há a menor chance de todas as pessoas receberem os valores de volta, porque não existe dinheiro disponível".
Barbeiro argumenta que a cooperativa não possui dinheiro em caixa ou mesmo bens e que os créditos que ela teria a receber, relativos aos empréstimos concedidos aos cooperados, provavelmente não serão efetivados. "De R$ 8 milhões, estimamos que será arrecadado R$ 1,5 milhão, referente aos empréstimos consignados", aponta.
Segundo o liquidante, parte dos pagamentos já começou a ser realizada pela Credicitrus, autorizada pelo Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), que irá cobrir os prejuízos somente de uma parte dos depositantes. Pelas regras, os pagamentos serão feitos até o limite de R$ 250 mil, por CPF, aos cooperados que tinham, por exemplo, depósitos em conta corrente ou aplicações como caderneta de poupança.
Ainda de acordo com Barbeiro, estão enquadrados nestes critérios cerca de 1.000 dos 2.347 cooperados da Crediserv, entre funcionários da administração direta (prefeitura), DAE, Emdurb e outros órgãos municipais. O motorista Pedro Alves não está entre eles.
Após investimento feito por muitos anos, servidores lamentam perdas
Assim como Pedro Alves e a maioria dos servidores municipais, o engenheiro florestal Luiz Roberto Vicário só investiu nas chamadas cotas de capital, que corresponde ao valor descontado mensalmente na folha dos cooperados para, no futuro, ser arrecadada com juros. Trata-se de um investimento não coberto pelo FGCoop.
Em razão disso, também como Pedro Alves, Vicário acredita ser remota a chance de recuperar os valores. Durante 11 anos, ele acumulou R$ 12 mil, chegando, no ano passado, a ter aproximadamente R$ 140,00 descontados por mês do salário.
"Achei que fosse um investimento seguro, porque todos os membros da diretoria eram colegas servidores. Mas ninguém esperava que o presidente, que não era funcionário da prefeitura, fosse fazer o que fez. Infelizmente, fomos lesados e, pelos exemplos de casos semelhantes que temos no Brasil, dificilmente alguém será responsabilizado", reclama.
Nem mesmo o ex-secretário de Cultura, Elson Reis, hoje membro do Núcleo Gestor da Prefeitura, escapou do prejuízo. Ele conta que tinha um saldo de R$ 24 mil em cotas de capital quando a Crediserv interrompeu as atividades. Como o processo de liquidação extrajudicial pode demorar anos, acredita que irá se aposentar sem ver a cor do dinheiro investido.
"Ainda faltam alguns anos, mas será o momento em que eu vou sentir mais raiva, por lembrar que tinha valores a receber. E tem gente em situação muito pior, que iria utilizar este dinheiro não para fazer uma viagem ou coisa do tipo, mas para complementar a renda. O que a gente quer, inclusive a partir da iniciativa do MPF, é que, mais do que má-gestão, uma possível má-fé seja apurada", afirma.
