Uma Copa é um campo aberto de possibilidades. Pode acontecer de tudo e, nessa agora, está acontecendo mesmo. Já tivemos, ainda no começo dessa fase de grupos, praticamente um resumo de tudo o que o futebol é capaz de produzir. Inclusive o uso da tecnologia em sua força máxima para definir jogadas (como ocorreu em França X Austrália). Mas uma coisa não muda: é o instantâneo e, por vezes, surpreendente, surgimento de vilões.
Claro, também teremos heróis, mas muitos já são esperados (caso de Cristiano Ronaldo). O vilão, não: qualquer um pode virar... vilão. Uma fração de segundo é o bastante para marcar o sujeito para o resto da vida. Em Copas, há episódios recentíssimos e remotos. Agora mesmo, no jogo do Marrocos, acréscimos e... o atacante marroquino meteu a bola para o fundo de suas próprias redes. "Agora sou eu o idiota", declarou, inconsolável, horas depois. O Irã agradece.
Durante a semana pude rever uma declaração do já falecido ótimo goleiro Barbosa sobre o gol do uruguaio Ghiggia, que calou o Maracanã em 1950, e que imprimiu na testa do arqueiro brasileiro o injusto título de vilão: "Eu pensei certo e deu errado. Ele pensou errado e deu certo", declarou Barbosa.
Ele fazia alusão ao fato de que, no primeiro gol do Uruguai, a bola chegou em diagonal. No segundo, Barbosa assim pensou que de novo seria - e se posicionou antes do tiro adversário de modo a deixar seu corpo preparado para a defesa nessas condições. Mas a bola veio rasteira, no pé do poste, e Barbosa acreditava que nem era essa a intenção do adversário. E quem não se lembra de Roberto Carlos ajeitando as meias no lance que resultou em gol francês em 2006? Nem era Roberto Carlos o brasileiro quem deveria marcar na jogada, mas foi bombardeado pelas críticas (não de todo infundadas por não participar da jogada).
Messi, na prorrogação da final da Copa de 2014 contra a Alemanha, de determinado ponto de vista, também foi vilão por andar no gramado e nada realizar de incisivo. Perdeu a taça. E ontem? Deixou de converter pênalti contra a Islândia! Empate amargo.
Fora o trágico caso do zagueiro Escobar em 1994. Logo após fiasco da badalada seleção colombiana no Mundial dos EUA, acabou assassinado ao sair de uma boate em Medellín. Leonardo, na mesma Copa, quase arrancou a cabeça de um americano com cotovelada e acabou expulso, colocando o futuro do Brasil em perigo, mas, nesse caso, tudo acabou em festa com o tetra.
E Felipe Melo? Bom, como sou corintiano, vou evitar detalhes sobre aquele infortúnio dele contra a Holanda no duelo que tirou o time de Dunga da copa de 2010. Melo virou vilão e até hoje tenta se recolocar no imaginário do torcedor numa recuperação que pode, de fato, nunca se consolidar. Vilões, no futebol, não costumam ser esquecidos. Mas aqueles que sabem que não foram, enfrentam o destino.
Barbosa, num bonde, em 1951, estava afundado na leitura de jornal quando ouviu um passageiro falar ao outro: "Esse Barbosa, se eu encontro, dou-lhe uma na cara!". Barbosa abaixou o jornal, encarou o desconhecido e perguntou: "Você quer falar comigo?". Barbosa seguiu no bonde e o valentão saltou na primeira parada. Morreu Barbosa com a fama injusta de vilão, mas nunca carregou na camisa o escudo da covardia.