Os poetas emudecidos, os pastores grandiloquentes; os jovens depressivos, os velhos saudosos e arrependidos; os professores desmotivados, os alunos entediados; a esposa traída, o marido enganado, os amantes iludidos; o religioso com a pulga na orelha, o pastor com a contabilidade na mesa; o eleitor no escuro, os políticos nas sombras; os bem sucedidos viajando, os excluídos no mesmo lugar; o devedor protestado, o executivo executado, o agiota contando dinheiro; os criminosos na orgia, as faxineiras sonhando, os bêbados bebendo; o homem bom insone, o mau roncando, a garota sem programa, o cafetão irritado, um suicida e um bilhete... Tudo porque hoje é sábado. De segunda a sexta, a vida se repete. Nada muda, exceto a mosca. O domingo não vale nada.
Um quadro pessimista certamente. Claro, outro poderia ter sido pintado com energia otimista e imagens edificantes. Tudo é possível no mundo das palavras, trocando-se a tinta e a caneta. "Nascer é uma desgraça, viver é doloroso, morrer é uma dificuldade" disse São Bernardo. Para quem tem fé inabalável na bem-aventurança divina, a frase não passa de mera e vazia retórica. Todavia, aos ouvidos dos céticos e dos desgraçados, a sentença faz sentido.
Faz sentido a teoria de que o sofrimento humano nasce de um desajuste entre o tamanho dos desejos e a possibilidade de realizá-los. Entre o querer e o poder, um abismo e muita dor. Dois caminhos possíveis para não sofrer: adaptar-se ou rebelar-se.
Comecemos pelo primeiro, o caminho da necessária adaptação, que é o da resignação. Nele, o fundamental é aceitar a realidade. Por isso, a prudência recomenda tesoura para cortar os desejos que, em excesso, não cabem no possível.
A voz do povo - que dizem ser a de Deus - fala a mesma coisa, porém com imagem preciosa: o passo é perigoso quando em desacordo com o tamanho das pernas. Cortando desejos, o homem sensato conhecerá a quietude da paz, por desejar apenas o necessário e com ele se contentar. Ao contrário, entregando-se à ganância, estará sempre querendo mais e, exatamente por isso, será eternamente infeliz. Esse viver contido corresponde ao modelo ideal da vida estoica, doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264 aC) que proclama a necessidade de o homem se livrar das paixões, aceitando resignadamente o destino. Corresponde também ao nirvana budista, estado de plenitude espiritual, só possível quando se desapega dos bens materiais. Livre do querer, livre do sofrer.
Cecília Meirelles, entre outras imagens, fala poeticamente desse viver resignado no poema "Sugestão": "Sede assim qualquer coisa serena, isenta e fiel, como a flor que se cumpre sem pergunta, igual a pedra detida sustentando o seu demorado destino e ao boi que vai com inocência para a morte. Sede assim qualquer coisa isenta, serena e fiel. Não como o resto dos homens".
Pensemos, agora, no segundo caminho, o do rebelar-se. Nele não se aceita a realidade, age-se contra ela. Busca-se a felicidade pela conquista perene: um desejo é logo sucedido por outro e , sem trégua, continua-se desejando e conquistando até a chegada da morte, inevitável ponto final. Lembra a barganha faustiana: a venda da alma ao diabo em troca de poder.
É a reconquista do Éden, valendo-se do progresso científico e tecnológico para satisfazer todos os desejos e outros criar. Crendo apenas em si, o homem, o novo Deus, quer o paraíso aqui e agora, pois o depois nada será.
Dois caminhos: adaptar-se ou rebelar-se; não querer e querer sempre mais. Sempre é possível pensar no meio termo, costumeiramente considerado o mais sensato. Todo caminho, como tudo na vida, é uma questão de escolha. Nosso tempo e cultura já firmaram opção: bilhões de ávidos consumidores regidos pelo delírio narcísico. Quanto mais possuem, mais querem, para mais serem. Só os excêntricos pulam do carrossel.