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Fast-food

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Temos pressa e nenhuma paciência. Teclando, queremos a imediata resposta na ponta do dedo. Irritante, o elevador insiste em ignorar a velocidade tecnológica. A esteira da corrida cotidiana, pouco se importando com a nossa fadiga, exige-nos mais pernas, mais pulmões. O tempo enlouqueceu, os ponteiros desapareceram, ficamos sem relógio. Um oceano de notícias invade-nos os olhos e os ouvidos. Impossível digerir tanta informação transbordando dos livros, da televisão, da imprensa e da internet.

Impotentes estamos diante da produção anual de 1, 5 bilhão de gigabytes em informação impressa, em filmes ou em arquivos magnéticos. Tão acelerada a vida se tornou, que não mais conseguimos acompanhá-la. Um brutal desajuste de velocidade se estabeleceu entre o limite humano e o fluxo da modernidade. Até quando suportaremos?

Temos pressa e nenhuma paciência. E na pressa fazemos apenas o rápido, que é o possível. Muito mais temos a fazer. Como o ligeiro é irmão do mal feito, contentamo-nos com o superficial. Vivemos na era do epidérmico e, consequentemente, do descartável. Já não temos tempo para o bem feito, que demanda trabalho paciente e cuidadoso. Tudo é produzido para ser rapidamente consumido e descartado, coisas e pessoas. Nada permanece. Viramos fast-food.

No passado das cadeiras nas calçadas, ficou a saudade da conversa longa, descontraída e prazerosa. Em "Sinal Fechado", Paulinho da Viola denuncia o vermelho do semáforo: "Olá, como vai? Eu vou indo e você, tudo bem? Me perdoe, a pressa é a alma dos nossos negócios. Quando você telefona? Precisamos nos ver por aí. Vai abrir, por favor não esqueça. Adeus". No verde do sinal, aceleramos sem volta.

Esta rotina deprimente e imbecilizante colocou no nosso peito um vazio enorme, uma ansiedade sem tamanho. Daí fugirmos desesperadamente para entretenimento, para o gozo fácil e para o prazer entorpecente. Nas palavras de Mário Vargas Llosa, estamos vivendo na "civilização do espetáculo, um mundo onde o primeiro lugar na tabela dos valores vigentes é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal".

Nessa pressa de tornar o prazer analgésico amplamente acessível, uma exigência se impôs: facilitar ao máximo o consumo da mensagem cultural. Se não há mais tempo para pensar que os livros sejam fáceis, que a literatura seja light e o cinema, palatável. E que as imagens substituam as ideias. Já não há espaço para obras da alta cultura, cifradas em códigos herméticos, que exigem esforço decifrador. Sem defender qualquer elitismo intelectual, cultura que não pensa acaba virando pudim, apenas uma forma agradável de mastigar o tempo.

O pior é que, no mundo da pressa, a imagem tomou o lugar da própria realidade. A representação vale mais que o representado. Por isso, investimos tanto em imagem, hoje é mais importante parecer do que ser. Nas redes sociais, o pódio está repleto de campeões. Tudo se julga pela aparência, vale a casca não o conteúdo.

Santo Agostinho, pensador e teólogo do século V, já nos alertava: "Não sacia a fome quem lambe pão pintado". Estamos lambendo imagens pintadas, aparência, representação. Por isso, famintos estamos.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais. curso_romag@uol.com.br

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