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Perder, ganhar, viver

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Procuro me manter tranquilo, ligeiramente distanciado da Copa do Mundo. "Futebol se joga na alma", diz a poesia de Drummond de Andrade. O ludopédio deixou, há muito, de fazer parte das minhas prioridades. Entretanto, há momentos em que me perco, como tranquilo cidadão, no emaranhado de uma partida. E afloram-me ódios desconhecidos por adversários momentâneos; ou então, conheço o divino êxtase provocado por um simples e mero gol. "O gol é o orgasmo do futebol", dizia Dadá Maravilha.

Encontro um trecho na crônica de Drummond, que me pareceu bem atual. "...Vi a decepção controlada do presidente que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições."

A exemplo do que ocorreu no maior vexame da seleção brasileira, naquele fatídico 7 a 1, os políticos entram em campo e jogam para a arquibancada. Repetem chavões sobre a necessidade de renovação do futebol brasileiro. Ouvi conclusões do tipo, "o Brasil não pode continuar exportando jogador". Ninguém explica como irá aprisionar as jovens revelações ou repatriar Neymar ou Coutinho, na contracorrente da enxurrada de dinheiro que corre na Europa e na China. "O futebol trouxe ao proletariado urbano e rural a chave ao autoconhecimento, habilitando-o a uma ascensão a que o simples trabalhador não dera ensejo", ensinava o poeta em tons gramscianos.

O primeiro a estudar o futebol sobre o ponto de vista econômico, antropológico e histórico, foi Mário Rodrigues Filho (O negro no futebol brasileiro, 1947). Inspirado em Gilberto Freyre, Mário Filho descreve como o futebol se apropriou de elementos de origem africana, como o samba e a capoeira, subvertendo as raízes britânicas e se materializando numa instituição nacional. Também preocupado com a questão da miscigenação, ele propõe uma interpretação da história do futebol como instrumento capaz de integrar o negro à sociedade, deixando o racismo para trás.

Precisamos renovar, sim, os dirigentes da entidade que deveria planejar a formação de craques desde as bases. Esses cartolas sempre trataram, mas dos seus próprios interesses. Dos últimos ex-presidentes, um está preso nos Estados Unidos, outro se esconde porque é procurado pela Interpol e o terceiro foi banido do futebol. Dizem que Deus sentiu-se culpado de tanta qualidade do jogador brasileiro que procurou equilibrar as coisas com os dirigentes de futebol que temos.

Com exceção de alguns, que o consideram "o ópio do povo", o resto da humanidade ama o futebol. Há ainda aqueles que, como eu, odeiam amar o futebol. São dois bilhões de telespectadores em 213 países, assistindo aos espetáculos nos gramados da Rússia. Chovem críticas e memes sobre as exageradas reações de Neymar à caça implacável dos seus marcadores. Quando o atacante brasileiro levou um pisão de Layún, no jogo contra o México, a gritaria foi tanta que fez o juiz duvidar do VAR (Video Assistant Referee).

Se estivesse vivo, Jean Baudrillard iria gostar de ver seus conceitos sobre "Simulação e Simulacro" a serviço de uma análise interpretativa à luz da filosofia. Embora tenha se transformado em um estereótipo brasileiro, a arte de enganar é exercida por todos. No jogo da Inglaterra contra a Colômbia, o meia Henderson tomou uma leve cabeçada no peito e fingiu um golpe de UFC. A trapaça não só dança samba, como também toma chá das cinco. Só que "a bola pune". A frase não é de Baudrillard, mas de Muricy Ramalho, ex-técnico de futebol.

E tome Drummond: "Foi-se a Copa? Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal, cuidar dos nossos problemas". Bora trabalhar.

O autor é jornalista e articulista do JC.

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