| Malavolta Jr. |
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| Médico paliativista José Roberto Ortega Junior: enquanto há vida, há luta por qualidade |
Nós todos temos um encontro, no fim da nossa vida, marcado com ela. E como não há negociações quanto a isso, uma área da medicina se especializou em garantir que passemos nossos últimos dias com qualidade. A morte, para alguns, é assunto que não se deve ser discutido, por medo de atraí-la. Já para o médico paliativista José Roberto Ortega Junior, ela é motivo de cuidado, trabalho e dedicação.
"O cuidado paliativo é uma área que cuida de pacientes com doenças avançadas, com risco de morte, doenças incuráveis e que, em muitas vezes, encontram-se em grande grau de sofrimento. Sofrimento não só físico, mas também emocional, social e espiritual", conta o médico, que coordena este setor em Bauru na Unimed e na Beneficência Portuguesa.
Quando perdeu a bisavó, aos 18 anos, a sensibilidade de Ortega Junior fez com que a semente do cuidado paliativo ficasse guardada e que viesse a germinar, anos depois, após muitas outras experiências na medicina.
Esposo, pai, filho e neto, ele recorda, nesta entrevista, como foi a descoberta da medicina paliativista em sua vida e, mostrando como é preciso ter sensibilidade nesse ramo, não tem vergonha das lágrimas ao falar sobre a família e a gratidão gerada pela profissão. Leia mais:
JC - Como se deu o interesse pela medicina paliativista?
| Arquivo Pessoal |
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| José Roberto Ortega Jr. com a esposa Nara Sahade Ortega e os filhos Guilherme, Rafaela e Henrique |
Ortega Junior - Quando eu tinha 18 anos, eu comecei a me interessar por isso sem saber que era cuidado paliativo. Na época, eu queria cursar Biologia Marinha, mas minha bisavó ficou muito doente e veio morar com a gente. Ela já tinha noventa e poucos anos e faleceu comigo em casa, Só eu e ela. Ali, percebi que queria cuidar de gente e não de animais. Fui fazer Medicina em Taubaté e, no 5.º ano, entrei na UTI e me deparei com aquele ambiente que tangenciava a vida e a morte. Aquilo me fascinou. Então, conheci a Associação Brasileira de Cuidados Paliativos (ABCP) e reuni alguns colegas para irmos para São Paulo conhecer um pouco mais sobre o trabalho.
JC - Foi aí que começou a trabalhar com isso?
| Arquivo Pessoal |
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| Ao fundo, Ortega Junior; o irmão dele, Fábio; as crianças Rafaela e Guilherme; a esposa Nara; a avó Geralda; e a mãe do médico, Ana Maria (de verde) |
Ortega Junior - Ainda não. Na época, não havia uma área de especialização da medicina para isso. Então, fui fazer terapia intensiva. Fiz residência de clínica médica e de terapia intensiva, na Santa Casa de São Paulo. Até que, um dia, atendi uma senhora que me fez lembrar muito a minha bisa. Abandonei tudo e fui fazer residência de onco-hematologia, em Jaú. Depois, fui para Seattle, nos EUA, onde fiz mais especializações. Mas a vida dá muitas voltas e vim para Bauru, em 2008. Foi um momento em que eu parei para ponderar o que eu queria fazer como médico e os cuidados paliativos voltaram para a minha vida. Aí fiz minha pós na área, em São Paulo, no Hospital Sírio Libanês. Eu queria cuidar de pacientes em fim de vida, como a minha bisa.
JC - Como você atua nesta área?
Ortega Junior - No início, aplicava os conhecimentos um pouco sozinho, nas UTIs em que trabalhava. Mas, logo, surgiu a oportunidade para coordenar e montar os serviços de cuidados paliativos do Hospital da Unimed. Esse serviço está completando 2 anos e na Beneficência Portuguesa estamos com 8 meses.
JC - A Associação Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) catalogou 172 equipes que fazem esse trabalho paliativo no País inteiro, o que significa menos de 1%, já que o Brasil tem 2,5 mil hospitais. Você acredita que a medicina paliativa é pouco difundida?
Ortega Junior - Muito pouco. O que tem no Brasil inteiro, tem em um Estado dos Estados Unidos. A gente está crescendo, mas uma das grandes preocupações é que se cresça com qualidade. Queremos que as pessoas que vêm procurando esses cuidados recebam atendimento de qualidade e que os serviços conversem entre si, formando uma grande rede. Nisso, o Brasil precisa crescer.
JC - Como é fazer parte dessa minoria?
Ortega Junior - É muito bom. Poder fazer isso, com toda a luta que tenho e, mesmo assim, perceber que é bem feito, é muito mais gratificante do que se já tivesse uma realidade implantada.
JC - Como você lida com o sofrimento?
Ortega Junior - Existe um conceito da sociedade de não admitir o sofrimento. Como médico, eu coloco todo meu conhecimento em prol de diminuir isso. Mas é importante saber que o sofrimento pode ser um grande catalisador de transformações. Quantas coisas não nos fazem mais fortes e nos transformaram no que somos hoje depois do sofrimento? Esse é um grande impulsionador para mim. Isso chama resiliência. O que nossa sociedade precisa tanto desenvolver hoje, que se perdeu. A capacidade de aceitar, tolerar e transformar em algo produtivo. E eu sinto muito parte do sofrimento dos meus pacientes, porque eu sou humano.
| Arquivo Pessoal |
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| O médico, ainda criança, no colo do pai, José Roberto Ortega |
JC - E como você divide o tempo entre este trabalho denso e sua família?
Ortega Junior - Fazer esse balanço do trabalho, com a família, realmente, requer muita presença. Conseguir ter uma conversa de fim de vida com um paciente, que só tem aquele momento para falar e que não dá pra fazer em cinco minutos, e, lá em casa, sua família está te esperando para jantar é uma divisão dolorida. Mas, quando um paciente meu morre e o familiar do lado dele olha pra mim e me agradece... isso me dá força para, quando eu estiver em casa, eu estar presente e sabendo aproveitar o que tem valor, o que tem verdadeiro sentido, não a conta nem o dinheiro no banco, mas os relacionamentos.
JC - Você segue alguma religião?
Ortega Junior - Sim. A minha religião a gente conhece como Comunidade dos Cristãos. Uma comunidade religiosa que segue os ensinamentos do Cristo, dentro de uma filosofia de ver a vida chamada antroposofia. Ao me colocar cada vez frente ao fim da vida, mais conectado eu fiquei com minha religião.
JC - Além da sua bisavó, já teve outras perdas de parentes? Como você lida com a morte de entes queridos?
Ortega Junior - Difícil fazer a lição de casa. Apesar de sentir o sofrimento dos meus pacientes, não é igual com meus parentes. Sou muito mais marido, mais neto, mais filho do que profissional e os sentimentos são muito mais fortes. Hoje, vivo uma situação delicada com a minha avó, que está em uma condição bem frágil de vida. Já conduzi algumas situações, mas a minha capacidade de atuação profissional é bem menor. Dói muito, não consigo passar disso. Peço ajudo aos colegas profissionais. Acho que o grande desafio do ser humano é fazer em casa o que ele faz na rua.
JC - Em setembro, vocês vão fazer a 2.ª edição da Jornada Eduardo Alferes de Cuidados Paliativos, certo?
Ortega Junior - Sim. Essa jornada nasceu quando eu entrei para atender um paciente com câncer raro no fígado, o Eduardo Alferes, e tinha um primo dele lá, o Tom Almeida. Esse primo entrou nessa conversa de significados, de sofrimentos, de resolver pendências da vida e fizemos um atendimento conjunto. Saindo de lá, falei para ele que eu queria trabalhar com ele em outros projetos. Ele é consultor de desenvolvimento humano a grandes empresas e fez um curso no mesmo lugar onde me especializei nos EUA, por isso falamos a mesma língua. Quando completou um ano do setor da Unimed de Cuidados Paliativos, pensei em chamá-lo e fizemos essa homenagem com o nome da jornada. Ela é aberta não só aos profissionais da saúde, mas a pacientes e familiares.
Nota da Redação: Com 18 palestras, talk shows, workshops técnicos e de comunicação e com a participação de especialistas do Brasil e de outros países, o evento acontece nos dias 21 e 22 de setembro, na FOB. Para mais informações e inscrições, acesse https://jornadacuidadospaliativos.com.br.



