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| Hilda Hilst é reconhecida atualmente como grande escritora e poeta da língua portuguesa |
A sua inegável grandeza como escritora e poeta da língua portuguesa não tem mais como não ser esquecida, mas para chegar a tanto demorou para ter esse reconhecimento. Hilda de Almeida Prado Hilst (1930-2004) morreu há quatorze anos. A sua ligação com a região é por ter nascido em Jaú, embora tenha vivido boa parte da infância e adolescência em São Paulo e depois Campinas. A escritora publicou 20 livros de poemas, 12 de ficção, um de dramaturgia e seis coletâneas e vem recebendo o reconhecimento que não teve em vida, quando foi rejeitada por vários editores. Seus livros já foram traduzidos para o italiano, alemão, francês, espanhol e inglês. Nesta semana, foi a grande homenageada na 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
Hilda era filha do casal Bedecilda Vaz Cardoso e Apolônio de Almeida Prado Hilst, cafeicultor filho de imigrantes da Alsácia-Lorena. Seu pai foi diagnosticado com esquizofrenia e internado num sanatório quando Hilda tinha cinco anos.
"A obra dela tinha essa questão da sexualidade, do profano, discutia a moral e os costumes, que a própria sociedade da época tinha dificuldades de aceitar. Então, mais recentemente quando foi saindo as publicações e o trabalho dela desenvolvido na Casa do Sol é que as pessoas começaram a entender o processo literário ousado para a época. Tanto que ela não se sentia compreendida", comenta a secretária de Cultura e Turismo de Jaú, Carolina Panini.
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| A 16ª Feira Literária de Paraty (Flip) escolheu a escritora jauense Hilda Hilst como homenageada |
A prefeitura tem interesse em retomar o festival e já procurou representantes do Instituto Hilda Hilst para negociar a possibilidade de manter os eventos anuais.
A escritora iniciou na literatura aos 20 anos em torno de temas como o amor, o sexo, a morte, Deus, a finitude das coisas e a transcendência da alma.
O jornalista e escritor Lucius de Mello afirma que Hilda foi uma escritora completa com atuação na poesia, na ficção e na dramaturgia. "O grande desafio dos estudiosos da crítica é saber se a Hilda Hilst foi uma poeta ou uma prosadora. Se ela voou mais alto na poesia ou na prosa de ficção", questiona Lucius de Mello sobre a escritora que atuou em todos gêneros literários.
Mello é doutorando em Literatura e Cultura Hebraicas na Universidade de São Paulo e fez um ensaio sobre a obra da jauense em uma das disciplinas quando fez o mestrado. Ele faz um paralelo sobre a obra de Hilda com a dos poemas subversivos da israelense Yona Wollach. "Desvendar os mundos poéticos e narrativos dessas duas poetisas é um desafio de fôlego", explica o jornalista, que atualmente é roteirista do "Domingo Espetacular" da Rede Record.
Jaú demorou para reconhecer Hilda
Secretaria de Cultura organizou seis festivais literários com nome da filha ilustre, mas teve que suspender por falta de autorização do uso do nome
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| Luiz Henrique Segali Filho |
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| A secretária de Cultura e Turismo de Jaú, Carolina Panini, diz que município já realizou festival literário Hilda Hilst |
A escritora Hilda Hilst nasceu em Jaú no dia 21 de abril de 1930, mas viveu a maior parte de sua vida fora, inicialmente em São Paulo quando estudou na faculdade de Direito do Largo São Francisco e posteriormente em Campinas, onde a antiga residência é a Casa do Sol mantida pela Fundação Hilda Hilst e aberta a visitações, onde se realizam residências artísticas e encenações de peças de teatro. Depois que a escritora morreu e ganhou fama no País, no município onde seu pai viveu há um bairro com o sobrenome dela, porém não se trata homenagem à escritora e sim aos familiares dela.
A prefeitura realizou seis festivais de literatura levando o nome da escritora numa tentativa de fazer um resgate da obra da filha ilustre, porém teve que ser suspenso por não ter os direitos autorais autorizados pela fundação que cuida da obra de Hilda.
A secretária municipal de Cultura e Turismo, Carolina Panini, explica que o evento não é mais festival literário como chegou a ser realizado. "Um dos herdeiros pediu para suspender devido ao uso do nome da escritora. Não temos como arcar com os custos dos direitos autorais. Pretendemos agendar um encontro com ele para estudar uma forma de conseguir essa autorização. O valor nem chegou a ser discutido", declarou.
Jaú, cidade considerada muito conservadora de acordo com a secretária, foi um entrave para se orgulhar do nome de Hilda Hilst. A escritora também encontrou em vida dificuldades de ter muitos de seus livros publicados por grandes editoras não só na cidade natal, também nos grandes centros, considerados progressistas. "A obra dela tinha essa questão da sexualidade, do profano, discutia a moral e os costumes, que a própria sociedade da época tinha dificuldades de aceitar. Então, mais recentemente quando foi saindo as publicações e o trabalho dela desenvolvido na Casa do Sol é que as pessoas começaram a entender o processo literário ousado para a época. Tanto que ela não se sentia compreendida", comenta.
No estudo literário "Hilda Hilst e a arquitetura dos escombros", a pesquisadora Vera Queiroz comenta que "dificilmente o público leitor brasileiro, conservador e mediano em seus gostos literários, brutalizado por uma cultura televisiva de baixíssima qualidade e bastante precária, consegue digerir uma obra cuja engrenagem discursiva é motivada por uma fúria iconoclasta pela quebra dos padrões do 'bem escrever' e pela vontade de dobrar os limites da palavra, da sintaxe e das convenções banalizadas seja elas literárias ou morais".
Na infância, Hilda cursou o primário e ginásio num tradicional colégio de freiras na capital paulista. Somente aos 16 anos voltou à cidade de Jaú para visitar a fazenda do pai. Eles não se encontravam desde a separação familiar.
Quem folhear o mapa de Jaú vai verificar que existe a Vila Hilst, mas não está atrelada como se fosse uma homenagem à escritora. A secretária de Cultura explica que é por conta da família, onde tem o nome da rua Eduardo Hilst, parente da escritora.
Independente de tudo, Carolina Panini destaca que para Secretaria de Cultura é importante intensificar o resgate da memória da obra de Hilda, embora ela tenha vivido muito pouco em Jaú. "A maior parte da vida dela viveu em São Paulo e depois se recolheu à Casa do Sol, em Campinas, mas é da nossa cidade e foi uma escritora completa, escreveu desde poesia, crônica e dramaturgia. Quando a curadora da Flip decidiu homenageá-la levou muitos pontos em consideração, principalmente por ser mulher e trabalhar várias vertentes da literatura. É importante trazer isso para a cidade", ressaltou a secretária.
A reportagem não conseguiu localizar representante do Instituto Hilda Hilst até o fechamento desta edição. Atualmente Olga Bilenky mora na Casa do Sol desde meados de 1970 e dividiu a casa com a dona do lugar, Hilda Hilst. O filho de Olga, Daniel Fuentes, é herdeiro das obras da autora e administram a Casa do Sol e o Instituto Hilda Hilst.
| Fotos: Reprodução Instituto Hilda Hilst |
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| Objetos da escritora e poeta jauense Hilda Hilst |
Casa do Sol
A residência de Hilda Hilst, onde ela passou a morar a partir de 1966 localizada em Campinas até a sua morte em 2004, é atualmente a sede do Instituto Hilda Hilst, onde se realizam residências artísticas e encenações de peças de teatro.
O Instituto foi fundado em 2005 pelo escritor José Luís Mora Fuentes com a missão disseminar a obra e a memória da escritora , o IHH procura se consagrar como centro produtor e difusor de cultura, sobretudo na cidade onde está sediado.
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| A Casa do Sol foi a residência da escritora em Campinas |
Segundo o site do Instituto, não é essencial que o objeto de estudo ou pesquisa seja a obra ou a vida de Hilda Hilst, nem que seja a literatura seu eixo central. O Instituto abriga escritores, poetas, filósofos, dramaturgos, atores, artistas visuais, músicos, estilistas, físicos, matemáticos. A residência tem um custo diário, destinado à manutenção da Casa do Sol.
O residente tem um quarto individual, com banheiro ao lado, wi-fi, acesso acompanhado para pesquisa ou consulta à Sala de Memória Casa do Sol, além de conviver com a artista plástica, moradora e administradora da casa Olga Bilenky. Para entrar em contato com o Instituto pode enviar um WhatsApp para (11) 99261-3068.
'Hilda foi uma intelectual acessível'
Jornalista Lucius de Mello é autor de ensaio literário que faz paralelo da obra de Hilda Hilst com os poemas subversivos da israelense Yona Wollach
| Malavolta Jr. |
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| Jornalista Lucius de Mello atualmente é doutorando em Literatura e Cultura Hebraica na USP |
O jornalista Lucius de Mello é escritor e doutorando em Letras na Universidade de São Paulo (USP). Em Bauru e região foi muito conhecido do público quando esteve como repórter da Rede Globo por 14 anos e atualmente é roteirista do programa "Domingo Espetacular" na TV Record na capital paulista, mas tem se dedicado a estudar literatura, já publicou "Eny e o Grande Bordel Brasileiro" pela Editora Planeta e "A Travessia da Terra Vermelha - Uma saga dos refugiados judeus no Brasil" pela Companhia Editora Nacional, entre outros títulos. Recentemente é autor de um ensaio que traça um paralelo entre as obras de Hilda Hilst e a da israelense Yona Wollach, conhecida pelos poemas subversivos.
Para Mello, as duas autoras "estilhaçaram a própria identidade" para atingir o estado mais puro e subjetivo da poesia. O jornalista ao se dedicar aos estudos na academia acabou conhecendo muito a obra da jauense Hilda Hilst. A orientadora de sua tese é a professora Berta Waldman, que conviveu com a escritora brasileira em Campinas.
"O grande desafio dos estudiosos da crítica é saber se a Hilda Hilst foi uma poeta ou uma prosadora. Se ela voou mais alto na poesia ou na prosa de ficção", questiona Lucius de Mello sobre a escritora que atuou em todos gêneros literários. A escritora jauense escreveu 20 livros de poemas, 12 de ficção, um de dramaturgia e seis coletâneas. Os seus livros foram traduzidos para o francês, italiano, alemão, espanhol e inglês, tendo recebido nove prêmios literários.
Outra inquietude do jornalista e de muitos críticos: o que levou o mercado editorial brasileiro praticamente ignorar a obra dessa escritora por longo tempo que só teve o reconhecimento após a morte dela e vem sendo agora homenageada na Feira Literária de Paraty (Flip), o maior evento do país na área editorial com participação de escritores brasileiros e internacionais.
"Ela morreu há quatorze anos reclamando do mercado editorial. Tanto que em 1990 ela resolve dar uma banana, digamos assim usando as próprias palavras dela, para os editores do mercado editorial, quando publica ''O Caderno Rosa de Lori Lamby', que a autora chama as escandalosas memórias sexuais de uma menina de 8 anos sem o menor pudor de palavras obscenas", observa Lucius de Mello. A seguir os principais trechos dessa entrevista que resgata a obra da escritora que nasceu em Jaú, mas viveu em Campinas.
JC - Uma das críticas a Hilda Hilst é a de que sua obra teria sido hermética. Isso dificultou esse reconhecimento ainda em vida?
Lucius de Mello - O grande desafio dos estudiosos da crítica é saber se a Hilda Hilst foi uma poeta ou uma prosadora. Se ela voou mais alto na poesia ou na prosa de ficção. Ela fez todos os gêneros literários. Claro que nesse mundo Hilstiano foi hermética e também uma intelectual acessível. As obras se dividem em romance e na poesia. Sim teve momentos mais herméticos e mais populares. Ela escreveu mais de 40 títulos em 40 anos exaustivos, lendo os grandes nomes do cânone clássico. Foi autora muito séria. Outro detalhe que não podemos esquecer é a de que a Hilda foi aluna de Direito do Largo São Francisco da USP e colega da escritora Lygia Fagundes Telles nessa faculdade. Lia tudo e foi devoradora de livros, mas reclamava que toda essa seriedade durante os quarenta anos não teve reconhecimento do mercado editorial que não deu a mínima.
JC - Por que o mercado editorial foi tão impiedoso com a Hilda Hilst? O reconhecimento só veio depois que ela morreu.
Lucius de Mello - Isso é uma questão que também faço, por que os editores disseram não? Ela morreu há quatorze anos reclamando do mercado editorial. Tanto que em 1990, quando ela resolve dar uma banana digamos assim, usando as próprias palavras dela, para os editores do mercado editorial ao publicar 'O Caderno Rosa de Lori Lamby' que a autora chama as escandalosas memórias sexuais de uma menina de 8 anos sem o menor pudor e sem reserva de palavas obscenas. Quando ela faz esse livro contou que era um ato de agressão. Era uma banana para os editores e ao mercado editorial. Afinal, até aquele momento tinha um trabalho sério de pesquisa literária e ninguém deu valor nenhum. Ela usou um termo duro de que os editores te cospem na cara numa entrevista à TV Cultura em 1990 por ocasião do lançamento daquele livro polêmico. O único que não cuspiu na cara, que ela destaca, foi o Massao Ono, filho de imigrantes japoneses. A mãe dele nasceu em Hiroshima. Foi o primeiro a publicar 'O Caderno Rosa de Lori Lamby', porque os amigos que leram o livro disseram para ela: você está louca de publicar isso, esse livro é um lixo. Muita gente aconselhou a não publicar. O Massao Ono teve importância muito grande na carreira literária de Hilda antes dela morrer. Com a Flip agora em Paraty fazendo a homenagem à escritora o mercado editorial praticamente anti-Hilst se converteu.
JC - Há uma sugestão aos organizadores da Flip de não ter incluído na programação um debate com os editores que recusaram a publicar os livros de Hilda?
Lucius Mello - Sim sugeri de brincadeira na rede social, até porque não sou curador desse evento, é uma questão que gostaria de entender: como os editores que disseram não à obra de Hilda Hilst se sentem hoje vendo ela consagrada? A escritora já está no cânone literário brasileiro. Já ouvi crítico dizendo que a obra da Hilda pode ser colocada ao lado de Clarice Lispector. Vamos pegar três editores que disseram não à obra dela e explicar o motivo dessa rejeição. Quando eles leram a obra o que acharam?
JC - Na sua opinião, qual o melhor livro de ficção dela. Qual é o ponto alto da carreira da Hilda Hilst?
Lucius de Mello - A obra toda é muito boa. A poesia é perfeita: tem uma delas que acho muito boa. Até cito um trecho: 'Lobos são muitos, mas tu podes ainda na língua aquietá-los''. Já ouvi críticos especializados em Hilda dizer que a escritora tem períodos rasos em alguns momentos da obra e mais profundos em outros. O Machado de Assis, por exemplo, se analisar os primeiros romances, são considerados fracos em relação ao período da maturidade que são Brás Cubas e Dom Casmurro. Se ele, que é o grande escritor brasileiro, teve voos mais rasos, a Hilda também podia ter. Não dá, no entanto, para comparar se ela foi melhor na poesia ou na prosa.
JC - Esse ensaio literário que fez na Universidade sobre a comparação da obra da Hilda com da israelense Yona Wollach é de duas poetas "malditas" muito contestadas?
Lucius de Mello - Apesar de elas nascerem em terra completamente distantes e territórios com religiosidade muito forte: um o catolicismo e outro o judaísmo, o que chamou atenção é que as duas eram consideradas ''malditas e obscenas' e procuraram o caminho do erotismo para chegar ao sagrado. Nesse ensaio faço um paralelo da obra poética das duas. Aqui foquei mais nos poemas.
JC - A busca pelo erotismo é uma saída para enfrentar o conservadorismo?
Lucius de Mello - Sim foi uma forma de elas se rebelarem para quebrar tabu. A Hilda em uma entrevista à TV Cultura fala sobre o papel do escritor que é o de ser lido. Essa é a meta e a vontade da autora. Quando ela lançou Lori Lamby comentou que esperava que fosse lida seja na cápsula, no avião e até nos banheiros. Quando ela busca o erotismo, busca a liberdade. Tem um escritor francês, o Georges Bataille que trabalhou com o erótico e o obsceno, dizia o seguinte: 'Quero pensar como uma prostituta que se despe. O obsceno trabalha uma certa liberdade'.
JC - O erotismo não é o forte da literatura da Hilda Hilst, não podemos ficar somente nisso?
Lucius de Mello - Não é o forte da obra dela. A professora de literatura brasileira da USP Eliane Robert Moraes, especializada na obra da Hilda, fala que a escritora excede a intenção obscena para revelar a sua notável capacidade para jogar com os limites da linguagem. Na verdade, atrás daquela obscenidade tem todo um jogo literário. Cada vez mais que vai se aprofundando na leitura da obra numa terceira leitura de seus livros vai buscando as camadas da poesia, sai do lugar comum. Ela vai muito além, os editores anti-Hilda Hilst estão se convertendo. Pena que ela não está viva para ver tudo isso. É uma escritora mais famosa do que lida. Hilda foi mais estigmatizada pela fama de maldita e obscena do que pela obra. Isso está se revertendo, estão parando de ver somente como uma escritora do estigma de maldita para conhecer um pouco mais. Foi uma mulher muito bonita quando jovem.






