O mundo mudou muito. Há 50 anos a vida era completamente diferente. O homem atual não tem vínculos. O mundo moderno é líquido, segundo a expressão do sociólogo polonês Bauman - um mundo cheio de sinais confusos, flexíveis, inseguros mutáveis a cada instante. Tudo é instável: laços amorosos, familiares, políticos num mundo que não oferece mais muitos planos de carreira ou situações duradouras. Pontes que levam a lugar nenhum, ou - como diz Bauman - ou a nenhum lugar em particular... quem precisa delas?
Joguemos o foco hoje apenas sobre a estrutura familiar, já que é impossível abarcar as mudanças todas de uma só vez. A fragilidade que ronda as famílias é óbvia. Busca-se, cada vez mais, satisfação e alegria no consumismo, mas por mais engenhoso e sofisticado que seja o objeto, é incapaz de proporcionar o resultado que dele se espera. A preocupação está quase sempre depositada na compra daquele carro ou daquela televisão ou do último modelo de smartphone. São aquisições caras que nem sempre proporcionam a alegria que delas de se espera. O anseio nem sempre é correspondido e o custo-benefício não é correlato à satisfação ou alegria presumida. Acontece até de, muitas vezes, ter-se de devolver o bem conquistado (ou a conquistar), por impossibilidade de arcar com o custo que está longe de ser coberto pelas infinitas prestações assumidas a perder de vista.
Dentro desse cenário de instabilidade e imprudências, os filhos entram como as aquisições mais caras que os pais podem fazer ao longo da vida. Em termos monetários, custam mais do que um veículo de luxo, um cruzeiro pelo mundo ou até mesmo uma mansão. Pior ainda, seu preço não pode ser fixado de antemão e pode crescer com os anos. Num mundo líquido como o atual, onde nada é estável, onde o futuro é sempre um monstro ameaçador, expor-se a um risco imprevisível é provável que os pais pensem muito menos em ter filho do que em remover a sombra de dúvida que ronda a compra daquela morada luxuosa.
Formar uma família, numa sociedade como a de hoje, segundo Bauman é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável. O ser humano parece estar mais propício a vivenciar sedutoras alegrias consumistas, desconhecidas e imprevisíveis que assumir um sacrifício assustador que se choca com hábitos de despesas mais atraentes.
Ter filhos atualmente, pode significar a necessidade de diminuir ambições pessoais. Nossos avós tinham prole numerosa, oito, dez, doze filhos. A vida era pacata e não fluida. Cada filho posto na vida iria virar-se por si. Hoje - horror dos horrores - ter um filho pode significar o comprometimento de nossa autonomia. A alegria da paternidade e da maternidade vêm num pacote que inclui as dores do autossacrifício e os temores de perigos inexplorados, assim se expressa Bauman.
Depois de entrar em contato com as ideias desse polonês clarividente e observador não me pareceu tão obscura a compreensão do montante de dinheiro proveniente dessas clínicas médicas que procuram reduzir os riscos endêmicos do parto. Institutos que oferecem a oportunidade de escolher filhos em catálogos de doadores atraentes, que compõem por encomenda o espectro genético de uma criança saudável. Ter filhos deve pressupor uma segurança, um cuidado que não comprometa o futuro como um carro de mau desempenho ou um objeto tecnológico pouco durável, que se atira fora com desprezo.
Onde foi parar o romantismo, a delicadeza, a afeição? Dedico este artigo àquelas progenitoras de décadas atrás, que ainda não se haviam contaminado pela liquidez do mundo e que, mães de proles numerosas, colocaram a atração sexual, baseada na amizade, no respeito e, sobretudo, no amor acima de todas as coisas e quaisquer interesses!
A autora é pedagoga, jornalista, advogada, profa. doutora aposentada da Unesp - mg-de-rosa@hotmail.com