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Museu da música caipira repaginado

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 16 min

Aurélio Alonso
Os chapéus e botas são doações feitas pelos artistas ainda em vida para o museu de Pratânia

As duas duplas mais populares da música sertaneja do Brasil com raízes na região agora estão com museu remodelado em Pratânia. A dupla Tonico & Tinoco, apelidada de "Coração do Brasil", dispensa apresentações e já está no panteão da música de qualidade do gênero, assim como Pedro Bento & Zé da Estrada que marca a evolução do gênero.

Há pouco menos de uma semana, o Centro Cultural, localizado no Centro de Pratânia, foi oficialmente entregue à população todo reformado. O espaço - que compreende duas salas de exposição e a casa onde morou a dupla na infância, em uma das várias fazendas que compõem a ocupação do espaço daquela região - ganhou novas vitrines e um acervo melhor distribuído, seguindo as diretrizes de como deve ser um museu.

Antes os quadros, fotos, objetos, móveis e vestuários em exposição eram confusos e apresentavam ao visitante informações que acabavam se desencontrando ao longo da visita. Tudo isso foi corrigido com melhoria da iluminação e painéis com informações sobre a história das duas duplas. Há até dispositivo para ouvir uma seleção dos maiores sucessos das duas duplas.

Aurélio Alonso
Placa na fachada anuncia Casa da Cultura Tonico & Tinoco  

Em 60 anos de carreira, Tonico & Tinoco realizaram cerca de 1.000 gravações, divididas em 83 discos e foram campeões de venda de discos: 150 milhões de cópias. José Perez, o Tinoco, morreu em 4 de maio de 2012 e o irmão João Salvador Perez, o Tinoco, faleceu aos 73 anos em 1994. Os dois nasceram em Pratânia, na época distrito de São Manuel.

O outro homenageado é Zé da Estrada, o Waldomiro de Oliveira que morreu aos 88 anos em São José do Rio Preto em 2017, também cidadão de Pratânia. O companheiro Pedro Bento, o Joel Antunes Leme ainda está vivo e nasceu em Porto Feliz.

A Casa da Cultura funciona em área anexa ao prédio da Câmara, onde tem uma reconstrução da antiga casa onde Tinoco morou com sua família na infância.

O autor do livro "A Moda é Viola - Ensaio do Cantar Caipira", o professor Romildo Sant'Anna, de São José do Rio Preto, afirma que a dupla Tonico & Tinoco é ícone dessa musicalidade e de expressão artística espontânea. "Na região a música caipira é a mais representativa dos símbolos do estado de São Paulo, que expressa a nossa identidade mais pura e radical das nossas raízes. No caso da Tonico & Tinoco representam essas raízes", cita o professor sobre a importância dessa dupla para a música brasileira.

Já a dupla Pedro Bento & Zé da Estrada significa a evolução da música sertaneja, de acordo com o professor, quando popularizaram seus chapéus de mariachis e instrumentos típicos do estilo mexicano, em uma das carreiras mais longevas com 120 discos gravados. 

Museu é remodelado em Pratânia

Duas das melhores duplas da música sertaneja brasileira, Tonico & Tinoco e Pedro Bento & Zé da Estrada, agora têm um espaço totalmente reformado para serem relembradas na cidade de Pratânia. As instalações já existiam desde 2004, mas o projeto de modernização readequou o acervo e possibilitou o espaço ficar até interativo com possibilidade de o visitante ouvir vários sucessos dos artistas. A reinauguração ocorreu há uma semana.

Após ser fechado em janeiro deste ano para a reforma e repaginado, tudo isso foi possível graças ao Programa de Ação Cultural (Proac) que o município foi contemplado pelo governo do Estado. O museu continua funcionando nos fundos do prédio da Câmara.

Casa de madeira continua intacta

O casa de madeira que ficava na fazenda Guarantã, em Pratânia, onde a dupla Tonico & Tinoco morou na infância foi desmontada e depois transferida ao lado da Casa da Cultura. Isso ocorreu quando houve a fundação do espaço histórico em 2004. Na época os artistas ainda estavam vivos e ajudaram a reconhecer o espaço. Na reformulação do museu a casa permanece. A única inovação é uma placa que contextualiza a importância da residência na vida dos artistas.

A casa é um período muito difícil e de trabalho árduo na vida dos dois artistas. "Era uma época em que, quando o chefe de família adoecia, o patrão, o dono da fazenda, despedia a família inteira. Eles tinham que sair de casa, porque outros trabalhadores viriam no lugar, para tocar a lavoura de café que não podia ser cuidada pelo trabalhador doente. Meu pai ficou doente e fomos dispensados. Ficamos morando numa cocheira de bezerros que havia por perto. Eu ainda bem pequeno estava sendo amamentado pela mãe, mas lembro bem disso", consta em painel instalado no interior da casinha com trecho de declaração de Tinoco retirado de "Tinoco, um herói do sertão" texto feito por Gilson Sanches. 

O acervo recebeu uma nova exposição de longa duração que teve como objetivo tornar a visita mais agradável, além de garantir a acomodação adequada dos objetos expostos e sua segurança. Na questão da conservação, toda a estrutura da instituição foi readequada para garantir a integridade e os processos de conservação preventiva, além da implantação da reserva técnica.

O diretor de Cultura e Turismo, Adauto Silva, a agente cultural Simone Cerejo - que já foi diretora de Cultura em outras gestões - e a auxiliar administrativa Rosangela Barbosa contam que a batalha começou após o município participar da seção regional de Sorocaba do Sistema Estadual de Museus (Sisem-SP), coordenado pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. "Antes dizia que o museu era um gabinete de curiosidades", conta Simone.

Na reestruturação contou com a contratação dos escritórios Amanda Lopes Arquitetura e Pró-História Projetos Culturais, da cidade de Salto-SP, que foi constituído a partir das demandas da instituição nas áreas de expografia, conservação e documentação.

Foi necessária ampla pesquisa histórica e entrevista com moradores que conheceram a dupla para remontar toda a história. Também uma catalogação de todo o acervo o que não havia. 

O objetivo dessa reestruturação é inserir a instituição no Cadastro Estadual de Museus, lançado recentemente, onde se faz necessária a existência de uma série de documentação para funcionar como museu.

Pratânia é conhecida como a cidade do couro, onde há muitas lojas e também terra natal da dupla Tonico & Tinoco e de um dos integrantes da dupla Pedro Bento e Zé da Estrada. O município foi por muitos anos distrito de São Manuel até conseguir a emancipação. Diante disso, São Manuel também reivindica ser a terra da famosa dupla que vendeu cerca de 50 milhões de discos e considerada uma das mais famosas da chamada música caipira raiz. "A dupla frequentava muito a cidade, sempre vinha visitar os conterrâneos. Muitos dos objetos foram doados pelo Tonico & Tinoco", conta Simone, do qual guarda uma foto de recordação com seus ídolos.

A dupla apelidada de "Coração do Brasil" iniciou a carreira cantando na rádio Clube de São Manuel, mas com a emancipação do distrito de Pratânia a terra passou a ser o município onde os dois nasceram e viveram a infância e adolescência.

O outro homenageado no museu também é de Pratânia, trata-se do Waldomiro de Oliveira, o Zé da Estrada, nascido em 1929 e já falecido que tinha como companheiro Pedro Bento, cujo nome de batismo é Joel Antunes Leme, nascido em Porto Feliz. Esses veteranos da música sertaneja com seus chapéus de mariachis e instrumentos típicos do estilo mexicano, ganharam destaque na década de 1950 e estiveram juntos por cerca de 40 anos. "Pegaram a história que é nossa, mas agente divide", conta a agente cultural Simone sobre a dupla Tonico & Tinoco, também tem homenagens no município vizinho de São Manuel com estátua em praça.

Sucessos podem ser ouvidos em um fone 

Duas das melhores duplas da música sertaneja brasileira, Tonico & Tinoco e Pedro Bento & Zé da Estrada, agora têm um espaço totalmente reformado para serem relembradas na cidade de Pratânia. As instalações já existiam desde 2004, mas o projeto de modernização readequou o acervo e possibilitou o espaço ficar até interativo com possibilidade de o visitante ouvir vários sucessos dos artistas. A reinauguração ocorreu há uma semana.

Após ser fechado em janeiro deste ano para a reforma e repaginado, tudo isso foi possível graças ao Programa de Ação Cultural (Proac) que o município foi contemplado pelo governo do Estado. O museu continua funcionando nos fundos do prédio da Câmara.

O acervo recebeu uma nova exposição de longa duração que teve como objetivo tornar a visita mais agradável, além de garantir a acomodação adequada dos objetos expostos e sua segurança. Na questão da conservação, toda a estrutura da instituição foi readequada para garantir a integridade e os processos de conservação preventiva, além da implantação da reserva técnica.

O diretor de Cultura e Turismo, Adauto Silva, a agente cultural Simone Cerejo - que já foi diretora de Cultura em outras gestões - e a auxiliar administrativa Rosangela Barbosa contam que a batalha começou após o município participar da seção regional de Sorocaba do Sistema Estadual de Museus (Sisem-SP), coordenado pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. "Antes dizia que o museu era um gabinete de curiosidades", conta Simone.

Na reestruturação contou com a contratação dos escritórios Amanda Lopes Arquitetura e Pró-História Projetos Culturais, da cidade de Salto-SP, que foi constituído a partir das demandas da instituição nas áreas de expografia, conservação e documentação.

Foi necessária ampla pesquisa histórica e entrevista com moradores que conheceram a dupla para remontar toda a história. Também uma catalogação de todo o acervo que não havia. 

O objetivo dessa reestruturação é inserir a instituição no Cadastro Estadual de Museus, lançado recentemente, onde se faz necessária a existência de uma série de documentação para funcionar como museu.

Pratânia é conhecida como a cidade do couro, onde há muitas lojas e também terra natal da dupla Tonico & Tinoco e de um dos integrantes da dupla Pedro Bento & Zé da Estrada. O município foi por muitos anos distrito de São Manuel até conseguir a emancipação. Diante disso, São Manuel também reivindica ser a terra da famosa dupla que vendeu cerca de 50 milhões de discos e considerada uma das mais famosas da chamada música caipira raiz. "A dupla frequentava muito a cidade, sempre vinha visitar os conterrâneos. Muitos dos objetos foram doados pelo Tonico & Tinoco", conta Simone, do qual guarda uma foto de recordação com seus ídolos.

A dupla apelidada de "Coração do Brasil" iniciou a carreira cantando na rádio Clube de São Manuel, mas com a emancipação do distrito de Pratânia a terra natal deles passou a ser o município onde viveram a infância e adolescência. "Pegaram a história que é nossa, mas agente divide", conta a agente cultural Simone sobre a dupla Tonico & Tinoco, também tem homenagens no município vizinho de São Manuel com estátua em praça.

O outro homenageado no museu também é de Pratânia, trata-se do Waldomiro de Oliveira, o Zé da Estrada, nascido em 1929 e já falecido que tinha como companheiro Pedro Bento, cujo nome de batismo é Joel Antunes Leme, nascido em Porto Feliz. Esses veteranos da música sertaneja com seus chapéus de mariachis e instrumentos típicos do estilo mexicano, ganharam destaque na década de 1950 e estiveram juntos por cerca de 40 anos.

Música caipira é tradição brasileira 

Um dos especialistas e pesquisadores da cultura brasileira, o professor Romildo Sant'Anna é enfático quando o repórter pergunta sobre a dupla Tonico & Tinoco e rasga elogios: são ícones dessa musicalidade e dessa forma de expressão artística espontânea. Atual diretor do Museu de Arte Primitivista "José Antônio da Silva" (MAP), de São José do Rio Preto, Sant'Anna sabe muito bem do que está falando, porque é autor de livro como "A Moda é Viola - Ensaio do Cantar Caipira" e também de livros sobre a obra do pintor naïf José Antônio da Silva, conceituadíssimo e reconhecido até no exterior.

Uma entrevista com o professor Sant'Anna não tem muita dificuldade: é só perguntar que ele discorre numa prosa simples e apaixonada ao defender o universo caipira, na verdade uma palavra pejorativa cheia de significados importantes de uma manifestação cultural do homem do campo em um país que até a década de 50 tinha pelo menos 40% da população morando na zona rural até o êxodo urbano em um país de desenvolvimento ecônomico tardio. "Na região, a música caipira é a mais representativa dos símbolos do Estado de São Paulo, porque expressa a nossa identidade mais pura e radical das nossas raízes. No caso, Tonico & Tinoco representam essas raízes", diz o professor sobre a importância dessa dupla que há uma semana ganhou um museu totalmente reformado na terra natal dos dois artistas, a pequena Pratânia.

Mas a homenagem no museu também incluiu a dupla Pedro Bento & Zé da Estrada, um dos integrantes - Waldomiro de Oliveira - também nasceu em 1929 em Pratânia quando ainda era distrito de São Manuel.

Junto com o outro parceiro o Joel Antunes Leme, nascido em Porto Feliz e já falecido, com seus chapéus de mariachis e instrumentos típicos do estilo mexicano, brotaram com força no interior paulista na década de 1950 em uma das carreiras mais longevas com 120 discos gravados.

O estilo deles até pode destoar do que se qualifica de música caipira raiz, porém o professor Sant'Anna avisa que foi uma evolução da música sertaneja em 1950 que recebeu muita influência da música mexicana. A seguir os principais trechos da entrevista.

JC - Qual é a importância da música caipira à cultura brasileira?

Romildo Sant'Anna - A viola é o primeiro instrumento que chega ao nosso país e toma conta de todas as regiões. Como a viola é uma coisa de autodidata, espontânea e de afinações diferentes, ela tem uma fisionomia e fisiologia diferente em cada região. A música caipira é a mais representativa dos símbolos do Estado de São Paulo, que expressa a nossa identidade mais pura e radical das nossas raízes. No caso da Tonico & Tinoco representam essas raízes.

JC - A música caipira é uma das primeiras manifestações musicais?

Romildo Sant'Anna - É a primeira, o nosso país é de tradição rural. Na década de 1940 cerca de 40% da população vivia na zona rural e isso não faz muito tempo. O nosso país virou de ponta cabeça quando cerca de 80% da população passou a residir na área urbana e há determinadas regiões que chegam a 95% pessoas vivendo na cidade. A música tradicional brasileira e do Estado de São Paulo é executada com a viola. O Tonico e Tinoco são ícones dessa musicalidade e dessas formas de expressão artística e espontânea.

JC - Professor, o Pedro Bento & Zé da Estrada têm uma influência mexicana e até sua indumentária relembra isso. Isso destoa da música autêntica caipira ou isso é uma evolução?

Romildo Sant'Anna - É uma evolução, porque tudo se transforma, na medida em que o país vai evoluindo a música caipira vai sofrendo influência. Na década de 1950, não podemos esquecer o Mariachi, música tradicional mexicana, fez muito sucesso no Brasil. No cinema, com filmes do Cantinflas e Miguel Aceves Mejía [apelidado de "rei do falsete", ele se tornou conhecido pelas interpretações de "Cucurrucucú", "Yo Tenía un Chorro de Voz" e "El Jinete", entre outras], artistas populares do Mariachi. Não podemos esquecer o tremendo paralelismo entre a cultura brasileira e mexicana. Eles fizeram muito sucesso, porque várias gerações de música caipira passaram a ficar conhecidas com o advento do disco a partir de 1929 quando foi feita a primeira gravação nesse novo modelo de difusão. O Tonico & Tinoco pertenciam à primeira geração da música caipira. A segunda geração vai mostrar o êxodo da roça para a cidade já representada por duplas como o Pedro Bento & Zé da Estrada. E aí elas começam a cantar músicas que estão entrando no ambiente urbano. Não podemos esquecer que o grande fator de comunicação no período foi o rádio: o nosso jornal e o e-mal de antigamente. As pessoas mandavam notícias pelos programas caipiras. Então, a música vai se modernizado. Não podemos ver isso com preconceito. É uma evolução até chegar ao total desraizamento que são os sertanejos universitários que não têm mais nada e nenhum traço da música caipira tradicional. De qualquer maneira representa os netos e os bisnetos daqueles que nasceram na roça e contra eles existe um preconceito muito grande, por representarem essa evolução que existe na nossa sociedade.

JC - A música caipira impulsionou a indústria fonográfica, mas demorou a ter um reconhecimento de ser música autêntica, chegou a ser vista na época com preconceito. Qual é o motivo disso?

Romildo Sant'Anna - O nome caipira é negado na nossa cultura por muitas razões. O que fez muito sucesso no Brasil foram os filmes do Mazzaropi. Ela fazia o esteriótipo do Jeca Tatu que se confundia com o esteriótipo do caipira. Esse personagem de Monteiro Lobato nunca existiu. É uma figura lendária. Por muito tempo os filmes do Mazzaropi nas décadas de 1940 e 1960 eram o grande acontecimento cinematográfico do Brasil. Todo mundo aguardava o lançamento do novo filme do Mazzaropi. Ele fazia aquele personagem desengonçado, ignorante, doentio, safado, enganava todo mundo. Essa figura se confundiu com a imagem do caipira. As pessoas até hoje falam: eu fiz a escola de segundo grau e não sou caipira. Como caipira fosse o analfabeto. A gente esquece que o caipira produz aviões em São José dos Campos, o caipira em geral é o que produz a maior quantidade de pesquisa e tecnologia nos institutos como a Unesp, Unicamp e USP no Estado. Eles são caipiras e não falam, mas os gaúchos batem no papo com muito orgulho de ser gaúcho, assim como o nordestino. O caipira tem preconceito dele mesmo por causa dessa figura mesclada do Jeca Tatu e Mazzaropi. Na nossa cultura não tem nenhum herói caipira, nem na música. As novelas da Globo sempre que mostram o caipira é aquele que fala com a vaquinha e meio bobo. Esse é problema do esteriótipo da nossa cultura e não tem nada a ver com Tonico & Tinoco. Eu me lembro quando o Boris Casoy apresentava um telejornal e o Tonico & Tinoco iam fazer apresentação no Teatro Municipal de São Paulo, um lugar sacralizado como da alta cultura das elites brasileiras. E o Boris Casoy chamou o Caetano Veloso do Rio de Janeiro para entrevista ao vivo e perguntou: o que você acha do Tonico & Tinoco se apresentarem no teatro municipal de São Paulo, não é um local muito chique? E veio a resposta: ô Boris você não acha o Tonico & Tinoco muito chique? O Boris Casoy ficou sem graça e encerrou a entrevista. O Tonico & Tinoco são muito chiques, embora infelizmente as elites não dão esse valor.

JC - Com essa evolução a música sertaneja acabou?

Romildo Sant'Anna - Não acabou, é eterna. Recentemente participei de uma mesa redonda em São José do Rio Preto com a mulher do Tião Carreiro no Sesc. Ela contou que os discos dele continuam sendo vendidos na mesma quantidade quando estvam vivos. As pessoas guardam esses discos como relicários. As pessoas têm vergonha de colocar na vitrola em alto volume, porque acham que se alguém da rua ouve vai dizer essa pessoa é um caipira, um ignorante. 

JC - E essa música atual sertaneja mudou muito?

Romildo Sant'Anna - É o filho daquele caipira da roça desenraizado na cidade. Não tem um paradigma cultural, porque veio da roça e existe um preconceito. Então, ele nega seus valores da roça e ao mesmo tempo não domina a simbologia da metrópole. Isso explica por ter adotado na década de 60 a música mexicana. Ele adota a música mexicana num primeiro momento, depois o country norte-americana e cria um novo paradigma cultural. Isso foi interessante, porque esses artistas continuam a fazer o maior sucesso. É claro que não são duradouras como a música "Menino da Porteira" que tem 60 anos e faz sucesso ainda. 

JC - Existe a música caipira mais sofisticada?

Romildo Sant'Anna - Sim como de Almir Sater e Renato Teixeira entre outros artistas. Eles têm todo o poder estético da música caipira de raiz tradicional e veio para a cidade e não abandonaram esses valores e fazem de maneira sofisticada. Eles falam a simbologia caipira numa linguagem mais sofisticada e continuam a fazer sucesso no Brasil inteiro.

 

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