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Pais evoluem e se tornam cada vez mais participativos

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Emerson Gomes Vanderlei, 47 anos, designer, músico e produtor cultural. Até há bem pouco tempo, ele brincava com bonecas e, mais do que isso, até conhecia algumas pelo nome. Parece estranho? Talvez não. Com a vida profissional estabelecida, Emerson é um homem comum, que gosta de reunir os amigos em um churrasco, mas que, também, faz questão de reservar um bom tempo dos seus dias para fortalecer vínculos com os filhos.

Angélica, 12 anos, já não liga mais para as bonecas, mas as brincadeiras, junto com o irmão Rafael, 5 anos, não deixaram de existir. "Hoje, a gente brinca de bola no quintal, anda de bicicleta, vai ao cinema ver filme de animação. São construções que ajudam a alicerçar o um relacionamento afetuoso com o passar do tempo", comenta Emerson.

O designer faz parte da nova geração de pais que, mais do que dividir tarefas e cuidados com as crianças, descobriram o real prazer de manter uma relação próxima, intensa e amorosa com os filhos, algo que era exceção, entre os homens, em um passado não tão distante.

Figuras populares, como o jornalista Marcos Piangers, conhecido como "papai pop", e o apresentador Marcos Mion, ambos autores de livros sobre o tema e com milhões de seguidores em suas redes sociais, são exemplos midiáticos de como a paternidade participativa e afetiva ganhou força - e adeptos - nos últimos anos.

FLEXIBILIZAÇÃO

Samantha Ciuffa
Segundo a professora Marianne Ramos, entrada da mulher no mercado de trabalho e flexibilização dos papeis de gênero foram fundamentais para a mudança

Trata-se de uma mudança positiva provocada por algumas transformações na sociedade, entre elas o ingresso da mulher no mercado de trabalho, o que demandou maior participação dos homens no ambiente doméstico, e a flexibilização dos papéis de gênero, que trouxe ao sexo masculino maior liberdade para expressar afetividade.

"Hoje, as mulheres já estão mais legitimadas a serem provedoras da casa, inclusive junto com os homens, assim como os homens têm mais suporte social para exercerem as atividades de cuidados com os filhos", observa a professora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru, Marianne Ramos.

Emerson, pai de Angélica e Rafael, conta com a facilidade de trabalhar em casa, o que o permite ajustar seus compromissos às demandas dos dois filhos e ser um pai do tipo "pacote completo", que ajuda as crianças a fazer tarefas escolares, que impõe regras, dá bronca, brinca, ouve, ensina e aprende com elas. "Todo mundo sai ganhando. Os vínculos ficam mais fortes. No caso da Angélica, por exemplo, eu participei desde a alfabetização e a acompanho até agora, na entrada da adolescência. Nunca foi um sacrifício, sempre foi um prazer", completa.

Mudança de perfil ainda encontra barreiras

Enjob
Psicóloga Rosilene Maria Pinto

Apesar dos visíveis e reconhecidos avanços, o processo de responsabilização social dos homens sobre os seus filhos ainda é lento. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, ainda existem 5,5 milhões de crianças no Brasil sem o nome do pai na certidão de nascimento - o que deveria ser um direito básico.

Quando a criança, além de ter o nome do pai em um documento, se sente amada e valorizada, as chances de ela crescer com maior autoestima, confiança e estabilidade emocional aumentam exponencialmente.

Por outro lado, para o pai - que, historicamente, agiu como coadjuvante por muito tempo quanto aos cuidados com dos filhos -, estar mais presente é, mais do que tudo, uma oportunidade de crescimento pessoal.

"Neste processo, os pais vão se humanizando e descobrindo o quanto esta convivência próxima proporciona alegria e satisfação. E cada vez mais homens se dispõem a viver esta experiência", comenta a psicóloga Rosilene Maria Pinto, citando que esta nova geração quer garantir aos seus filhos uma relação familiar diferente da que tiveram com seus pais.

Para que esta vivência seja plena, a professora Marianne Ramos recomenda que a divisão de tarefas se estabeleça desde o nascimento do bebê, mesmo quando o pai e a mãe não se sentem plenamente seguros sobre a capacidade do homem em cuidar de uma criança.

"É importante lembrar que, assim como a mãe, o pai só aprende fazendo. A maternidade, assim como a paternidade, é aprendida. O pai que se permite e é estimulado a realizar as atividades de cuidados diários, aos poucos, vai adquirir segurança", ensina.

Parceria até mesmo para compor músicas juntos

Arquivo Pessoal
Josiel Rusmont com os filhos João Vitor, 3 anos, e Giuseppe, 7

A música tem poder de conexão reconhecido por estudiosos ao redor do mundo e é uma das ferramentas utilizadas por Josiel Rusmont, 37 anos, para fortalecer laços com os filhos Giuseppe, 7 anos, e João Vitor, 3 anos. A brincadeira inicialmente proposta pelo músico e produtor musical, porém, acabou tomando forma e, hoje, ele e o primogênito acumulam diversas canções infantis compostas em parceria, que devem se transformar em álbum.

"A ideia partiu das histórias que ele contava no caminho para a escola. O disco fala sobre etnias, justamente porque ele tem amigos com descendências diversas. Já está praticamente pronto. Só falta gravar", conta Josiel.

O processo de composição, que durou cerca de três anos, acabou sendo um caminho natural para o pequeno, que acompanha o pai desde muito cedo aos ensaios em estúdio. "E a gente fica muito tempo junto em casa, todo dia", acrescenta.

Além da música, a literatura também é um prazer compartilhado. Os dois leem poemas juntos, fazem as lições da escola, cozinham e conversam muito, segundo Josiel. "E o João está vindo no mesmo embalo. Os dois são muito apegados a mim e isso é um presente. É uma relação que não tem peso algum. Pelo, contrário, é gratificante", diz o pai, orgulhoso.

'Não é só ajudar, é compartilhar'

Há três meses, o radialista Fernando Castilho, 37 anos, acrescentou à sua rotina, além do trabalho, uma lista de afazeres que inclui trocar fraldas, dar banho e acordar de madrugada quando o pequeno Davi resmunga no berço. Como muitos desta nova geração de pais, ele abraçou com integral disponibilidade a experiência de criar um filho.

Aceituno Jr.
Fernando  Castilho e seu filho Davi Batista Bibiano

O antigo sonho de ser pai foi concretizado há poucos meses, mas a imersão na paternidade começou bem antes, quando sua mulher sequer estava grávida. "Primeiramente, fomos buscar informações. Começamos a ler livros, ir a palestras sobre educação de filhos. Fizemos tudo juntos desde o início. Nunca quis ser coadjuvante nesse processo", comenta.

Durante a gravidez e após o nascimento de Davi, em uma momento de imersão em descobertas, sem contar com a ajuda de parentes, pai e mãe passaram a se revezar nos cuidados com o bebê, inclusive durante as madrugadas, para que ninguém se sentisse desgastado.

"Decidimos que só procuraríamos ajuda em último caso e, nestes primeiros meses, tem dado muito certo. Tem sido uma fase muito intensa, de bastante aprendizado e de uma relação afetiva muito maior do que eu imaginava", acrescenta o radialista.

Diferentemente do que os pais de antigamente fariam, Fernando conta que foge do papel de homem provedor e "solucionador" de problemas. É uma forma, ele diz, de garantir que a mulher vá retomando, aos poucos, atribuições que extrapolam a maternidade para que possa resgatar, assim, sua individualidade.

"Muitas vezes, eu fico com o bebê e ela faz as compras no mercado, vai fazer alguma coisa no comércio. Tem sido algo bom para ela", diz. A mãe, professora, ainda está em licença maternidade, mas, quando retornar ao trabalho, quem assumirá os cuidados com Davi durante a maior parte do tempo será Fernando, que programou suas férias justamente para o fim do ano.

DE OLHO NO FUTURO

"No futuro, eu quero atingir o grau máximo de amizade com meu filho e a única maneira de eu ganhar a confiança dele, para que ele se sinta seguro para contar comigo em qualquer situação, é tendo esta relação carinhosa desde já", completa.

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