"Raul Seixas é legal. Chatos são os fãs dele". Ouvi isso aí certa vez. Provavelmente quem assim pensou deve ter na cabeça o estereótipo daquele fã de Raul, já um tanto alterado durante um show em barzinho, a pedir em alto e bom som: "Toca Raul! Toca Raul". Alguém contou que, certa vez, um cara insistia tanto no "toca Raul" para o músico que fazia um violão e voz na noite que ele resolveu testar. "Bom, agora, atendendo aos insistentes pedidos do colega ali, vamos com uma de Raul Seixas". E emendou música do Tim Maia. E o fã do Raul: "Aêeee. Essa mesmo!". Enfim, trata-se de... generalização: "Raul é bom, o fã é que é chato". Generalização.
Em princípio, todo fã de é meio chato por natureza porque tende a ser um tanto quanto monotemático. Mas não estou aqui para falar disso.
O que vem chamando atenção nos últimos dias são ataques diários que o eleitorado fã de Bolsonaro recebe nas redes sociais. Sinceramente, considero um simplismo fazer ligação automática entre um candidato e parte de seus apoiadores. O buraco é bem mais embaixo. Foi do terreno fértil da descrença que brotou a força dessa candidatura mais à direita (e de outras). Bolsonaro pode ser isso e aquilo, e aquilo outro, mas não quer dizer que 100% de seus eleitores sejam sua imagem e semelhança. Conheço gente inclinada a votar nele que não apresenta traços questionáveis creditados ao candidato.
Estando em pleno processo democrático evolutivo, qualquer um deve ter direito a votar em X ou Y sem ser espinafrado por conta disso.
Vou falar por mim: não tenho condições de detonar a opção de alguém porque eu mesmo já apostei em gente "certa" que depois fez tudo errado (sem aspas). O cenário nunca foi tão complexo. E nunca foi tão difícil entender as múltiplas motivações que levam à definição de um voto. O eleitor não é mais apenas o espelho de seu candidato.
Atordoado e quase nocauteado após levar tanta pancada, o eleitor, hoje, é um enigma. Que atire a primeira pedra quem nunca foi lá na urna, de boa fé, e se lascou. Tem eleitor bom que vota em candidato ruim. Até porque o que mais tem por aí é isso: candidato ruim. Poder de escolha: restrito. Fato, não mito. Chato, mas fazer o quê? Tentar. Outra vez.