Três são os passos práticos em direção à espiritualidade. O primeiro deles é a eliminação do medo e o cultivo da confiança. Se olharmos com atenção, perceberemos que muitas de nossas dificuldades derivam do medo, principalmente do medo da morte. A sensação de insegurança, a ambição de ser bem-sucedido, o desejo de provar nosso valor, a ânsia de demonstrar poder e estar no controle, o vício de fazer compras, consumir e possuir, tudo isso, em última análise, também está ligado ao medo. E medo gera medo. O primeiro passo em direção à esfera espiritual é entender o medo e passar a confiar. Confiar na existência da alma e que, um dia, ela retornará ao lugar de onde veio; confiar na centelha divina que existe em cada um de nós e naquilo que ela nos sussurra.
Todos nós existimos e nos desenvolvemos graças a dinâmica da mutualidade, da reciprocidade, portanto, ame e o amor será correspondido. Ofereça medo e o medo será retribuído. Plante um cacto e Você poderá sofrer com seus espinhos. Plante camélias e Você poderá se deliciar com suas flores e com seu perfume. Confie nisso: Você colhe o que planta.
A segunda qualidade espiritual é a lentidão. Se desejamos a espiritualidade, temos que desacelerar. Fazer menos, consumir menos e produzir menos nos permitirá ser mais, celebrar mais e aproveitar mais. O tempo é que torna as coisas perfeitas. Dê tempo a si mesmo para fazer as coisas e para descansar. É na dança do fazer e do ser que se encontra a espiritualidade.
Uma vez um imperador pediu ao seu mestre sufi: "Por favor, aconselhe-me: o que eu devo fazer para renovar minha alma, reviver meu espirito e revigorar minha mente a fim de ser feliz no meu íntimo e eficaz no meu trabalho?" O mestre sufi respondeu: "Meu senhor, trabalhe menos". O imperador ficou surpreso e pasmo ao ouvir essa resposta e argumentou: "Trabalhar menos? Tenho de exercer justiça, aprovar leis e comandar exércitos. Como posso trabalhar menos com tanta coisa para fazer." Então o mestre sufi respondeu: "Meu senhor, quanto menos o senhor trabalhar, menos o senhor irá oprimir!". O imperador ficou sem fala, viu que o sábio sufi tinha razão, mesmo sendo rude.
Hoje a humanidade está em situação parecida com a desse imperador. Quanto mais trabalhamos, mais consumimos eletricidade e combustível. Quanto mais compramos, mais produzimos resíduos. Quanto mais depressa fazemos nossas atividades, mais danos causamos ao meio ambiente e à nossa própria paz de espírito. Então, é preciso viver e trabalhar em harmonia, ah! além de substituir o fast food pelo slow food.
A terceira qualidade espiritual é o senso de gratidão. Precisamos equilibrar nossa capacidade crítica com nossa capacidade de apreciação e gratidão. Temos que aprender a reconhecer os dons e ensinamentos que recebemos e as dadivas da terra. Uma hortaliça ou uma árvore não conhecem discriminação, não fazem perguntas. Pobre ou rico, santo ou pecador, tolo ou filósofo, vespa ou pássaro, todos podem usufruir de suas folhas ou frutos. O que mais podemos sentir por aquela hortaliça ou por aquela árvore além de gratidão? E da gratidão flui a humildade, já que a arrogância vem do ato de reclamar e criticar independentemente da existência ou não de motivos para isso.
Não há dualismo e separação entre a matéria e o espírito. O espírito existe dentro da matéria, mas nós os separamos, transformamos o espírito em um assunto privado e permitimos que apenas a matéria domine nossa vida. Temos que superar essa separação, caso contrário, até a própria Terra sofrerá as consequências. Quando pudermos superar esse rompimento, seremos capazes de incutir o espírito na educação, nos negócios, no comércio, na economia e na política. Nossas religiões não serão divisoras, pelo contrário, se tornarão uma fonte de cura e de solução de conflitos. O movimento a favor da sustentabilidade ambiental e da justiça social inspirará, em vez de inquietar.
O autor é professor titular aposentado do Depto. de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp.