Tribuna do Leitor

Todos amavam o Cris!

Demerval Assis da Silva
| Tempo de leitura: 2 min

Como foi noticiado em 4/8/18, fui eu me despedir do carteiro Cristian, exatamente em frente ao prédio que poderia se traduzir, para nós, como um "Templo Sagrado" da Diretoria regional dos Correios (SP Interior).

Talvez quisera o destino que o corpo do carteiro fosse velado ali de frente para a "Casa" que nos acolheu ou acolhe até hoje.

Ainda antes do feriado pude vê-lo pela última vez ostentando seu fardamento de carteiro versão verão (no inverno), camiseta e bermudas, com sua bolsa a tira colo e passos rápidos, a entregar as correspondência na área central da cidade CDD Bauru (Centro de Distribuição Domiciliar), repartição a que pertencia como carteiro.

Depois disso, vejo-o agora ali, inerte no caixão, no lugar onde fui entrando devagar devido a quantidade de colegas de trabalho e familiares presentes. Pude ler o endereçamento das coroas de flores, que eram também tradução de sua bem querença, dentro e fora dos Correios. Cris, como era conhecido por todos, não era uma pessoa fácil, mas quem o seria?

Como muitas outras pessoas, tinha problemas com o vício, teve sorte, mas também teve méritos por poder fazer parte do quadro de funcionários de uma empresa como os Correios, sorte porque dificilmente na iniciativa privada alguém vai tão longe, sendo ele um dependente químico, aliás, por muito menos e como as "novas leis" leis trabalhistas que aí estão, por nada a pessoa já se vê desempregada e ainda ele pôde contar com uma chefia humana, além do sindicato (SINDECT forte e atuante)

Os méritos do Cristian foram ter sido trabalhador e competente na arte que é ser carteiro, talvez não precisemos tê-lo sido para imaginar as dificuldades do dia a dia destes profissionais do sol e das chuvas.

Fiquei ali no velório enquanto olhava os que choravam e se confortavam, olhava a figura ímpar do Cris, negro como poucos, sempre alegre, e que eu comparava ao cantor Djavan (... "só eu sei as esquinas por que passei...") pelos cabelos.. Outros o comparavam ao Seu Jorge ("é isso aí..."). E fugindo também ao trivial até nisso Cris foi irreverente: uma cerimônia budista (provando que Deus também fala o nepalês de Buda) muito bonita da qual fez parte a mãe do carteiro morto, onde ao final ela fez emocionado discurso (como ela foi forte) agradecendo pela vida do filho, que morreu, embora lamentavelmente, ainda jovem.

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