Bairros

Bauruenses que vivem, sentem e ganham a vida a pé

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 8 min

Marcele Tonelli
Pessoas que passam a rotina a pé descrevem como vencem o cansaço, como se protegem do sol, como lidam com os imprevistos, como a chuva, cachorros bravos, trânsito desrespeitoso

Primeiro meio de locomoção humana, o deslocamento a pé pode trazer uma série de benefícios para a cidade e seus moradores. É caminhando que o cidadão, muitas vezes, acaba reparando em um problema com sua rua, ou então fica mais propenso a fazer amizades, por exemplo.

Nas últimas décadas, com crescimento das cidades e a motorização da população, muita gente deixou de lado a rotina a pé. Mas, na contramão, seguem, quase que imperceptíveis, figuras como a do trabalhador ambulante ou do morador que, por necessidade ou por opção, vive sua rotina a pé.

São sorveteiros, carteiros, catadores de recicláveis, vendedores ambulantes, prestadores de serviços, estudantes e moradores de bairros que, por não possuir um veículo, ou por necessidade de fazer exercício, ou ainda por ideologia, passam parte do dia caminhando.

O JC Nos Bairros traz a história de pessoas que narram a dor e a delicia da rotina de andanças por Bauru. Eles contam o que muda na perspectiva ao ver a cidade a pé, detalhes quase sempre não percebidos quando se anda de carro, moto ou ônibus.

Samantha Ciuffa
Uma das histórias contempladas nesta edição está a da catadora de recicláveis Daniana Gregório Albertini, que anda vários quilômetros todos os dias por Bauru; no carrinho, ela chega a carregar quase 200 quilos só de material

Eles também descrevem como vencem o cansaço, como se protegem do sol, como lidam com os imprevistos, como a chuva, cachorros bravos e trânsito desrespeitoso com o pedestre.

'Tenho a imagem de cada casa na cabeça'

Primeiro meio de locomoção humana, o deslocamento a pé pode trazer uma série de benefícios para a cidade e seus moradores. É caminhando que o cidadão, muitas vezes, acaba reparando em um problema com sua rua, ou então fica mais propenso a fazer amizades, por exemplo. Nas últimas décadas, com crescimento das cidades e a motorização da população, muita gente deixou de lado a rotina a pé. Mas, na contramão, seguem, quase que imperceptíveis, figuras como a do trabalhador ambulante ou do morador que, por necessidade ou por opção, vive sua rotina a pé.

São sorveteiros, carteiros, catadores de recicláveis, vendedores ambulantes, prestadores de serviços, estudantes e moradores de bairros que, por não possuir um veículo, ou por necessidade de fazer exercício, ou ainda por ideologia, passam parte do dia caminhando.

O JC Nos Bairros traz a história de pessoas que narram a dor e a delicia da rotina de andanças por Bauru. Eles contam o que muda na perspectiva ao ver a cidade a pé, detalhes quase sempre não percebidos quando se anda de carro, moto ou ônibus.

Eles também descrevem como vencem o cansaço, como se protegem do sol, como lidam com os imprevistos, como a chuva, cachorros bravos e trânsito desrespeitoso com o pedestre.

20 Km a pé e quase 200 quilos de recicláveis

Samantha Ciuffa
Daiana Gregório Albertini anda todos os dias, das 6h às 14h, pela região da avenida Cruzeiro do Sul pegando recicláveis

Dizem que andar faz bem para o coração. Para Daiana Gregório Albertini andar é sinônimo de dignidade, de aluguel pago, contas em dia e comida na mesa. Catadora de recicláveis, a moradora do Jardim Coralina caminha até 20 quilômetros todos os dias para recolher aproximadamente 200 quilos de material pelas ruas.

É assim, empurrando um carrinho a pé, das 6h às 14h, nos bairros próximos à avenida Cruzeiro do Sul, que Daiana sustenta os dois filhos de 14 e 12 anos que moram com ela.

"Aprendi a pegar recicláveis com meus pais, na infância. Cheguei a trabalhar de auxiliar de limpeza e operadora de caixa em supermercados, mas voltei para o trabalho na rua. Aqui, eu mesma decido as minhas folgas", comenta Daiana.

"Carro nunca fez diferença pra mim, tudo que preciso faço a pé, trabalhar, comprar comida, levar meus filhos ao médico. Daqui até o Centro é um pulinho", avalia a catadora.

Para o trabalho pesado, ela usa um calçado de borracha que ajuda a conter o calor do asfalto.

Samantha Ciuffa
Estudante da Unesp, Bruno Ferreira leva sempre garrafas de água em suas andanças nos dias quentes

"O sol é o mais difícil de encarar, em dia muito quente dá desânimo. Já quando chove, eu até gosto e tomo chuva, só não faço se estiver muito forte", observa.

PRECONCEITO

Para ela, o mais difícil de enfrentar, contudo, é o preconceito. "Tem morador que trata a gente mal, porque fala que lidamos com lixo, mas nosso trabalho é digno, nós ajudamos a natureza", comenta.

E tem ainda o desrespeito sofrido no trânsito. "Quando o carrinho está muito cheio é difícil ficar parando, porque não tem breque, e não podemos andar na calçada. Então, os motoristas xingam um pouco", narra.

ESPERANÇA

Depois de oito horas de andanças, Daiana toma um banho em casa para começar o "segundo tempo", o das tarefas domésticas.

E, antes de finalmente deitar e descansar, mais uma ocupação: o estudo. Nos dias de semana, ela anda mais 10 quarteirões até uma escola, onde espera terminar o ensino médio e dar início a um sonho, o de cursar uma universidade.

Dá-lhe sola de sapato!

Nunca na vida, Bruno Ferreira, de 21 anos, diz ter gasto tanta sola de sapato. Paulistano, ele veio a Bauru há três anos para estudar na Unesp. E o seu principal meio de locomoção, hoje, é a caminhada. É a pé que ele faz compras, vai para universidade e sai à noite.

Morador do Núcleo Geisel, Bruno conta que era sedentário quando morava na Capital. "Só andava de carro lá. Aqui, faço tudo a pé e me sinto mais livre", comenta.

E é justamente este o motivo que o levou a trocar a sola de um sapato ainda novo nos últimos dias. "O couro está bom, mas a sola acabou com as andanças", reforça.

Para se proteger do calor, garrafas de água, que nunca saem da bolsa ou da mão. Diariamente, o estudante chega a andar mais de 6 quilômetros entre idas e vindas da faculdade.

"Gosto de andar a pé, porque me distraio e aproveito pra pensar na vida", acrescenta.

'O trabalho a pé me deu mais amizades'

Dizem que andar faz bem para o coração. Para Daiana Gregório Albertini andar é sinônimo de dignidade, de aluguel pago, contas em dia e comida na mesa. Catadora de recicláveis, a moradora do Jardim Coralina caminha até 20 quilômetros todos os dias para recolher aproximadamente 200 quilos de material pelas ruas.

É assim, empurrando um carrinho a pé, das 6h às 14h, nos bairros próximos à avenida Cruzeiro do Sul, que Daiana sustenta os dois filhos de 14 e 12 anos que moram com ela.

"Aprendi a pegar recicláveis com meus pais, na infância. Cheguei a trabalhar de auxiliar de limpeza e operadora de caixa em supermercados, mas voltei para o trabalho na rua. Aqui, eu mesma decido as minhas folgas", comenta Daiana.

"Carro nunca fez diferença pra mim, tudo que preciso faço a pé, trabalhar, comprar comida, levar meus filhos ao médico. Daqui até o Centro é um pulinho", avalia a catadora.

Para o trabalho pesado, ela usa um calçado de borracha que ajuda a conter o calor do asfalto.

"O sol é o mais difícil de encarar, em dia muito quente dá desânimo. Já quando chove, eu até gosto e tomo chuva, só não faço se estiver muito forte", observa.

PRECONCEITO

Facebook/Divulgação
Samuel e a família andam 4 Km, toda semana, até a igreja e no caminho eles conversam e tiram selfies; na foto, ele com a esposa Ângela Chaves e os filhos Heliza, Michael e Dhiennifer

Para ela, o mais difícil de enfrentar, contudo, é o preconceito. "Tem morador que trata a gente mal, porque fala que lidamos com lixo, mas nosso trabalho é digno, nós ajudamos a natureza", comenta.

E tem ainda o desrespeito sofrido no trânsito. "Quando o carrinho está muito cheio é difícil ficar parando, porque não tem breque, e não podemos andar na calçada. Então, os moto

ESPERANÇA

Depois de oito horas de andanças, Daiana toma um banho em casa para começar o "segundo tempo", o das tarefas domésticas.

E, antes de finalmente deitar e descansar, mais uma ocupação: o estudo. Nos dias de semana, ela anda mais 10 quarteirões até uma escola, onde espera terminar o ensino médio e dar início a um sonho, o de cursar uma universidade.

A caminhada como alma do negócio

Foi seguindo a premissa de que a propaganda é a alma do negócio, que o serralheiro Samuel Chaves, 32 anos, descobriu um método próprio de divulgação para alavancar seus serviços. Com o carro na garagem para uso em último caso, ele tem trabalhado e feito outras atividades a pé no bairro em que mora e imediações, utilizando a caminhada para novas amizades e divulgação do seu trabalho.

"O Parque Giansant é um bairro em crescimento e tenho feito muitos serviços por aqui. Quando ando de carro não consigo fazer tantos novos contatos. Tenho conseguido a pé novos clientes", conta Samuel Chaves.

E é caminhando que ele também observa as fachadas das casas e estabelecimentos, se inspirando para novos projetos profissionais. "Tem uma cobertura que vi esses dias e que quero reproduzir", detalha.

MOMENTO FAMÍLIA

Marcele Tonelli
O serralheiro Samuel Correia Chaves usa o carro só em último caso e aproveita as andanças pelo local para divulgar seu trabalho

E o carro tem permanecido na garagem não só durante os dias de trabalho, mas também nos dias de culto. Samuel frequenta uma igreja com sua esposa e filhos três vezes na semana.

O templo fica no Jardim Chapadão, a quase 4 quilômetros da casa da família. Trajeto que ele faz questão de fazer a pé com eles.

"É um momento em que conversamos, dou atenção, brinco com meus filhos e tiramos fotos. Se estivéssemos de carro, nada disso aconteceria", conta o serralheiro.

Apaixonado por árvores, ele diz que também aproveita as horas de caminhadas para contemplar o meio ambiente. "A vida fica um pouco mais gostosa quando a gente para para observar a natureza", opina.

Comentários

Comentários