| Marcele Tonelli |
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| Pessoas que passam a rotina a pé descrevem como vencem o cansaço, como se protegem do sol, como lidam com os imprevistos, como a chuva, cachorros bravos, trânsito desrespeitoso |
Primeiro meio de locomoção humana, o deslocamento a pé pode trazer uma série de benefícios para a cidade e seus moradores. É caminhando que o cidadão, muitas vezes, acaba reparando em um problema com sua rua, ou então fica mais propenso a fazer amizades, por exemplo.
Nas últimas décadas, com crescimento das cidades e a motorização da população, muita gente deixou de lado a rotina a pé. Mas, na contramão, seguem, quase que imperceptíveis, figuras como a do trabalhador ambulante ou do morador que, por necessidade ou por opção, vive sua rotina a pé.
São sorveteiros, carteiros, catadores de recicláveis, vendedores ambulantes, prestadores de serviços, estudantes e moradores de bairros que, por não possuir um veículo, ou por necessidade de fazer exercício, ou ainda por ideologia, passam parte do dia caminhando.
O JC Nos Bairros traz a história de pessoas que narram a dor e a delicia da rotina de andanças por Bauru. Eles contam o que muda na perspectiva ao ver a cidade a pé, detalhes quase sempre não percebidos quando se anda de carro, moto ou ônibus.
| Samantha Ciuffa |
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| Uma das histórias contempladas nesta edição está a da catadora de recicláveis Daniana Gregório Albertini, que anda vários quilômetros todos os dias por Bauru; no carrinho, ela chega a carregar quase 200 quilos só de material |
Eles também descrevem como vencem o cansaço, como se protegem do sol, como lidam com os imprevistos, como a chuva, cachorros bravos e trânsito desrespeitoso com o pedestre.
'Tenho a imagem de cada casa na cabeça'
Primeiro meio de locomoção humana, o deslocamento a pé pode trazer uma série de benefícios para a cidade e seus moradores. É caminhando que o cidadão, muitas vezes, acaba reparando em um problema com sua rua, ou então fica mais propenso a fazer amizades, por exemplo. Nas últimas décadas, com crescimento das cidades e a motorização da população, muita gente deixou de lado a rotina a pé. Mas, na contramão, seguem, quase que imperceptíveis, figuras como a do trabalhador ambulante ou do morador que, por necessidade ou por opção, vive sua rotina a pé.
São sorveteiros, carteiros, catadores de recicláveis, vendedores ambulantes, prestadores de serviços, estudantes e moradores de bairros que, por não possuir um veículo, ou por necessidade de fazer exercício, ou ainda por ideologia, passam parte do dia caminhando.
O JC Nos Bairros traz a história de pessoas que narram a dor e a delicia da rotina de andanças por Bauru. Eles contam o que muda na perspectiva ao ver a cidade a pé, detalhes quase sempre não percebidos quando se anda de carro, moto ou ônibus.
Eles também descrevem como vencem o cansaço, como se protegem do sol, como lidam com os imprevistos, como a chuva, cachorros bravos e trânsito desrespeitoso com o pedestre.
20 Km a pé e quase 200 quilos de recicláveis
| Samantha Ciuffa |
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| Daiana Gregório Albertini anda todos os dias, das 6h às 14h, pela região da avenida Cruzeiro do Sul pegando recicláveis |
Dizem que andar faz bem para o coração. Para Daiana Gregório Albertini andar é sinônimo de dignidade, de aluguel pago, contas em dia e comida na mesa. Catadora de recicláveis, a moradora do Jardim Coralina caminha até 20 quilômetros todos os dias para recolher aproximadamente 200 quilos de material pelas ruas.
É assim, empurrando um carrinho a pé, das 6h às 14h, nos bairros próximos à avenida Cruzeiro do Sul, que Daiana sustenta os dois filhos de 14 e 12 anos que moram com ela.
"Aprendi a pegar recicláveis com meus pais, na infância. Cheguei a trabalhar de auxiliar de limpeza e operadora de caixa em supermercados, mas voltei para o trabalho na rua. Aqui, eu mesma decido as minhas folgas", comenta Daiana.
"Carro nunca fez diferença pra mim, tudo que preciso faço a pé, trabalhar, comprar comida, levar meus filhos ao médico. Daqui até o Centro é um pulinho", avalia a catadora.
Para o trabalho pesado, ela usa um calçado de borracha que ajuda a conter o calor do asfalto.
| Samantha Ciuffa |
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| Estudante da Unesp, Bruno Ferreira leva sempre garrafas de água em suas andanças nos dias quentes |
"O sol é o mais difícil de encarar, em dia muito quente dá desânimo. Já quando chove, eu até gosto e tomo chuva, só não faço se estiver muito forte", observa.
PRECONCEITO
Para ela, o mais difícil de enfrentar, contudo, é o preconceito. "Tem morador que trata a gente mal, porque fala que lidamos com lixo, mas nosso trabalho é digno, nós ajudamos a natureza", comenta.
E tem ainda o desrespeito sofrido no trânsito. "Quando o carrinho está muito cheio é difícil ficar parando, porque não tem breque, e não podemos andar na calçada. Então, os motoristas xingam um pouco", narra.
ESPERANÇA
Depois de oito horas de andanças, Daiana toma um banho em casa para começar o "segundo tempo", o das tarefas domésticas.
E, antes de finalmente deitar e descansar, mais uma ocupação: o estudo. Nos dias de semana, ela anda mais 10 quarteirões até uma escola, onde espera terminar o ensino médio e dar início a um sonho, o de cursar uma universidade.
Dá-lhe sola de sapato!
Nunca na vida, Bruno Ferreira, de 21 anos, diz ter gasto tanta sola de sapato. Paulistano, ele veio a Bauru há três anos para estudar na Unesp. E o seu principal meio de locomoção, hoje, é a caminhada. É a pé que ele faz compras, vai para universidade e sai à noite.
Morador do Núcleo Geisel, Bruno conta que era sedentário quando morava na Capital. "Só andava de carro lá. Aqui, faço tudo a pé e me sinto mais livre", comenta.
E é justamente este o motivo que o levou a trocar a sola de um sapato ainda novo nos últimos dias. "O couro está bom, mas a sola acabou com as andanças", reforça.
Para se proteger do calor, garrafas de água, que nunca saem da bolsa ou da mão. Diariamente, o estudante chega a andar mais de 6 quilômetros entre idas e vindas da faculdade.
"Gosto de andar a pé, porque me distraio e aproveito pra pensar na vida", acrescenta.
'O trabalho a pé me deu mais amizades'
Dizem que andar faz bem para o coração. Para Daiana Gregório Albertini andar é sinônimo de dignidade, de aluguel pago, contas em dia e comida na mesa. Catadora de recicláveis, a moradora do Jardim Coralina caminha até 20 quilômetros todos os dias para recolher aproximadamente 200 quilos de material pelas ruas.
É assim, empurrando um carrinho a pé, das 6h às 14h, nos bairros próximos à avenida Cruzeiro do Sul, que Daiana sustenta os dois filhos de 14 e 12 anos que moram com ela.
"Aprendi a pegar recicláveis com meus pais, na infância. Cheguei a trabalhar de auxiliar de limpeza e operadora de caixa em supermercados, mas voltei para o trabalho na rua. Aqui, eu mesma decido as minhas folgas", comenta Daiana.
"Carro nunca fez diferença pra mim, tudo que preciso faço a pé, trabalhar, comprar comida, levar meus filhos ao médico. Daqui até o Centro é um pulinho", avalia a catadora.
Para o trabalho pesado, ela usa um calçado de borracha que ajuda a conter o calor do asfalto.
"O sol é o mais difícil de encarar, em dia muito quente dá desânimo. Já quando chove, eu até gosto e tomo chuva, só não faço se estiver muito forte", observa.
PRECONCEITO
| Facebook/Divulgação |
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| Samuel e a família andam 4 Km, toda semana, até a igreja e no caminho eles conversam e tiram selfies; na foto, ele com a esposa Ângela Chaves e os filhos Heliza, Michael e Dhiennifer |
Para ela, o mais difícil de enfrentar, contudo, é o preconceito. "Tem morador que trata a gente mal, porque fala que lidamos com lixo, mas nosso trabalho é digno, nós ajudamos a natureza", comenta.
E tem ainda o desrespeito sofrido no trânsito. "Quando o carrinho está muito cheio é difícil ficar parando, porque não tem breque, e não podemos andar na calçada. Então, os moto
ESPERANÇA
Depois de oito horas de andanças, Daiana toma um banho em casa para começar o "segundo tempo", o das tarefas domésticas.
E, antes de finalmente deitar e descansar, mais uma ocupação: o estudo. Nos dias de semana, ela anda mais 10 quarteirões até uma escola, onde espera terminar o ensino médio e dar início a um sonho, o de cursar uma universidade.
A caminhada como alma do negócio
Foi seguindo a premissa de que a propaganda é a alma do negócio, que o serralheiro Samuel Chaves, 32 anos, descobriu um método próprio de divulgação para alavancar seus serviços. Com o carro na garagem para uso em último caso, ele tem trabalhado e feito outras atividades a pé no bairro em que mora e imediações, utilizando a caminhada para novas amizades e divulgação do seu trabalho.
"O Parque Giansant é um bairro em crescimento e tenho feito muitos serviços por aqui. Quando ando de carro não consigo fazer tantos novos contatos. Tenho conseguido a pé novos clientes", conta Samuel Chaves.
E é caminhando que ele também observa as fachadas das casas e estabelecimentos, se inspirando para novos projetos profissionais. "Tem uma cobertura que vi esses dias e que quero reproduzir", detalha.
MOMENTO FAMÍLIA
| Marcele Tonelli |
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| O serralheiro Samuel Correia Chaves usa o carro só em último caso e aproveita as andanças pelo local para divulgar seu trabalho |
E o carro tem permanecido na garagem não só durante os dias de trabalho, mas também nos dias de culto. Samuel frequenta uma igreja com sua esposa e filhos três vezes na semana.
O templo fica no Jardim Chapadão, a quase 4 quilômetros da casa da família. Trajeto que ele faz questão de fazer a pé com eles.
"É um momento em que conversamos, dou atenção, brinco com meus filhos e tiramos fotos. Se estivéssemos de carro, nada disso aconteceria", conta o serralheiro.
Apaixonado por árvores, ele diz que também aproveita as horas de caminhadas para contemplar o meio ambiente. "A vida fica um pouco mais gostosa quando a gente para para observar a natureza", opina.
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