Bairros

Frente a frente com a eleição

Marcus Liborio
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Eder Azevedo/JC Imagens
Escola Estadual Ernesto Monte, no Altos da Cidade, é uma das que reúne o maior número de seções eleitorais de Bauru; na foto, movimentação de eleitores em 2010

Morar bem perto de uma zona eleitoral tem as suas particularidades. A reportagem do JC percorreu pontos de votação em vários bairros da cidade e conversou com os vizinhos dessas escolas, para saber como é o domingo de eleição na visão de quem acompanha, quase em tempo real, o vaivém de eleitores em pleno exercício de cidadania.

Uns destacam que o pleito, a cada dois anos (eleições municipais e nacionais), é oportunidade de reunir a família para um almoço especial, com direito a churrasco e cadeiras na calçada para observar com mais conforto a movimentação rumo às urnas. Muitos familiares, inclusive, têm o costume de votar juntos: dividem opiniões e dúvidas.

Hoje, por exemplo, das 8h às 17h, o eleitor bauruense vai exercer o direito ao voto. Entre os eleitores, há até quem pretende, após percorrer apenas alguns metros de sua casa até a escola em que vota, repetir o hábito de eleições passadas: rodar por várias zonas eleitorais do município, para quebrar a monotonia do pleito em um único ponto de votação.

‘Colocamos cadeiras na calçada e observamos o movimento, o dia todo. Eu até voto cedinho para aproveitar mais. As eleições acabam sendo um grande evento para nós. Um dia de festa’, diz Fátima Venito de Melo, 62 anos, doméstica

‘Voto logo nas primeiras horas porque gosto de ver o movimento da eleição em toda a cidade. Rodo vários bairros e também a região central. Para mim, as eleições, além de toda a sua importância democrática, é um grande evento’, diz Oscarlina Alves Moreira, 69 anos, aposentada.

Antigamente, era mais difícil conviver com a votação o dia todo. Agora, é bem mais tranquilo. A eleição está silenciosa. Nem parece eleição’ Ana Claudia Evangelista Messias Dourado, 28 anos, personal trainer

DISTÂNCIA

Outros, contudo, preferem manter distância das escolas usadas para receber os eleitores de Bauru. Barulho e movimento intenso de pessoas e de veículos estão entre os motivos. Porém, como residem bem perto dessas unidades escolares (em alguns casos, ao lado ou em frente), a saída encontrada é votar bem cedo e "se refugiar" em uma chácara ou em casa de parentes.

Entre os vizinhos das seções eleitorais ouvidos pelo JC, alguns observam as diferenças mais marcantes de eleições recentes e das passadas. Sabe-se que, no dia do pleito, fica vetado qualquer tipo de manifestação coletiva, distribuição de santinhos e abordagem de eleitor. Tudo isso é considerado boca de urna, ou seja, crime eleitoral passível de prisão e multas. 

O eleitor pode, contudo, se manifestar silenciosamente e de forma individual, usando um broche ou adesivo, por exemplo. Após a morte de uma mulher nas eleições municipais de 2012 em Bauru, que escorreu em um "mar de santinhos" em frente à Escola Estadual Francisco Alves Brizola, a Justiça Eleitoral da cidade apertou o cerco para reforçar as fiscalizações.

Desde então, moradores próximos aos pontos de votação relatam que, embora ainda seja possível encontrar um ou outro papel de divulgação de candidatos pelas ruas, o número desse tipo de material diminuiu bastante. O cenário, de modo geral, também mudou: não tem tanta gente (cabos eleitorais) nem muito barulho em frente às escolas como antes.

MADRUGAR

Frente a frente com a eleição, a população no entorno às zonas eleitorais veem de tudo: desde eleitores que madrugam na frente das escolas para agilizar a votação até os que chegam sem saber para qual candidato votar. Aos "45 do segundo tempo", o eleitor indeciso apela para santinhos jogados ao chão ou pede sugestão para qualquer um que cruzar seu caminho.

Domingo de cidadania também é motivo para reunir a família

Muitos que vivem perto das escolas aproveitam a eleição para reunir os parentes para um almoço e apreciar a movimentação de eleitores

Samantha Ciuffa
Família unida até para votar: Fátima de Melo (à esq.) e as irmãs Giseli e Sandra dos Santos Fabrício fazem da eleição um grande evento em escola do Geisel

Para alguns que vivem bem próximos das zonas eleitorais de Bauru, o dia de votação é visto como um grande evento. Tanto que, além de ser o principal ato de cidadania para definir o futuro do País, a data traz também a oportunidade de reunir os familiares. Caso da doméstica Fátima Venito de Melo, 62 anos.

Ela reside bem em frente à Escola Estadual Professor José Ranieri, no Núcleo Geisel. Como os filhos já não moram mais na casa, porém, ainda votam na unidade, o domingo de pleito, a cada dois anos, é garantia de almoço em família. “Até os conhecidos aparecem. Deixamos um cafezinho pronto para oferecer aos amigos e parentes”, conta.

Fátima destaca que o cardápio traz uma boa lasanha ou o tradicional churrasco. “Meus filhos vêm votar aqui. Colocamos cadeiras na calçada e observamos o movimento, o dia todo. Eu até voto cedinho para aproveitar mais. A gente vê vizinhos que não via há muito tempo. A eleição acaba sendo um grande evento para nós. Um dia de festa”, define.

Sobrinha de Fátima, a técnica em farmácia Sandra dos Santos Fabrício, 30 anos, vive na casa ao lado da tia. Ela lembra que as eleições mudaram bastante. “Antes, era mais animado, o pessoal passava com o carro jogando santinhos, colava cartazes. Hoje, está tudo mais silencioso, mais comedido”, compara.

Ainda assim, o vaivém de eleitores na escola deixa o dia diferente. Além da reunião em família, Sandra reencontra amigos de infância. “Moro aqui desde quando nasci e muitos se mudaram, mas retornam para votar. A gente fica o dia todo na calçada, esperando chegar algum conhecido. Acaba sendo um domingo bem gostoso”, diverte-se.

UNIDOS NO VOTO

Unidos para o almoço e para o exercício de cidadania. A técnica em farmácia conta que a família fica junta até na hora de ir para as urnas. “Não tenho pressa de votar. Espero as minhas primas chegarem, para irmos todas juntas. Às vezes, vou mais de uma vez, só para acompanhar um ou outro familiar que ainda não votou”. 

A aposentada Ivani Aparecida Jacó Prado, 78 anos, mora a poucos metros da Escola Estadual Ernesto Monte, no Altos da Cidade, uma das maiores seções eleitorais da cidade. Ela também vê as eleições como forma de reunir a família. “Entre filhos e netos, vêm uns dez. Eles preferem votar bem cedo, para aproveitar a movimentação”.

Moradores já presenciaram acidentes com santinhos

Eder Azevedo/JC Imagens
Nas eleições municiais de 2012, uma mulher de 64 anos morreu após escorregar em um ‘mar de santinhos’ durante a votação em Bauru

Samantha Ciuffa
Sandra dos Santos Fabrício: “Já vi gente caindo por causa de santinho e se machucando”
Fabiana é vizinha da Escola Ayrton Busch, no Parque Jaraguá: “Presenciei várias pessoas escorregando em santinhos, na época em que eu acordava e já tinha um ‘mar de papel’ nas ruas e calçadas”

“Já vi gente caindo por causa de santinho e se machucando”, relata Sandra dos Santos Fabrício (foto ao lado). Cena semelhante também foi presenciada pela cabeleireira Fabiana Aparecida de Oliveira Fermiano (foto abaixo), 40 anos, em eleições passadas. Ela mora há anos em frente à Escola Estadual Ayrton Busch, no Parque Jaraguá.

“Em votações anteriores, presenciei várias pessoas escorregando em santinhos, na época em que eu acordava e já tinha um 'mar de papeizinhos' nas ruas e calçadas”, recorda-se.

Em pleitos passados, o JC divulgou diversas ocorrências de eleitores que caíram em decorrência do material de divulgação dos candidatos espalhado pelas vias no entorno das zonas eleitorais da cidade. Em um caso mais grave, uma mulher de 64 anos morreu após escorregar em santinhos, durante as eleições municipais de 2012.

O fato, que revoltou a população, ocorreu em frente à Escola Estadual Francisco Alves Brizola, na quadra 2 da rua Doutor Ivo Giunta. Luciana Lucas teve uma fratura no quadril com envolvimento do fêmur, ou seja, a “cabeça” do osso quebrou, conforme detalhou, à época, a assessoria de comunicação do Hospital Estadual.

A fratura liberou uma espécie de gordura na corrente sanguínea, que se aloja nos órgãos, principalmente no pulmão. A mulher foi tratada com antitrombolíticos, porém, seu quadro se agravou e ela não resistiu aos ferimentos.

O acidente se configura como boca de urna, previsto em lei. A pena é de detenção de 6 meses a 1 ano, com a alternativa de prestação de serviços à comunidade pelo mesmo período, e multa no valor de R$ 5 mil a R$ 15 mil, além de ter o título de eleitor suspenso.

Eleitora vota e faz ‘tour’ por seções eleitorais da cidade

Enquanto há quem prefira distância dos pontos de votação, outros percorrem várias escolas para ver de perto o vaivém de eleitores

Malavolta Jr.
Oscarlina aprecia tanto as eleições que, além de acompanhar a movimentação em frente à sua casa, no Gasparini, faz questão de percorrer outros pontos de votação de Bauru

A aposentada Oscarlina Alves Moreira, 69 anos, é vizinha há 30 anos da Escola Estadual Professor Edson Bastos Gasparini, no Núcleo Gasparini. Ela aprecia tanto as eleições que, além de acompanhar a movimentação em frente à sua casa, faz questão de percorrer outros pontos de votação de Bauru durante todo o domingo de pleito.

“Voto logo nas primeiras horas porque gosto de ver o movimento da eleição em toda a cidade. Rodo vários bairros e também a região central. Para mim, a eleição, além de toda a sua importância democrática, é um grande evento”, comenta.

INDIFERENÇA

Ela lamenta, entretanto, que alguns eleitores não demonstrem interesse algum em política, o que, em sua opinião, prejudica (e muito) o processo de evolução do País. “Tem gente que não sabe em quem votar. O povo fica perguntando pra gente ou pegando os santinhos do chão para encontrar candidatos de última hora”, critica.

Malavolta Jr.
Embora não vote mais, João de Oliveira fica o domingo todo de eleição vendo o vaivém de eleitores em escola no Gasparini: cruzadinha para passar o tempo
Samantha Ciuffa
Neusa Lopes, que mora em frente à Escola Estadual Professora Vera Campagnani, no Jardim Redentor, fala das principais mudanças entre eleições passadas e as mais recentes

“Outros, porém, vêm com a 'colinha' em mãos, preparados. São pessoas que têm consciência, que sabem em quem votar e porque irão votar naquele candidato. A maioria, entretanto, pelo que observo, escolhe na hora, com base nos papéis que encontram pelas ruas”, reitera.

Vizinho de Oscarlina, o aposentado João Aparecido de Oliveira, 73 anos, prefere não exercer o seu direito ao voto. Porém, não perde nenhum lance das eleições em frente à sua casa. “Fico fazendo palavras cruzadas e observando, o dia todo”, conta.

MUDANÇAS

A doméstica Neusa Lopes Reis Santos, 63, mora há 39 anos em frente à Escola Estadual Professora Vera Campagnani, Jardim Redentor. Ela fala das principais mudanças entre eleições passadas e as mais recentes, em razão do endurecimento das leis no que diz respeito à boca de urna, por exemplo.

“Antes, era uma bagunça. Muito papel pro chão, que vinha até dentro da minha sala, e muito barulho. Havia muitos cabos eleitorais. Agora, é mais tranquilo, embora haja alguns candidatos que sempre dão um jeitinho de colocar alguém para trabalhar pra eles na frente das escolas”.

Natal Cesário, 79 anos, mora na mesma rua de Neusa há quatro décadas e concorda com ela ao citar que o comportamento de eleitores e candidatos mudou. “O movimento é intenso o dia todo, mas acho que os candidatos estão respeitando mais”.

Samantha Ciuffa
Ana Claudia Dourado é vizinha da E.E. Ada Cariani Avalone, no Mary Dota: “Antigamente, era mais difícil conviver com a votação o dia todo. Agora, é bem mais tranquilo”
Malavolta Jr
Sebastião Carlos Limão: “Hoje, a eleição está mais organizada. Estão respeitando mais as regras impostas em lei”

Ana Claudia Evangelista Messias Dourado, 28 anos, pontua que o pleito está bem mais quieto do que há alguns anos.

“Antigamente, era mais difícil conviver com a votação o dia todo. Agora, é bem mais tranquilo. A eleição está silenciosa. Nem parece eleição”, opina a personal trainer, que é vizinha da Escola Estadual Professora Ada Cariani Avalone, no Mary Dota.

“Hoje, está mais organizado. Estão respeitando mais as regras impostas em lei. Mais limpo e sem ocorrências”, frisa o vendedor Sebastião Carlos Limão, 49, que reside a alguns metros da Escola Estadual Professora Carolina Lopes de Almeida, no Jardim Godoy.

FILA NA MADRUGADA

Há 20 anos observando o movimento na Escola Estadual Ayrton Busch, Parque Jaraguá, a dona de casa Francimar Melo Cardoso, 58 anos, já flagrou eleitores que chegam para votar de madrugada.

“Por volta das 5h, já tem fila em frente à escola. A maioria é que vai viajar depois e quer votar logo, pois aqui é bastante movimentado. Neste ano, que tem mais candidatos, a fila deve ser ainda maior, porque demora mais o processo nas urnas”, comenta.

VOTA E ‘FOGE’???????

Samantha Ciuffa
Vizinha da escola Ada Cariani Avalone, no Mary Dota, Tania Cunha prefere distância da seção eleitoral: “Não gosto de ficar por aqui. Prefiro ir para longe da movimentação”

Enquanto uns gostam de ficar para observar o movimento de eleitores nas escolas, outros que moram próximos de seções eleitorais preferem “fugir” para bem longe do “olho do furacão”. Caso da funcionária pública estadual Tania Mara Cunha, 61, vizinha da Escola Estadual Professora Ada Cariani Avalone, no Mary Dota.

“Não gosto de ficar por aqui. Prefiro ir pra longe da movimentação, porque para muito carro em frente de casa e não dá nem pra sair. Voto logo cedo e vamos para alguma chácara, por exemplo. Nesse domingo (hoje), temos um aniversário pra ir”, comemora.

A empresária Renata Ribeiro, 41, chegou a buscar alternativas, em eleições passadas, para ficar longe da Escola Estadual Professor Silvério São João (região do Jardim Aeroporto). No entanto, como o movimento no local diminuiu com o tempo, ela e a família não se importam mais em permanecer no imóvel, situado bem em frente à unidade escolar.

“Antes, a gente votava e ia para alguma chácara. Agora, com as mudanças, como está mais sossegado, optamos por ficar aqui mesmo”, relata.

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