Tribuna do Leitor

Parece que foi em outra vida

Vicente do Carmo Martins
| Tempo de leitura: 2 min

Em janeiro do ano passado (2017), houve uma rebelião no Instituto Penal Agrícola (IPA) de Bauru. Mais de 150 presos, que já estavam em regime semiaberto, fugiram. Me lembro de estar voltando para o trabalho depois do almoço, subindo a rua Antônio Alves (ou a Engenheiro Saint Martin), na altura da avenida Duque de Caxias.

Estava ouvindo a Rádio Unesp e eles entrevistavam uma autoridade policial. Não vou me lembrar o nome ou a patente, infelizmente.

O policial em questão deu dados sobre o ocorrido e as medidas tomadas pela polícia para encontrar os fugitivos. Por terem participado de uma rebelião, após capturados, eles seriam encaminhados para o regime fechado.

O radialista que conduzia a entrevista pediu permissão para repassar uma pergunta de um ouvinte. O ouvinte indagava a opinião do entrevistado sobre "dar cama e refeições" aos capturados que haviam queimado colchões e destruído significativa parte do complexo prisional durante a rebelião.

Para mim, estava claro que o interlocutor daquela pergunta esperava uma resposta aguda, que rechaçasse com gravidade o comportamento dos criminosos.

Ao que o entrevistado respondeu, mais ou menos assim (não vou lembrar as exatas palavras, mas prometo fazer o melhor possível para lhe fazer justiça):

"O Estado, quando decide prender um indivíduo, retira do mesmo todos os seus direitos. Ele não pode mais ir para onde bem entender, ele irá comer no horário e aquilo que lhe for fornecido, ele vai se banhar no horário indicado, ele vai dormir no horário indicado, ele vai ser tutelado em todas as suas ações. O Estado remove completamente a sua liberdade. Mas o Estado não pode remover a sua humanidade e tratá-lo de forma desumana".

Tive vontade de aplaudir o rádio. Que opinião mais ponderada, coesa, racional. Iluminou o meu dia e ficou na minha memória.

Vinte e dois meses depois, ouvindo e participando de acaloradas discussões sobre o pleito eleitoral, a lembrança daquele comentário, comparada com a qualidade das ideias e argumentos que tenho ouvido, não parece mais com uma lembrança.

Parece mais um déjà vu ou um sonho. Parece que foi em outra vida.

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