Articulistas

Na reta final, paz e amor

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Desde a redemocratização do país tivemos sete eleições. Quem ganhou no primeiro turno, levou. Há três dias, pesquisa do Datafolha indicava Jair Bolsonaro (PSL) ainda como franco favorito. A novidade é que a diferença havia caído de 18 para 12 pontos percentuais, com a reação do oponente Fernando Haddad (PT). Para os especialistas, "o jacaré abriu a boca". Se vai fechá-la e dar aquele "giro da morte" na presa, é só uma questão de mais estímulo. As pessoas calejadas em campanhas políticas, que acompanham Bolsonaro, devem tê-lo alertado para moderar a belicosidade do seu discurso. Tanto é que o candidato resolveu impor a "lei do silêncio" para a militância. Não quer declarações e muito menos que seus seguidores entrem em confrontos.

Pegou mal na classe média, entre aqueles que haviam se decidido por Bolsonaro por falta de opção, o financiamento de empresas para impulsionar mensagens antipetistas no WattsApp. Assustaram os discursos radicais do próprio capitão da reserva, falando em "banimento dos vermelhos", "acabar com os petralhas" e "mandar o Haddad pra cadeia, jogar dominó com o Lula". O que lhe permitiu ganhar no primeiro turno não é adequado para as urnas de hoje, muito menos para governar.

Vem daí, não por coincidência, o recuo no desatino da absorção do Ministério do Meio Ambiente pela pasta da Agricultura; na atenuação de medidas de liberação no porte e uso de armas, e em outros temas. Sem falar das negativas de volta da CPMF. Constituinte de notáveis, do seu vice, general Mourão? Nem pensar... Bolsonaro deu o puxão de orelha devido, no filho Eduardo, quando este fez a menção de fechamento do Supremo. Os desatinos de Bolsonaro, cometidos na campanha e também ao longo da sua vida parlamentar, assustam até mesmo os militares da ativa. O Comando das Forças Armadas quer se descolar do candidato. Em caso de fracasso de seu possível governo, não quer ser confundido como mentor. O alto escalão está firme, sim, no compromisso de se manter como guardião da Constituição.

Chegamos à eleição mais polarizada e radicalizada da história republicana. Essas duas características foram turbinadas pelas redes sociais, o componente realmente novo do momento político. O distanciamento físico e a consequente possibilidade de anonimato estimulam a agressividade irresponsável. Ainda bem que a democracia, como disse o cientista político Fernando Schüler, "é uma extraordinária máquina de moderar posições". O provável vitorioso de hoje, parece ter entendido que é preciso seguir no caminho da moderação. Lembra o Lula, na campanha de 2002. Cansado de perder eleições presidenciais, resolveu seguir os conselhos do marqueteiro Duda Mendonça. Criou-se o personagem "Lulinha paz e amor", encenado pelo candidato. Deu certo. Infelizmente, o que era vidro se quebrou. No segundo mandato o velho sapo barbudo deu os seus pulinhos na lagoa. E não foi por precisão. Foi por boniteza mesmo. Hoje está preso em Curitiba.

Li muitos artigos, de intelectuais que admiro, dizendo que vão votar em branco, nulo, ou sequer sair de casa neste segundo turno. A opção está entre um candidato de discurso autoritário, de desrespeito às minorias, de incentivo ao ódio, e outro que representa um partido envolvido em escândalos de corrupção. O "não-voto" também não significa a não interferência no resultado da eleição. Quanto menos votos válidos mais fácil para o vencedor chegar aos 50% 1 dos sufrágios.

É preciso participar, para depois cobrar. As urnas sequer foram abertas e o autoritarismo já inspirou decisões de juízes eleitorais, em vários estados. Autorizaram a polícia a invadir universidades. A justificativa foi que repartição pública não pode ser usada para fazer ato de campanha. Mas, a vedação dirige-se à propaganda eleitoral e não alcança, por certo, a liberdade de manifestação e expressão, preceitos tão caros à democracia e assegurados pela Constituição. Vários ministros do Supremo manifestaram-se contra essa invasão das universidades. Rosa Weber, que preside o TSE, disse que a liberdade de manifestação é um "princípio a ser intransigentemente garantido". Aqui em Bauru, na Unesp, o tema de discussão foi o Fascismo de Bolsonaro.

Nenhum juiz eleitoral impediu os estudantes de discutirem se o candidato, de fato, se enquadra nesse regime que vigorou em alguns países, no início do século passado. Ou se os arroubos do capitão são apenas espasmos "fascistoides".

Quem sabe, manifestações populistas de extrema direita. Universidade, como o próprio nome indica, contempla todos as áreas do saber. Lá, tudo é objeto de estudos e discussão. Do exercício político nascem os líderes, que um dia poderão colaborar para o avanço da sociedade.

 

Comentários

Comentários