O professor dr. Alberto Consolaro relatou no artigo "Anti-inflamatórios: quem descobriu?" (Jornal da Cidade - Bauru, 27/10/2018) minha participação na descoberta do modo de ação dos medicamentos anti-inflamatórios.
É bem verdade, como indica o artigo, que a primazia a que pretendo na descoberta do modo de ação dos anti-inflamatórios foi ignorada, o crédito tendo sido atribuído à equipe do professor J. Vane, com quem nos anos 1970 colaborava o professor Sérgio Ferreira. Este cientista brasileiro mostrou que a peçonha da serpente Bothrops jararaca libera no sangue dos mamíferos uma substância então desconhecida.
O estudo desta substância propiciou que uma multinacional norte-americana, informada dessa descoberta provinda da pesquisa fundamental (portanto, sem objetivo aplicado), descobrisse uma série de medicamentos que combatem a hipertensão arterial, e que são utilizados até hoje.
A estrutura da universidade brasileira era, como ainda é, pouco capaz de desenvolver produtos, mesmo aqueles oriundos de suas próprias investigações. Isso propicia um conceito errôneo, a separação entre a descoberta fundamental, que associa inspiração, competências e meios materiais para a investigação de sua eventual aplicação.
A pesquisa fundamental condiciona a inovação, ao desenvolver novos conceitos científicos que a baseiam. Hoje, o futuro da ciência acadêmica brasileira preocupa enormemente a comunidade científica, devido a medidas administrativas e financeiras que se opõem a seu desenvolvimento - a PEC 95 limita por 20 anos os gastos públicos.
A pesquisa se dá em tempos prolongados e, embora sujeita aos controles administrativos de boa organização, não pode escapar a uma direção científica independente.
O futuro imediato não parece sustentar esta política, a ciência está em risco nesses tempos sombrios!