Os 57 milhões de brasileiros que elegeram Jair Bolsonaro acreditaram no seu discurso de apoio forte ao combate à corrupção, ao crime organizado e à violência. Uma vez proclamado vencedor, o futuro presidente teria que deixar claro que suas convicções são mesmo para valer. Convidou Sérgio Moro para o primeiro escalão do governo. E o magistrado aceitou, considerando as excepcionais condições que o colocam no papel de um superministro.
Terá sob seu comando não só a gestão da Justiça, como a da Segurança Pública. Absorverá o Ministério da Transparência, a Controladoria-Geral da União e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), atualmente no Ministério da Fazenda. Vai escolher seus assessores, para ajudá-lo nas ações integradas de combate à criminalidade em todo o país.
É verdade, Moro apagou o que dissera há dois anos, quando jurou de pés juntos que por nada no mundo entraria na política deixando sua carreira judicial. Certamente sabia que não faltariam críticas à sua decisão de abandonar as garantias da magistratura. O juiz deixa claro que a avaliou à luz de sua eventual contribuição ao bem comum. Acha que agora pode ajudar muito mais ao país do que à frente da 13ª Vara de Curitiba.
A acusação mais pesada contra ele seria a de ter retirado Lula, "ilegalmente", da corrida eleitoral. Para beneficiar Bolsonaro. O argumento não para de pé. Quem condenou o petista e exacerbou a pena foi o TRF-4, por unanimidade. Com a sentença de segunda instância, a consequência natural foi o enquadramento do ex-presidente na Lei da Ficha Limpa. Em 2014, quando a Lava-Jato começou, Jair Bolsonaro não era sequer um candidato viável.
Está certo que Sérgio Moro cometeu alguns erros, ao longo do processo. O primeiro deles foi a condução coercitiva de Lula para interrogatório, em 2016. O STF proibiu a prática, meses depois, por "abusiva e desnecessária". No mesmo ano vazou o grampo Lula-Dilma. A presidenta manobrava para tornar ministro o metalúrgico desempregado e às voltas com a Justiça, para que tivesse foro privilegiado.
Ainda neste ano, mesmo de férias, Moro manobrou para neutralizar a liberdade provisória concedida à Lula pelo desembargador Rogério Favreto, do TRF-4. Foi a chamada "guerra de decisões". O mais grave - pelo menos para gerar desconfiança quanto a isenção de Moro - foi a divulgação da delação premiada de Palocci.
Isso a menos de uma semana do primeiro turno. O depoimento do ex-companheiro, contava detalhes de um suposto esquema de arrecadação de propinas, mediante contratos fraudulentos para construção de navios-sonda à Petrobras. A repercussão foi ruim, principalmente na imprensa estrangeira.
É evidente que haverá uma série de recursos, pedindo a anulação de decisões judiciais que estariam contaminadas por interesses políticos. "A ida do Moro para a Justiça é um desastre" - disse o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, que agora advoga para a Odebrecht. Segundo ele, ao assumir uma posição política, acaba aquela imagem do Moro imparcial. Como defensor do empreiteiro dono do propinoduto, Dias representa o papel que lhe cabe. Todos nós temos um na vida.
O que não se pode menosprezar é a jogada midiática de Bolsonaro. Agradou à opinião pública, o mercado festejou com altas recordes na Bolsa e o dólar caiu. Aumentaram as convicções, segundo as quais o novo presidente quer cumprir o que prometeu, principalmente na guerra à corrupção epidêmica que nos envergonha. E tem pressa.
O único problema, para alguns estrategistas políticos, seria a de contrariar a folclórica orientação de bastidor, aos futuros governantes: "Não nomear alguém que não possa ser demitido". Outro superministro é Paulo Guedes, da Economia. "Imexível". Enquanto durar...
O grande inspirador de Moro, o juiz italiano Giovanni Falcone, também deixou a carreira de magistrado para ocupar cargo no Ministério da Justiça, no governo Giulio Andreotti. Falcone foi o responsável pela Operação Mani Pulite (Mãos-Limpas). Condenou 300 mafiosos na década 1980-1990. Sérgio Moro gosta de citar trechos do livro "Cosa Nostra: o juiz e os homens de honra", escrito pelo colega italiano.
A performance numérica brasileira é mais modesta: 130 apenados na Lava-Jato, a 1.900 anos de prisão, na somatória. A presença de Falcone no Ministério da Justiça serviu para profundar, ainda mais, as investigações que levaram a um golpe mortal na máfia, a partir da Sicília. Em março de 1992, quatrocentos quilos de explosivos foram colocados em um bueiro, em meio à rodovia.
Morreu Falcone. Passou para a história.
E a máfia, é passado.