O principal fundamento para compreender a condição humana é entender o conceito de entropia, geralmente descrito como uma medida da ordem e da desordem dentro de um sistema. Quanto menor for a entropia, mais ordenado será o sistema; quanto maior for a entropia, mais desordenado ele será. Esse conceito nasceu da Física no século XIX na forma da segunda lei da Termodinâmica que determina: em um sistema fechado (aquele que não interage com seu ambiente), a entropia nunca diminui ou a desordem sempre aumenta. Sistemas assim tornam-se inexoravelmente menos estruturados, menos organizados, menos capazes de alcançar resultados interessantes e úteis, até que estacam em um equilíbrio de monotonia cinzenta e nele permanecem.
Poderia, também, definir essa lei assim: quando as coisas mudam sem que um agente humano tenha direcionado essa transformação, a probabilidade é que as coisas mudem para pior. Essa lei é amplamente conhecida através de expressões como: "se parar, enferruja"; "se algo puder dar errado, dará"; "qualquer jumento pode derrubar um celeiro com um coice, mas é preciso um carpinteiro para construir um".
Essa lei ainda afirma: toda vez que uma transferência de energia acontece, uma parcela dessa energia útil vai se dissipar para uma forma inútil e essa parcela inútil de energia aumenta a desordem. Então, toda transferência de energia aumenta a entropia e reduz a quantidade de energia útil disponível. Além do mais, a transformação de energia, de forma natural, sempre acontece em uma direção e não na outra. Ou seja, ninguém espera aquilo que nunca acontece: uma resistência elétrica aquece a água, mas, a água aquecida não gera corrente elétrica na resistência mergulhada nela.
A segunda lei é muito mais do que uma explicação para as tribulações do cotidiano: é o alicerce da nossa compreensão do universo e de nosso lugar nele. Ela define o propósito fundamental da vida e do empenho humano: a necessidade de usar energia para repelir a maré da desordem e criar refúgios benéficos de ordem. No entanto, quanto maior a densidade demográfica, maior a demanda de energia para manter a ordem, em contrapartida, aumenta a energia inútil necessariamente descartada e com ela aumenta a desordem. Uma das componentes dessa desordem é o aquecimento global e uma outra é a violência.
Organismos vivos, como os nossos, são sistemas abertos que captam energia do sol e dos alimentos para criar bolsões temporários de ordem e manter nossos corpos vivos. Também descartamos calor e resíduos no ambiente contribuindo, com isso, para aumentar a desordem no mundo como um todo. Enquanto as plantas saboreiam a energia solar e algumas criaturas das profundezas se banqueteiam da sopa química que brota das fendas do leito oceânico, nós vivemos da energia armazenada no corpo de plantas e de outros animais: comendo-os. Com exceção das frutas, tudo o que chamamos de alimento é uma parte corpórea ou um depósito de energia de algum outro organismo que, preferiria manter essa energia para si mesmo. A natureza é uma guerra!
Para driblar a entropia ou evitar a desordem, além da energia, precisamos da educação na forma de conhecimento. O conhecimento é o ingrediente que distingue um sistema ordenado, estruturado, do imenso conjunto de sistemas aleatórios e, portanto, inúteis. Nossa sobrevivência depende do conhecimento ou de avanços tecnológicos que, inclusive, forneçam energia a um custo econômico e ambiental aceitáveis. No entanto, o preço que pagamos pelo aumento desse conhecimento com que vemos o mundo exterior é a cegueira progressiva de nossa visão interior que justifica a violência.
O autor é Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica Faculdade de Engenharia da Unesp – Câmpus de Bauru - SP.