Desde muito cedo somos obrigados a dar explicações. Quem tem boa memória vai lembrar de algum episódio de pressão total dos pais por respostas convincentes. Como quando a gente, criança, não fazia a tarefa. Aliás, sequer mostrava que tinha tarefa a fazer. "De novo? Não fez por quê? Tempo teve de sobra...". Ou quando a gente, criança, não ajudava numa atribuição doméstica simples. "Você não tem jeito. Me explica qual o motivo. Estou com pressa hoje...".
Dar explicações é tipo uma maldição: vai acompanhar você por toda a vida. Na adolescência, dar explicações aos amigos por que não chegou na garota que outro conquistou.
Na juventude, dar explicações à garota por que precisa dar um tempo para conquistar mais espaço próprio. Na idade adulta, dar explicações à mulher sobre quem são essas garotas do Face.
Não tem trégua. Se você se tornar importante, então... Gente de peso político passou a semana dando explicações. Ou fugindo delas. Até eu ando com medo do Coaf questionar essa movimentação atípica na minha conta: não cai depósito lá de jeito nenhum! No Brasil da transparência (digo, da transferência), isso levanta suspeitas.
Nem adianta esbravejar. A imprensa sempre perguntará e boa parte do tempo dos poderosos será mesmo destinada a isso: dar explicações. Tem coisa que não se explica, mas é o jogo a ser jogado. Como se fosse um truco nas mãos de um "mágico": "Como esses dois zaps foram parar com você ao mesmo tempo? Que movimentação atípica é essa, hein?".
Diante de ávidos microfones dá mesmo saudade do tempo em que o desafio era justificar por que o lixo não foi tirado, a louça não foi lavada... Essa era, aliás, uma lavagem bem mais simples de explicar do que outras tantas que aparecem por aí hoje.