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Doenças ontem e hoje

Marcela R. de Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Esses dias, em uma conversa muito gostosa entre amigos, me perguntaram: "Por que antigamente não tínhamos tantas doenças como temos visto atualmente?" Foi então que resolvi compartilhar um pouco do que sei, já que percebo ser a dúvida de muitas pessoas!

O que eu vejo é o progresso que vem de mansinho, tomando conta das nossas vidas, facilitando tudo ao nosso redor! Mas o que não percebemos é quanto realmente somos beneficiados ou sofremos as consequências disso.

Voltando um pouco na história da humanidade, de acordo com a teoria Darwiniana, fomos selecionados os mais fortes, os mais adaptados ao meio. Aqueles que não possuíam características que permitissem sua sobrevivência, eram consequentemente eliminados, Seleção Natural.

Hoje, a força da seleção natural atua de forma bem menos determinante. Possuímos remédios para dor de barriga, carne disponível no mercado, água corrente na torneira, não morremos de disenteria e nem precisamos caçar para sobreviver, não precisamos nem ao menos ir ao mercado para fazermos nossas compras. Tudo foi moldado para facilitar o dia a dia moderno.

Caminhando um pouco mais adiante, vem o século XIX, marcado pela revolução industrial, tomando proporções ainda maiores com o desenvolvimento tecnológico do século XX, sendo então caracterizado por intensas mudanças. Computadores, celulares, fornos micro-ondas, comidas congeladas, sucos de caixinha, plantação de transgênicos, excesso de agrotóxicos, ondas eletromagnéticas e radiação. O ar que respiramos hoje não é o mesmo de décadas atrás, a água que bebemos, os grãos que plantamos, a comida que comemos, o ambiente que vivemos. Somos mais estressados, ingerimos com mais frequência alimentos com menor valor nutricional, pouca fibra, falta de exercícios físicos.

É muito mais interessante a rede social acessada dentro do quarto com ar-condicionado do que a conversa ao ar livre embaixo de uma árvore. Graças à tecnologia, temos o desenvolvimento de vacinas que evitam doenças e epidemias, mas também temos o chão de terra, com valor único para nossas crianças brincarem e desenvolverem seu sistema imunológico e que vem sendo cada vez mais "esquecido" pelo mundo moderno.

Fomos e somos submetidos a todos esses avanços, sem seleção natural, fazendo com que determinadas doenças "aparecessem" mais tardiamente, como é o caso dos cânceres e algumas doenças do sistema imune.

Tudo isso, de certa forma sobrecarrega o corpo e este acaba não tendo condições de se renovar com a mesma velocidade a qual é submetido aos danos, levando muitas vezes à modificações na sua estrutura e ao aparecimento de doenças ou até mesmo respondendo de forma exagerada a alguns estímulos.

Desta forma, além da herança genética que nos predispõem a cânceres e alergias, por exemplo, sofremos ainda a pressão do ambiente, que pode determinar se vamos desenvolver ou não patologias.

O conhecimento e a tecnologia permitiram uma longevidade maior das pessoas, hoje temos mais condições de saber o que nos faz mal e o porquê. Temos mais facilidade em buscar informação de qualidade, em consultar um especialista, de procurar saber o que nos incomoda, ou seja, mais condições de identificar os problemas.

Ao mesmo tempo, temos também a divulgação de muitas opiniões, o que faz bem ou o que faz mal, o que se deve e o que não se deve fazer.

Temos a propagação de opiniões divergentes e também de interesse particular. Cabe a cada um buscar o conhecimento e o que nos faz bem, entendendo que cada escolha sempre terá seu lado bom e seu lado ruim!

A autora é bióloga e PhD em Patologia pela Faculdade de Medicina de Botucatu-Unesp. Atualmente pós doutoranda do Depto de Cirurgia, Estomatologia, Patologia e Radiologia da FOB/USP.

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