Tribuna do Leitor

A propósito de um artigo

Dra. Maria da Glória De Rosa pedagoga, jornalista, advogada profa. aposentada da Unesp mg-de-rosa@hotmail.com
| Tempo de leitura: 2 min

O JC publicou ontem, nesta página, um artigo intitulado 'Algo de podre dentro da universidade', do professor Renato Ghilardi. Ao ler o título, muitas recordações vieram-me à mente e, à medida que ia lendo o artigo, transportei-me aos meus tempos acadêmicos e senti-me na condição de participar, uma vez que ambos conhecemos muito bem o ambiente em tela.

É desgastante para o professor enfrentar situações que, na maioria das vezes, não se casam com seus princípios ou com seu modo de atuar em determinadas situações.

Quando comecei a fazer parte do corpo docente da universidade, nos anos 60, fervia o movimento estudantil e parte da classe discente passou a adquirir contornos, até então, ao meu ver, meio assustadores.

Eu vinha de universidades particulares - naquela época eram faculdades de filosofia - onde os alunos eram cordatos, educados, respeitadores (não confundir com carneirinhos de Panurgo).

O que vi me deixou perplexa. Professores idosos, intelectuais, de currículos significativos desacatados por alunos insultuosos, ofensivos. Logo pus em dúvida minha condição de membro do corpo docente: deveria continuar ou evadir-me silenciosamente? Por isso, tenho condições de analisar os sentimentos do professor Renato Ghilardi, que demonstrou mais equilíbrio que eu diante de uma situação parecida. Ele achou graça, eu fiquei aturdida.

Bem, logo se vê que essa "sandice autoritária vindo de alunos que pregavam um mundo marxista-anárquico-libertarista" é muito antiga. E é lógico que sempre vem com o respaldo de uma parte dos professores que sabe como doutrinar e meter sonhos vãos nas cabeças ainda em formação. Essas dissensões são tão antigas como as universidades. Não foi num contexto apaziguado que as escolas do século XII se transformaram em universidades.

Como escreve Jacques Verger, essa transformação, esse crescimento ocorreu em meio a tensões e inquietações que ajudaram a compreender a aspereza dos conflitos desencadeados em determinados momentos. Desta oposição resultaram as primeiras greves, os conflitos obscuros. Em Paris foram tomadas medidas tanto de controle quanto de novas liberdades. Estavam descambando para o exagero.

A vida é luta, professor. De vez em quando, eu tomo nas mãos um livro do Arnaldo Jabor e leio frases como esta: a crise é boa para conhecer certos tipos humanos. Temos um reality show sobre o Brasil, temos as vaidades na fogueira, os falsos testemunhos, vemos a lama debaixo das dignidades, temos os miasmas aparecendo debaixo da saia dos juízes... e tudo vai diplomando o povo em ciência política. Resista, professor. "A luta é ingrata", sim. Mas, mudar o país tem que ser por dentro.

A democracia brasileira há de expelir os micróbios que a atacam. Precisamos acreditar! E obrigada pela oportunidade que me deu de desabafar!

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