E não é que o livro virou palavrão, artigo nefasto e símbolo do mal para os fiéis detentores de dedos que apertam as teclas do WhatsApp e que conduziram a eleição deste ano?
Ao sugerir o objeto de conhecimento e entretenimento como presente nas listas de amigo secreto, aparece o cidadão de bens que coloca o livro como objeto proibido a ser presenteado. Eu duvidava que a ignorância pudesse chegar a esse ponto e que os futuros tempos sombrios eram apenas uma metáfora, mas eis que cá estamos!
Aquele referido cidadão vê que o conhecimento que advém do pensamento crítico é muito diferente do que suas redes sociais propagam. Perigo, portanto. Uma outra verdade - se é que pode existir uma única - aflora e dá uma facada em todas suas crenças, convicções, telas de Powerpoint, memes e sabe-se lá mais o que, tudo o que fundamenta a mentira que move, agora, um país.
Quanto mais se aprende, mais se descobre que pouco se sabe. A leitura abre portas que nem se imaginava que existiam. Tudo isso são aforismos do deleite e do prazer do contato com um livro, que não é maior devido a seus custos, indisponibilidade, falta de tempo e outras razões.
Mas, agora, aparece sem qualquer vergonha a assunção de que não se quer exercitar a massa cinzenta que está localizada entre os dois pavilhões auditivos. Não é mais preguiça, e, sim, medo de pensar.
Sérgio Rodrigues, em sua coluna semanal em jornal da capital paulista, discorreu sobre a origem da palavra livro, que vem de algo que revestia as árvores, semelhante ao papiro, usado para escrever. Acrescentaria apenas a insistência da palavra 'livro' ser próxima a 'livre', um quase tolhido grito de liberdade que a leitura propicia.
Torna-se o símbolo perfeito da resistência, da resiliência, da possibilidade de que nem tudo está perdido e alguma racionalidade pode continuar existindo. Pelo incômodo que causa nos tapados, é esse o caminho certo a trilhar.
Apesar do alerta, continuo, pois, a presentear e pedir livros, tanto agora, neste insano fim de ano, como em qualquer outra época, uma vez que o tempo é medida contínua e a efeméride é mera condição humana.
Em minhas constantes visitas a pedágios pelas estradas paulistas, dou aos atendentes um exemplar de meu livro de artigos de opiniões sobre ciência, tecnologia, ambiente e educação "Transformações na terra das goiabeiras". Vez ou outra escuto um "não gosto de ler" ou "não quero" e sigo adiante.
De qualquer forma, convém avisar que o título do livro, do ano passado, nada tem a ver com os relatos alucinógenos de futura ministra. As goiabas estampadas na capa são todas saudáveis. O conteúdo do livro é exclusivamente de divulgação científica e baseado na aplicação de conhecimentos reais.
O autor é químico, pesquisador da Unesp-Rio Claro. adilson.goncalves@unesp.br