| Aurélio Alonso |
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| Distrito Guaianás, pertencente ao município de Pederneiras, rota dos ciclistas e pequena localidade a 20 quilômetros de Bauru |
O cachorro "Negrão" e o gato "Zé Benedito" são os mascotes de duas pequenos distritos: o primeiro em Guaianás, pertencente a Pederneiras, e o segundo de Alfredo Guedes, em Lençóis Paulista. Essas localidades são tão tranquilas que possibilitam que animais de estimação andem pela rua sem ser molestados, como se fossem da coletividade. Esses povoados são subdivisões administrativas de nível municipal sem autonomia política e dependente do município-sede. Na região de Bauru há 36 distritos espalhados que viveram o auge da agricultura e da ferrovia, no entanto, experimentam uma redução de população. Não são cidades, mas misturam hábitos e cultura do campo com a modernidade.
O mais antigo é Aparecida de São Manuel, no município de São Manuel, onde está a segunda igreja em homenagem a Nossa Senhora da Aparecida, depois do santuário do Vale do Paraíba. O distrito mais novo é São Roque Novo no município de Bofete na região de Botucatu.
Em Jaú, Potunduva tem uma população de 13 mil habitantes, quantidade muito superior a Avaí, Balbinos, Boraceia e Borebi, todos municípios com autonomia política.
Nesta semana, a reportagem percorreu os distritos de Potunduva, Guaianás e Alfredo Guedes e traz um diagnóstico de como esses povoados vivem e ainda dependem de seus municípios-sedes.
Uma das característica dessas divisões administrativas é terem povoamentos expressivos, porém estão afastados da área urbana principal.
A definição de sede de município a categoria de cidade vem do Estado Novo, do presidente Getúlio Vargas, no século passado. Foi o decreto lei nº 311, de 2 de março de 1938 que estabeleceu que os distritos se designariam pelos nomes de suas respectivas sedes, e se não fossem sedes de município, teriam de ser vila.
Ao longo dos anos a legislação vem sendo modificada. O tema sempre está ligado a emancipações. Esquecidos muitas vezes pelos municípios sedes, alguns distritos conseguiram a sua elevação a município. Espírito Santo do Turvo, por exemplo, conseguiu se desligar de Santa Cruz do Rio Pardo nos anos 90, mas Potunduva já buscou a emancipação e esbarrou na atual legislação que impede a criação de novas cidades.
Há uma tendência de brecar as emancipações, porque as novas cidades muitas vezes não têm receita para sua manutenção e ficariam dependentes de recursos estadual e federal.
A competência de legislar sobre a questão cabia aos estados, já a partir de 1967, a emenda constitucional nº 1 estabeleceu os critérios para as emancipações, definindo que um distrito precisaria ter pelo menos 10 mil habitantes e cinco milésimos da arrecadação estadual.
Depois a Constituição de 1988, fez mudanças e transferiu a competência de fixar os parâmetros retornando às assembleias estaduais. A edição da Emenda Constitucional nº 15, no ano de 1996, paralisou o processo de criação de novos municípios, uma vez que esta prevê uma lei complementar para regulamentar os períodos e os estudos de viabilidade para a efetivação das emancipações.
Independente de serem autônomos, essas comunidades resistem e muitas vezes são o refúgio para quem não gosta de viver em centro urbano muito movimentado. O JC nesta semana traz a história de três distritos e prossegue na próxima semana.
Potunduva tem porte de município
| Aurélio Alonso |
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| Trevo de entrada aponta Distrito de Potunduva e seguindo em frente chega-se à Usina Diamante, que fica próximo ao Rio Tietê |
O Distrito de Potunduva é um dos mais habitados e chega a ter mais moradores do que municípios do porte de Avaí, Balbinos, Boraceia e Borebi. Com uma população de 13 mil pessoas, a localidade é conhecida desde 1780, quando as primeiras expedições, que viajavam em busca de ouro, passaram pelo porto de Potunduva para deixar suas embarcações. Mas o status de distrito de Jaú veio em 1928. Já tem 100 anos de existência e no local havia a estação de Ayrosa Galvão, na linha tronco da antiga Companhia Paulista de Estrada de Ferro.
A sua base econômica é a cultura da cana-de-açúcar. A Usina Diamante, do grupo Raízen, está instalada na área do distrito. É a maior empregadora de mão de obra. A localidade é bem pacata. Ao entrar na sua principal avenida, já de manhã, dá a impressão que é um feriado. Portas fechadas um som de pio de passarinho nas árvores. Essa é a característica peculiar dos distritos.
ADOTOU A LOCALIDADE
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| Expedido Machado da Silva veio de Pernambuco e escolheu Potunduva como sua localidade |
Devido a usina até há pouco tempo vinha muita mão de obra do Nordeste para cortar cana. Com a mecanização está reduzindo a oferta de trabalho e aqueles que vieram acabaram ficando em Potunduva. Como é o caso de Expedido Machado da Silva, 57 anos, que nasceu no Estado do Pernambuco, mas adotou o distrito como a sua localidade de coração. Há 12 anos, ele sofreu uma acidente de motocicleta ao passar em um buraco da estrada vicinal que faz a ligação com a localidade. Depois de 35 dias se recuperando em hospital de Araraquara, para se locomover precisa de um par de muleta.
Expedido admite que a "tecnologia" tirou os empregos na localidade. "Hoje é tudo na base da máquina", diz resignado. Embora goste de morar no distrito pela tranquilidade, tudo mundo conhece pelo nome, mas reclama que a população depende muito de Jaú, o município sede. "Se aqui virasse município, a gente ia depender só daqui", emenda.
O JC percorreu as ruas de Potunduva nesta semana e notou que é comum reclamar do município sede e há preferência por uma futura emancipação. Já houve tentativa, porém não prosperou. Com sua simplicidade, o próprio Expedido admite: "Precisa saber se aqui tem renda para virar município. A não ser que o imposto que arrecada com a usina fique para nós".
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| Dono de um bar há 18 anos em Potunduva Antonio Carlos do Rego |
O distrito é cercado de canaviais,no entanto, no passado o café tomava conta da área. "Até aparecer a geada preta que acabou com tudo. Aquele tempo fazia mais frio que hoje", relembra Expedido, com saudosismo do tempo que o trem parava na estação de Ayrosa Galvão - o prédio já foi demolido.
O comerciante Antonio Carlos do Rego, 62 anos, dono de um bar há 18 anos, faz questão de acrescentar que os antigos se referem como Ayrosa Galvão e não Potunduva. Para ele, o melhor destino é o distrito é se desligar de Jaú. "É uma vaca cheia de leite que fica para o vizinho", compara Carlinhos, como é conhecido, ao se refeir a falta de investimentos na localidade.
Há postos de saúde, escola e até uma unidade do Serviço de Atendimento de Emergência e Urgência (Samu) que prestam bons serviços, comentam os moradores. Embora o tema emancipação faça parte das conversas, Carlos do Rego admite que dificilmente deve ocorrer, devido as dificuldades da legislação na criação de novos municípios.
TRANQUILIDADE
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| Balconista Josiane Rodrigues Lima trabalha no comércio e mora no Distrito de Potunduva |
A balconista Josiane Rodrigues Lima, de 33 anos, trabalha em uma loja que fica no Centro do Distrito, perto da igreja. Nasceu em Itapólis, se considera "criada" em Potunduva. "Graças a Deus não dependo de Jaú. Trabalho aqui e os meus filhos frequentam a escola daqui. É um bom lugar para viver, e se virasse município seria melhor ainda". conta.
Ela diz que Potunduva tem tudo para um dia ser um município e se emancipar de Jaú. Apesar da tranquilidade, quase não se vê gente na rua, a não ser cachorro e crianças brincando, Josiane conta que já foi roubada três vezes no estabelecimento, uma delas sob ameaça de faca. "Infelizmente, o problema das drogas já chegou aqui. São nóias que desesperados acabam roubando", relata.
| Aurélio Alonso |
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| Joaquim Rorigues de Azevedo, o "Brasileiro", tem 92 anos |
A localidade é tranquila garante seu Joaquim Rodrigues de Azevedo, o "Brasileiro", de 92 anos, ex-ajudante de maquinista de locomotiva e aposentado como encarregado na usina Diamante. Ele veio de Jundiaí, mas já morou em Bauru, nos tempos que trabalhou na Cia Paulista, quando fazia o trajeto Jundiaí-Rio Claro ou Rio Claro-Bauru.
"Gosto de morar aqui. Sou um homem que sempre teve saúde", conta sentado na cadeira do bar de Carlos Rego, ponto de encontro para uma prosa. Por sinal conversa aqui não falta. Em poucos minutos durante a entrevista já juntou algumas pessoas e começaram a falar sobre a localidade. Tudo em um clima ameno, até "Brasileiro" se levantar e seguir na sua caminhada a passos lentos.
Guaianás, onde tempo não para
| Aurélio Alonso |
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| Igreja de Guaianás é o principal prédio no centro da pequena localidade de Pederneiras |
O clima de sossego, o barulho de passarinho e cachorros caminhando pela rua chama atenção para quem chega ao distrito de Guaianás, pertencente ao município de Pederneiras, a 30 quilômetros de Bauru. Na área central há uma praça e no entorno várias árvores. A localidade é cortada pelos trilhos da ferrovia, da antiga Companhia Paulista. Ali já teve estação, mas foi demolida. É uma rota de ciclistas e motociclistas que passam por lá nas "andanças" regionais.
O mascote do lugarejo é o cão "Negão", de grande parte e muito manso. Já adotado pelos moradores e visitantes. O Bar da Sueli é um ponto de encontro para uma prosa rápida, um gole de cachaça e uma gelada nesses dias de calor. Ali também vende outros produtos. No entorno só casas.
| Aurélio Alonso |
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| Sueli de Fátima da Silva Arantes é proprietária há 10 anos de um bar no distrito de Pederneiras |
No balcão fica Sueli de Fátima da Silva Arantes, 41 anos, que comanda o estabelecimento há 10 anos. No local sempre está o cão de estimação. "Ele apareceu por aqui, e a gente vai cuidando", conta.
Os fregueses sentados, conversam e brincam com "Negão". Pelo porte assusta, mas é dócil.
A pedreira é uma das principais fontes de mão de obra na localidade. É o que quebra a monotonia com os caminhões circulando e de vez em quando é necessário explodir alguma jazida.
| Aurélio Alonso |
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| Estação ferroviária de Alfredo Guedes, no município de Lençóis Paulista: prefeitura tem planos de reformá-la |
Antonio Marcos, de 49 anos, veio de Barra Bonita para trabalhar na pedreira. Já residiu em outras cidades, mas adotou Guaianás pela tranquilidade. "É um lugar gostoso para morar", emenda.
Marcos Borges, que tem empreendimento em Bauru e propriedade rural no distrito, tem planos de mudar para Guaianás. Na entrada da localidade, ele conta que está construindo uma nova casa. "A minha filha caçula gosta muito daqui. Fica a 15 minutos de Bauru", relata Marcos.
Quem gosta de pedalar sempre aproveita para dar uma parada em Guaianás, que não é o único distrito de Pederneiras. O município também tem Vanglória e Santelmo. Enquanto a reportagem conversa com moradores, o cão "Negão" fica no centro acompanhando tudo. Em distrito é assim, animal tem um convívio coletivo. Uma característica desses lugares: silêncio e os moradores conhecem pelo nome e prosa faz parte do dia a dia.
Alfredo Guedes tem praça florida
| Aurélio Alonso |
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| Placa com indicação da estação ferroviária de Alfredo Guedes está bem conservada |
O distrito de Alfredo Guedes chama atenção pela boa infraestrutura com praça florida, brinquedos para criança, um campo de futebol com belo gramado e tem até uma casa dedicada à preservação da memória: Memorial Alfredo Guedes. É também rota das andorinhas. Os postes ficam repletos delas como na manhã de terça-feira. A entrada é cortada pelos trilhos da ferrovia.
Em 1918, o nome original, Areia Branca, tirado de um córrego da região, foi alterado para Alfredo Guedes (1868-1904), advogado e político que foi secretário da Agricultura do Estado no final do século XIX, conforme informação do site Estação Ferroviária Brasileira.
| Aurélio Alonso |
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| Praça Nelson Pasqualinotti bem florida e conservada no Distrito de Alfredo Guedes |
O local é um distrito do município de Lençóis Paulista criado em 1934 e que fica afastado sete quilômetros a leste da via Marechal Rondon. A estação está abandonada desde 2013 e chegou a ficar habitada por algumas famílias. A prefeitura tem planos de conseguir a sua destinação para reformar e criar um espaço cultural.
A dona de uma padaria na localidade, Maria do Carmo Faria Gomes, adotou Alfredo Guedes para moradia, quando veio de São Bernardo do Campo, cidade da Grande São Paulo. Ela trocou o trânsito movimentado de muito barulho pela tranquilidade da localidade. Isso foi há dez anos, após a sua aposentadoria. O único senão é a falta de empresas para gerar empregos. "Quem mora aqui não vai embora mais. Quem foi, volta", conta a comerciante.
| Aurélio Alonso |
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| Maria do Carmo Faria Gomes trocou São Bernardo para viver em Alfredo Guedes |
E antes de mudar nem sabia que existia a pequena localidade. "Um parente veio a passeio, gostou do lugar e indicou. Acabei comprando terreno e abrindo o comércio. Penso que todos nós temos um propósito de Deus", conta Maria do Carmo, enquanto embaixo do balcão dorme tranquilo o gato "Zé Benedito". "Apareceu aqui, acabei adotando. Dorme o dia inteiro e sempre circulando. Todo mundo gosta dele", relata a comerciante.
| Aurélio Alonso |
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| Marcio Gasparini conta que o desligamento do sinal analógico deixou a localidade sem TV, uma reclamação recorrente no local |
A praça Nelson Pasqualinotti fica a poucos metros do estabelecimento. É toda florida, com bancos e vários brinquedos feitos de madeira. A localidade também aguarda a sua expansão: em breve vai ganhar mais 35 casas populares, que vem construída na "parte alta" da cidade. O distrito fica numa parte íngreme que se inicia na estação e estende até onde estão sendo construídas as unidades habitacionais no alto do espigão, faltando só o acabamento. A calçada é de concreto e na lateral tem grama.
Uma reclamação dos moradores é a falta de sinal de televisão depois do corte do analógico. Quem relatou o problema foi o dono de um pequeno supermercado, Marcio Gasparino. "Há um mês o pessoal tem reclamado que não consegue mais sintonizar nenhum canal de TV. Só quem tem parabólica", relata. Fora isso, Gasparini contou que nasceu no distrito e é um local tranquilo. "É um bairro bem ajeitado, principalmente depois que trocou os paralelepípedos por asfalto. A gente gosta do sossego", cita. Apesar de índice baixo de criminalidade, Marcio conta um problemas que teve no passado quando houve um assalto a um taxista e o ladrão matou uma pessoa.












