Tribuna do Leitor

O Cão nosso de cada dia!

Professor Sinuhe, vivendo um dia de cão!
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Minha mãe não me deixava ter um cachorro, será por ser um vira-latas? Causar-me-ia complexo ter o cão de estimação como sentenciou o dramaturgo Nélson Rodrigues após a perda da Copa do Mundo de 1950 pela Seleção Brasileira para a Seleção Uruguaia em pleno Estádio Mário Filho, nome do seu irmão, ao dizer que o brasileiro tinha "complexo de vira-latas"?

Definia assim o autor de "A Pátria de chuteiras", entre outras obras-primas: 'por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.'

O vira-latas que eu desejava ter como amigo na minha casa de madeira no bairro Bela Vista nada tinha a ver com o grande escritor a quem nem conhecia, infelizmente. A composição por justaposição, no caso, foi dada aos cachorros que viravam as latas de lixo para comerem restos das possíveis refeições de todos os vizinhos! A comida ficava caída na calçada, culpa dos pobres cãezinhos, de quem eu tinha muita pena, principalmente quando se dizia que a "carrocinha" os levaria para um lugar onde virariam sabão, tinha raiva até das lavadeiras e seus "ensaboa", né, Marisa Monte?

Lembro-me também de quando minha mãe via cachorros a "namorarem", falava que aquilo era indecente e alguém deveria jogar água quente, toda nudez canina ou não será castigada! A verdade é que a cachorrada não tinha esse moral de hoje, de ter aniversário, personal dog, cama, ração, shopping e outros privilégios!

O meu primeiro cachorro chamava Scooby Doo, como era pobre e brasileiro, achava melhor Escubidu, engraçado que o nome lembrava o Bidu de Maurício de Souza, gostava muito dele, mas minha mãe pediu, exigiu que ele fosse embora, que tristeza! A Santo Vicentin, grande amigo da família, que foi, muitas vezes, meu Papai Noel, coube a difícil missão de levar Escubidu embora, Santo foi conversando comigo e dizendo-me que ele iria para uma fazenda e eu sempre o visitaria, acreditei e fiquei mais feliz, afinal, "estar junto é mais que estar perto!" Tempos depois, tive o Rex, um Tenerife, branco como a neve, e que ficava marrom como as terras que cercavam a Vila Cardia e seus terrenos transformados em campinhos para a prática do ludopédio, entenda-se futebol, pelada, rachão, bater uma bolinha!

Rex fazia aniversário dia 26 de julho, que eu nem sabia ser o dia dos avós, volta e meia, minha mãe fazia um bolo para comemorar o aniversário dele! Esse ficou comigo até o dia em que fiquei sozinho sem pai, que já não tinha, sem mãe adotiva, sem ninguém em casa, levaram-no embora sem meu conhecimento, mais tristeza da perda!

Tempos depois, morando sozinho, em uma república de um homem só, o Palmeiras levou-me a nomear dois seres: o macho, Parma, e a fêmea, Palestra, que tentavam atenuar a etimologia do meu nome, Sinuhe, "aquele que vive só"!

Parma e Palestra sumiram-se em uma tarde noite de uma sexta-feira do bairro de Higienópolis. Teriam sido raptados por torcedores rivais? E por falar em futebol, William Jacob nomeou certa vez seu fiel companheiro, um cão, de Araúúúújoooo, zagueiro famoso e folclórico que tinha seu nome gritado a toda falta a favor do Esporte Clube Noroeste e que, curiosamente, não batia falta!

Incrível, o futebol, hoje, William que, um dia, jogou com Zerique, com o craque "Maradona" Rubinho Salles e outros na Portuguesinha de Luís Melo, tem agora um carinhoso e irrequieto labrador, o Bud, que , na casa dos Jacobs, aliviou a nossa dor diante da derrota para o Boca na Bombonera!

Vinícius de Moraes, o "poetinha", dizia que "o uísque é o melhor amigo do homem, é o cão engarrafado", poeta que encantou a professora de literatura e compositora Valéria Pisauro e Leia (leia-se Léia) Cajuella, que moram em Campinas ,no Apartamento dos Artistas, assim grafados por elas e que possuem o companheiro de quatro patas, Camões!

E quem não se lembra de Lassie, Rin tintin, Lobo ou Bandit?

Tenho um amigo que diz que as pessoas têm cachorros por medo de terem filhos, não o sei, respeito, mas não o sei, eu que critico o amor exagerado por esses animais , chamo minhas boxers Sol , hoje , adoentada, e minha Sinhá, que não para um minuto, de filhas! Penso que estava certo, como sempre, o Bruxo de Cosme Velho, Machado de Assis, "Felizes os cães, que pelo faro, descobrem os amigos!".

 

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