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De relapsos a heróis

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Entre as duras lições trazidas pela tragédia de Brumadinho estão dois exemplos de conduta humana sobre os quais muito há para se aprender. São extremos de uma escala crescente que vai da total irresponsabilidade ao risco de perder a vida no cumprimento do dever. Começamos falando daqueles que, por serem relapsos no cumprimento de suas obrigações, contribuíram para que a tragédia acontecesse. Professor da Universidade do Paraná, consultor da ONU, em visita ao local, classificou as causas como antropogênicas, isto é, devidas à conduta humana. Profissionais de diversas categorias, próprios ou terceirizados da empresa e servidores públicos com responsabilidade por projetos, construção e inspeção, que de alguma forma tomaram decisões equivocadas, displicentes ou se omitiram, sem contar possíveis envolvimentos com corrupção, têm aí a sua infeliz parcela de contribuição.

No extremo superior da escala estão aqueles que arriscam a vida para dar uma resposta à aflição dos familiares das vítimas, mesmo que seja apenas para entregar-lhes o corpo de seus entes queridos para o justo sepultamento. São os bombeiros que se arrastam na lama de até 15 metros de profundidade, por horas infindas, em procuras muitas vezes inglórias, mas nunca desistindo. Com eles, também, comandantes de helicópteros, em manobras perigosíssimas, agentes da defesa civil, voluntários especializados em resgates e repórteres de campo para manter familiares e a população informados.

O governo, mesmo sendo pego de surpresa nos primeiros dias de exercício foi mais rápido que o anterior, na tragédia similar de Mariana. O governador tem sido muito diligente, apesar de ter recebido o Estado de Minas esculhambado pelo seu antecessor, o petista amigo da Dilma, mais preocupado em colocar a sua fotografia em todas as repartições públicas. O governo federal, apesar dos problemas de viagem e saúde do Presidente, montou todo um aparato ministerial para acompanhar e ajudar no que é de sua competência e até contou com um gesto de simpatia do governo de Israel, que enviou uma equipe especializada em resgate, para ajudar.

Os governantes atuais, com certeza, poderão jogar a culpa nos governos anteriores, mas não toda, porque grande parte da responsabilidade está com aqueles que permanecem na máquina estatal - são os servidores de carreira e comissionados dos três poderes, legisladores, magistrados e procuradores, cujas atribuições tenham relação com o assunto. Na organização administrativa há órgãos específicos para cada um dos assuntos da vida nacional. Eles vão alegar, para se defender de alguma acusação, falta de dinheiro ou de pessoal. Essa alegação, vista pelo mapa inerte dos registros administrativos, pode chegar a convencer, mas é preciso colocar uma lupa no quadro geral. Assim, dizer que há mil e tantas barragens e cento e poucos funcionários, é lógico que a fiscalização fica deficiente.

O mapa ampliado, contudo, vai mostrar o descalabro da máquina estatal. Não há falta de servidores, o que há é má distribuição, de acordo com a necessidade, tanto em relação ao volume de trabalho como às qualificações exigidas e aos níveis salariais. Essa desigualdade ou desequilíbrio existe nos três poderes e nas três esferas de governo. Ela começa com o excessivo número de 'aspones', reais e virtuais, recebendo salários maiores que os dos servidores de carreira e continua com as funções gratificadas para cargos de chefia ou supervisão que nem sabem o que seus subordinas fazem. Um museu pega fogo? Um viaduto cai? Um hospital precisa fechar porque não serviria nem ao país mais pobre da África? Alunos do ensino público têm aula em baixo de árvores? Você entrega o celular e ainda leva um tiro? Quem era e quem vai continuar sendo o responsável?

A mudança aconteceu, saímos do gargalo do PT. Pode-se criticar as propostas do novo governo, pode-se duvidar que ele venha a ter sucesso, mas se não puder ajudar o Brasil, cumprindo as suas obrigações, pelo menos não atrapalhe. Seja como os bombeiros e considere o que disse Emmanuel: "É imperioso compreender que sem disciplina nos encargos que a vida lhe atribui e sem lealdade ante compromissos que assume, será sempre um obreiro de êxito improvável e de eficiência impossível".

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

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