No capítulo 9, João conta que Jesus curou um cego de nascença. Fez lama com a saliva, aplicou nos olhos do cego. "Vai, lava-te no tanque de Siloé". Ele foi e voltou vendo. Quem sabe é o que falta fazer no Brasil. Esfregar um pouco de lama tóxica no rosto de dirigentes incompetentes, para que se conscientizem dos crimes ambientais que estão cometendo, sob a desculpa de gerar riquezas e empregos para o país. Ainda estão sendo contabilizadas as vítimas do rompimento de uma represa de rejeitos de mineração da Vale, em Brumadinho.
Com dezenas de mortos e desaparecidos, já é considerado o maior acidente de trabalho da história do país. Em termos de desastre ambiental, perde para a Samarco, em Mariana, ocorrido há apenas três anos, tendo a mesma Vale como protagonista. Foram 600 quilômetros de devastações até o mar. De nada valeu a lição.
No Antigo Testamento, em suas visões Daniel, profeta maior, alerta o rei Nabucodonosor sobre "o ferro misturado à lama". "Isso significa que buscarão fazer alianças políticas, mas a mão decorrente dessas alianças e acordos não se formará, do mesmo modo que o ferro não consegue se misturar com o barro". A invocação vem a propósito, no momento em que a catástrofe atinge em cheio as promessas do ainda candidato Bolsonaro de flexibilizar a fiscalização ambiental, para melhorar a vida dos empresários. A intenção até que é louvável em si.
O objetivo seria o de depurar o ambiente de negócios no país, deteriorado, entre outras causas, pela espessa cultura burocrática do Estado brasileiro. Brumadinho e Mariana, agora, devem forçar o presidente a fazer uma reflexão. Mesmo que o atirem à cova dos leões. Bolsonaro foi pródigo em críticas à estrutura de fiscalização e punição por crimes ambientais, sem deixar de agredir organizações não governamentais que atuam no setor e recebem parte das penalizações.
Em uma de suas críticas, o ainda candidato prometeu tirar o Estado "do cangote de quem produz". Logo no primeiro turno, disse que acabaria com a "indústria de multas" lavradas por organismos de defesa do meio ambiente.
A tomar ao pé da letra o que afirmou o candidato, entramos num clima de "pode tudo", do "estamos protegidos pelo presidente". Cabe a Bolsonaro segurar a tigrada, considerados os limites ditados pelo bom senso.
"Flexibilizar não significa afrouxar" - refrescou o ministro da Segurança Institucional, Augusto Heleno. Brumadinho está aí, a confirmar que o aparato burocrático de preservação ambiental, pelo menos na mineração, é pouco ou nada eficaz. A solução não é eliminá-lo, mas reformá-lo.
As cenas exibidas pela TV, sobre o tsunami de lama destruindo tudo a sua frente, são perfeitas para o cinema catástrofe de Hollywood. Mais apavorante que Armageddon, para citar um clássico. A crítica brasileira lamenta não ter filme nacional que concorra ao Oscar, este ano.
Que sugira uma produção que conte O Inferno na Lama. Boa parte do filme já está feita, pelas imagens tomadas pelas câmeras de vigilância da própria Vale. Enredo apocalíptico, existe. Apelo melodramático é fácil: basta contar a história da mineirinha salva pelo galã, por um triz, ambos dentro daquela caminhonete que ziguezagueia sem encontrar uma rota de fuga.
Uma locomotiva é atirada, em direção ao casal, como se fosse um brinquedo lançado aos ares pela fúria do lamaçal. Seria o grande susto e clímax do espetáculo. Stanley Kubrick, o genial manipulador de sentimentos, contaria o heroísmo e desprendimento dos bombeiros "nadando" na lama em busca de sobreviventes.
Os heróis salvam também um cãozinho e uma vaca, pondo em risco a própria vida. A palavra mágica dos diretores de Hollywood é "ação". A cena mostra o povo exigindo providências das autoridades. A jovem engenheira especialista em barragens, havia alertado sobre um colapso iminente e a falta de dispositivos de alerta.
As câmeras abertas devem passar a ilusão ao espectador no cinema de que, para os poderosos, a vida humana não vale nada. A qualquer momento outra grande tragédia poderá se abater sobre os homens. Profetiza Isaias (10:6), o furor arremessado contra uma nação hipócrita. O destino dos que fazem a sua desgraça é serem "pisados aos pés, como a lama das ruas". Tom Jobim, colocou na letra de Águas de Março o drama dos lamaçais, o carro quebrando, e os deslizamentos, desde o seu sítio em Petrópolis. De nada adiantou. Continua morrendo gente nas áreas de risco.