Tribuna do Leitor

João Fernando

Jeferson Barbosa da Silva - Natal (RN)
| Tempo de leitura: 2 min

Com João Fernando tive longa e boa convivência. Mas o nó apertado que nos uniu é que é interessante. De repente, vimo-nos, juntos, sentados lado a lado, em algum voo noturno, agora esquecido.

Como estava, por aqueles dias, na iminência de vir a conhecer maravilhas extremamente complexas da Análise Espectral, a partir das aulas de Patan Deen Sing, no Instituto Astronômico e Geofísico, USP, achei propício, interessante, começar aquele papo, respondendo ao João Fernando: - Estou aprendendo, agora, a calcular a força da linha!

Com aquela sua característica pegada folgada, pediu-me mais detalhes.

A partir daí, durante toda aquela viagem, estive resumindo em breves comentários o conteúdo da palavra inicial. A Astrofísica é essencialmente dependente da informação trazida pelas imagens recolhidas de tudo o que faz essa imensidão lá de fora. Mas, ao contrário da Astronomia, onde prevalecem as imagens ópticas, para o astrofísico vale a imagem essencial emitida pela fonte, vinda e colhida na forma de ondas, que se distribuem numa espécie de mapa, o seu espectro. Com o tempo, há algumas maneiras aceitas como verdadeiras de se analisar a fotografia espectral de algum astro, ou fonte de radiação, fazendo comparações com padrões bem conhecidos, para assegurar, sob dada probabilidade, o que é que tem lá, o que foi que emitiu aquelas raias, quais são os elementos químicos cujos átomos irradiaram.

Enquanto ia explanando, o amigo na poltrona ao lado interrompia pontualmente, perguntando, como estivesse a participar com algo mais do que se inteirar do assunto.

Para a maioria das fontes que desenvolvem processos radiativos no Universo são bastante complexos os espectros recolhidos pelos aparatos experimentais, no chão ou lá em cima, de modo que somente se o pesquisador aprender e realizar o processo de calcular cada sinal grafado no seu espectro, conseguirá ler e poder revelar o que é que ali se oculta. Trata-se de uma sequência de contas complicadas amparadas na Mecânica Quântica.

Já no fim da viagem, nos anunciados preparativos para o pouso da aeronave, disse-me João Fernando: - Acabei de desenhar, na minha cabeça, um pacote de programas de computador para essas rotinas de cálculo que você falou.

À época, o cálculo, as contas, como dizíamos, eram feitas à mão, com a ajuda de computador.

Hoje, a força de cada linha espectral pode ser calculada com rotinas computacionais, como aquela, talvez, que o amigo desenhou na cabeça, enquanto conversávamos.

Agora, ele era brincalhão, um gozador, abusava da ironia sobre tudo...

Só que o João Fernando que conheci era, sim, uma mente brilhante...

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