| Nacho Doce/Reuters |
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| Um milhão de pessoas participou do bloco "Acadêmicos do Baixa Augusta" na prévia da semana passada, no Anhangabaú |
São Paulo - Sentados na porta do antigo Cine Rex, no cruzamento das ruas Rui Barbosa e Conselheiro Carrão, os amigos Armando Puglisi, Walter Taverna, Tinin, Capuno e Carabina, decidiram montar um bloco carnavalesco. Era 17 de fevereiro de 1947 quando as fantasias improvisadas dos foliões, feitas com retalhos e roupas velhas, batizaram o bloco que nascia ali, o Esfarrapado. Sem instrumentos, saíram batendo latas, frigideiras, penicos.
O Esfarrapado é o mais antigo bloco da cidade e substituiu as latas pela bateria da Vai-Vai, passando dos não mais que 500 foliões em sua primeira saída a 80 mil pessoas na última segunda-feira de Carnaval, em 2018.
Esse boom de público que atualmente opta por pular o Carnaval em São Paulo pareceria uma utopia aos foliões de poucos anos atrás.
"Em 2005, não tinha nada aberto. As padarias e os bares fechavam. Não tinha preocupação do poder público, não tinha restrição de horário aos blocos e alguns voltavam de madrugada.
Estranhavam quando falei que comecei a ficar em São Paulo", disse Pedro Gonçalves Janequine, um dos criadores do Bloco Bastardo, para quem o constante aumento de grupos nas ruas também diluiu o público de alguns blocos e consolidou uma participação cativa -entre eles o próprio Bastardo, que teve 8.000 pessoas em seus primeiros desfiles, em 2014, e cerca de 10 mil em seus quatro cortejos de 2018.
O aumento do público está atrelado ao surgimento de novos blocos de rua que irão desfilar na cidade. São 137 a mais na agenda oficial do evento em comparação com 2018 (há ainda os grupos que optaram por não se cadastrar, mas que mesmo assim somarão nas ruas).
Esse crescimento integra um processo que é visível há pelo menos cinco anos, quando a Prefeitura de São Paulo publicou pela primeira vez um decreto sobre o Carnaval de rua e passou a realizar o cadastro de blocos.
DIVERSIDADE
Entre os 570 grupos de rua na agenda da prefeitura há diversidade de formatos e estrutura -dos que contam com trio elétrico aos que saem com a banda misturada ao público.
Os repertórios também são múltiplos -vão desde as clássicas marchinhas, ou blocos que fazem homenagem a um único músico, até os que entoam música pop e funks atuais.
Para Rodrigo Guima, um dos fundadores do Tarado Ni Você (que homenageia Caetano Veloso), a diversidade também está no público.
"A grande diferença é que aqui a gente é uma selva de pedra cinza. Nós não temos o pôr do sol lindo com mar, como o Farol da Barra, de Salvador, como o Rio de Janeiro, mas a gente tem as pessoas, que se transformam na fauna e na flora da cidade".
ORGANIZAÇÃO
A intensificação da procura pelo Carnaval paulista foi um estopim para que muitos blocos se profissionalizassem. Em 2014, o Casa Comigo se estruturou como empresa e atualmente conta com uma equipe de 20 pessoas que trabalham o ano inteiro e 300 que reforçam o grupo na época do Carnaval.
Além disso, os blocos também abrem espaço para a formação de músicos, promovendo oficinas durante o ano, como as de sopro da Charanga do França e as de percussão do Ilú Obá De Min.
Para a maioria dos blocos, que não conta com patrocínio, é um desafio custear a estrutura e a organização da saída no Carnaval, levando em conta aluguel de carros de som, banheiro químico, interdição da CET e ensaios durante o ano todo.
Botando o bloco na rua
*** 2009 - Empresários e moradores do centro fundam o Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, que chegou a reunir cerca de 1 milhão de pessoas no centro de São Paulo em 2018 e o mesmo tanto na semana passada. Apresentações no pré e no pós-carnaval são em maior número na cidade do que durante o Carnaval, dando à luz grupos como a Espetacular Charanga do França
*** 2014 - Nasce o Ritaleena com a proposta de fazer um rockarnaval em homenagem à Rita Lee; estimaram que a primeira saída teria 200 pessoas, apareceram 5 mil
*** 2016 - 355 blocos se inscrevem pela Prefeitura, mas 306 desfilam. Cerca de 1 milhão de foliões ocupam as ruas durante o Carnaval
*** 2017 - Cerca de 2,5 milhões de pessoas participam dos 391 blocos paulistanos
*** 2018 - Blocos e público voltam a crescer: são 433 acompanhados de 3 milhões de foliões
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