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É mais embaixo

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Engraçado, o buraco é sempre mais embaixo. Fico encabulado, por que não seria mais em cima? Quando bobagem desse tipo me atazana, arrumo logo uma desculpa pra não perder tempo com isso. Nossa pressa costumeira é assim, quer logo descartar o que incomoda. Por isso, sem pensar, arrumamos logo um tapa-buraco. Desses que só duram até a próxima chuva. Essa pressa, sabidamente inimiga da perfeição, faz com que "empurremos com a barriga o problema" ou "façamos o malfeito nas coxas". Depois, nova chuva, tá lá o buraco de novo. É a prova inconteste de que ele era realmente mais embaixo?.

Começo esta crônica de forma leve porque vou falar de algo muito triste e que muito nos machucou: o massacre dos jovens e funcionários de uma escola em Suzano, aliás, fato, costumeiro na terra do Trump. A fala leve quer ser, inutilmente, pomada para ferida tão aberta, quanto profunda.

Mal a tragédia aconteceu, já começaram a pipocar explicações tapa-buraco. Uma delas, armar a população. "Estivessem os professores e serventes devidamente armados, a tragédia poderia ser evitada", disse o senador Major Olímpio (PSL). Um giz na mão e a pistola na outra, eis a imagem do professor sugerido. Notícias de alunos armados em sala de aula já não são novidade. Professores, alunos e serventes armados... Que potencial explosivo, não? Com todo respeito, senador, estou achando que o buraco é mais embaixo. Penso caber ao professor ensinar; ao poder público, cuidar da segurança, cada qual no seu galho, não é isso?

A questão do controle de armas é, sem dúvida, crucial, precisamos discuti-lo ampla e democraticamente. Mas não apenas para evitar chacinas escolares. E sim porque mais armas em circulação podem significar mais homicídios pelas ruas, mais feminicídios domésticos, acidentes caseiros, e mortes por motivos banais, sobretudo os decorrentes da paixão pelo futebol ou pela política nos botecos da vida. O presidente Bolsonaro agradece (e nós também) que o insano Adélio Bispo de Oliveira não portasse, naquele momento, uma pistola, apenas uma faca. É preciso também atentar para o fato de que mentes doentias têm demonstrado não mais precisarem de fuzis, metralhadoras, pistolas para concretizar seus intentos. Bastam-lhes automóveis e caminhões para matar pessoas indefesas nas calçadas e nas praças. Lembremo-nos do caminhão assassino que matou e feriu dezenas de pessoas em Nice, na França. Também da van que atropelou pedestres na London Bridge.

O nosso simpático vice- presidente, General Hamilton Mourão foi logo culpando os videogames violentos, que estariam perturbando a cabeça da meninada. Não é o que indicam estudos e pesquisas, que não veem relação de causalidade necessária entre os jogos e a brutalidade. O buraco continua mais embaixo. Hélio Schwartsman, colunista da Folha de S. Paulo, trouxe outra pimenta para esse caldeirão de difícil tempero. O jornalista sugeriu política pública de prevenção de suicídios. Luminosamente, disse: "Os dois perpetradores, afinal, entraram nesse delírio dispostos a morrer. E tentaram transformar seu gesto de desespero num evento espetacular, que, pelo morticínio, buscaria imprimir significado a um grande vazio existencial".

Perfeito esse "vazio existencial" que marca o nosso tempo. Triste constatar que dois jovens tenham tão cedo perdido o encanto pela vida. Queriam morrer, mas, por ódio e vingança, queriam matar também. Fica difícil, hoje, dar uma expectativa mais animadora de vida às novas gerações, quando copiamos o modelo "american way of life" que perversamente tanto valoriza os vencedores (winners) e, em igual medida, despreza os perdedores (losers). Derrotados por esse modelo embasado na posse material e consumista, que tem produzido mentes doentias, os jovens resolveram transformar o desespero em um momento "espetacular" de vingança que lhes garantisse, ao menos, alguns dias de fama midiática.

Necessário é parar de reproduzir tão desumano modelo. Família, escola, religiosos, mídia, todos nós, enfim, temos o compromisso de disseminar valores e comportamento de cooperação e de menos competição para que um paradigma de solidariedade possa, enfim, existir. Como sugere Schwartzman, precisamos mudar a bússola, para que não se busque "pelo morticínio imprimir um significado a um grande vazio existencial".

Nenhuma pretensão de dizer coisas definitivas, sei quanto pequena é a minha pá e quanto é fundo o buraco. Esforço-me, contudo, para cavar um pouco mais. Certo de que o buraco é sempre mais embaixo.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais - curso_romag@uol.com.br

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