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A travessia continua

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 1 min

Fica particularmente revoltante se deparar com partidas dramáticas na cidade da gente, no dia a dia comum. Até comentei durante a semana: de vez em quando surge a notícia de que alguém se foi na travessia do deserto ou escalando uma incrível montanha, o que não diminui a tristeza pela tragédia, mas parece mais admissível do que perder a vida numa rua conhecida, de uma noite que era para ser normal. Na cidade da gente.

Quantas vezes mãe e filha, mortas no temporal do fim da noite de quarta-feira, já não haviam passado pela avenida Daniel Pacífico? Eu mesmo, quando morava na Vila Souto e trabalhava na então TV Modelo, fazia aquele caminho rumo à Bela Vista com frequência.

Eis que, no trajeto bem conhecido, em momento de transbordamento, o pior se impõe, prepotente, durante noite que deveria ser calma. E o que era só rotina de idas e vindas vira absurda interrupção. Não numa aventura nas cordilheiras, na exploração de caverna distante, na insegurança de um continente de gelo. Foi aqui mesmo. Na cidade da gente.

No poema "Canção do dia de sempre", Mário Quintana escreve: "Nunca dês um nome a um rio / Sempre é outro rio a passar / Nada jamais continua / Tudo vai recomeçar!". Parecem versos de contradição, mas devem ser sobre a vida (contraditória que é): perdida e continuada.

No fim das contas, somos sobreviventes nesse cotidiano estranho. E o mesmo dia de adeus também é de recomeço, ainda que difícil.

Que a luz da continuidade seja um farol intenso para os impactados. O córrego virou mar revolto, mas a travessia sempre pode ser concluída na fé da família que fica. Na existência que não se intimida e segue seu curso além dos temporais.

O autor é editor executivo do JC.

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