Regional

Música como busca da cidadania

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 12 min

Igor Medeiros/Divulgação
Grupo de canto coral do Projeto Guri na inauguração da Casa da Juventude, em Botucatu

Conhecido como projeto de iniciação musical, o Projeto Guri passou a ser lembrado da sua importância quando se cogitou cortar recursos em alguns polos há poucas semanas e logo rechaçado pelo Governo do Estado. O programa está presente em 279 municípios dos 645 e atuante na região de Bauru com 14 polos mantidos pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo em convênio com os municípios.

O Guri oferece, nos períodos de contraturno escolar, cursos de iniciação musical, luteria, canto coral, tecnologia em música, instrumentos de cordas dedilhadas, contas friccionadas, sopros, teclados e percussão, a criança e adolescentes entre 6 e 18 anos.

Os coordenadores do projeto consultados pelo JC são unânimes em dizer que o programa é muito mais do que curso de iniciação musical e atua como aliado para tirar jovens da rua e oferece atividade educativa.

Nas cidades que são executados o Guri consegue atrair um contingente de estudantes de baixa renda que jamais teria a oportunidade de estudar música, além da possibilidades dos professores passarem noções de cidadania. Também possibilita revelar novos talentos para a música.

As cidades atendidas são Barra Bonita, Bauru, Bariri, Botucatu, Dois Córregos, Ibitinga, Lençóis Paulista, Jaú, Lins, Mineiros do Tietê, Pederneiras, Piratininga, São Manuel e Sabino.

No Polo de Lençóis Paulista, por exemplo, um ex-aluno se interessou em seguir carreira na música, virou professor e, atualmente, é intercambista. Ele esteve na Noruega por 18 dias e, nesta semana, em Maputo, em Moçambique, na África. 

Lucas  D' Alessandro Ribeiro entrou no Guri em 2011 para aprender a tocar violoncelo. "O Projeto Guri é muito além do que ensino musical, porque acaba trabalhando outros aspectos na sala de aula. A gente trabalha as questões sociais, lá são atendidas crianças em situação de vulnerabilidade social que muitas vezes passam por situações complicadas. O trabalho é feito de forma lúdica para que elas superem os problemas, o programa tem apoio de psicólogo e o educador vai às escolas acompanhar como os alunos estão desempenhando. O Guri além de ensinar a tocar instrumento, também vai formado o aluno como pessoa", contou em entrevista por WhatApps da capital de Moçambique.

Jaú também tem um polo ativo que atende 330 alunos. O programa foi implantado naquele município em março de 2002. A secretária de Cultura e Turismo, Carolina Panini, cita que realmente o Guri não trabalha só a questão musical, mas outras questões sociais e se trata de projeto inclusivo. "Possibilita o ensino de música para quem não tem condições de pagar uma aula", relata.

No município, Tábata Gilioti conta que literalmente vive de música. Ela aprendeu a tocar violino e diz que se apaixonou pelo instrumento. "Comecei com 12 anos e, aos 13 fui estudar no Conservatório de Tatuí, mas continuei no Projeto Guri paralelamente. A música transformou a minha vida!", relata. 

Projeto visa também a cidadania

Álbum pessoal/Divulgação
Lucas Ribeiro fazendo um instrumento musical

Divulgação
Polo de Pederneiras atende 155 alunos com cursos de violão, percussão e iniciação musical

As aulas são para iniciação musical para crianças e adolescentes na Casa da Cultura

Em Lençóis Paulista, o Projeto Guri tem um grupo de 200 alunos que frequenta as aulas regularmente. No município tem uma importância vital o programa de iniciação musical por servir para conseguir novos talentos para a Banda Sinfônica Jovem ou à Orquestra Municipal a longo prazo. A intenção do programa não é para que todos sigam a carreira musical, mas as orquestras servem como incentivo para quem acaba descobrindo que tem talento na área. 

O Guri segue as diretrizes do modelo criado, desenvolvido pelo educador inglês Keith Swanwick, um dos principais nomes do ensino musical da atualidade, conforme informações do site da Secretaria de Estado da Cultura.

O programa educacional é estruturado para promover o envolvimento do aluno com a música, que são: composição, improvisação ou arranjo; performance (instrumental ou vocal) e apreciação (formação de ouvinte mais ativo).

De acordo com o projeto, as atividades englobam o domínio de habilidades técnicas, da linguagem escrita musical e o desenvolvimento da percepção e expressão dos alunos.

O secretário de Cultura de Lençóis Paulista, Marcelo Maganha, conhece muito a área que atua. Ele é maestro da orquestra. Por isso quando assumiu o cargo o Guri passou a ter mais atenção. Quando foi instalado em gestão anterior funcionava em um bairro afastado do Centro. "Não havia muita atenção para o projeto e fiquei assustado com a infraestrutura. Eu trouxe o Guri para a Secretaria de Cultura na área central. Consegui fortalecer o projeto e tem sido referência na região. Utilizamos as salas de ensaio da orquestra municipal. No corte de repasses de verba que o governo chegou a anunciar do Projeto Guri, Lençóis não estava na lista", relembra Maganha ao destacar a importância do projeto como é conhecido regionalmente e no Estado. 

O município já venceu um concurso de composição que é realizado dentro do próprio Guri concorrendo com os demais polos do Estado. As aulas são terças e quintas-feiras e vai de canto coral, ensino de violino, instrumentos de cordas e percussão.

Maganha cita que alunos que frequentaram o projeto são profissionais na Orquestra Municipal. "Houve sim uma elevação musical e profissional no contexto e conseguimos reaproveitar esses alunos que participam da orquestra, até alguns estagiários", explica.

Pederneiras atende crianças especiais

O programa depende muito de convênio com as prefeituras. O Guri é mantido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo numa gestão compartilhada, administrada pela ONG Amigos do Guri. Na cidade de Pederneiras atende até crianças especiais.

A coordenadora Bruna Lourenção está no projeto desde janeiro no polo que atende 155 alunos. As atividades são no antigo Tiro de Guerra com participação de três professores, oferecendo cursos de percussão e bateria, violão, canto coral e iniciação musical. Tem muita procura e há até lista de espera para o segundo semestre.

No polo também são realizadas atividades sócio educativas e palestras sobre autismo, racismo e igualdade de gênero. "É uma atividade diferente porque sai um pouco da escola e entra muito a criatividade ao desenvolver outras aptidões nas crianças", cita.

Atualmente atende a quatro crianças especiais que participam de aulas de bateria, percussão, canto coral e iniciação musical.

Educador faz intercâmbio na Noruega e Moçambique

O educador Lucas D' Alessandro Ribeiro é um exemplo de aluno que começou a aprender música no Projeto Guri de Lençóis Paulista e depois virou educador na área do próprio programa. Há poucas semanas esteve na Noruega por 18 dias e no momento está em Maputo, na capital do Moçambique, na África. Ele foi uma das seis pessoas escolhidas para intercâmbio internacional do Projeto Guri por uma entidade internacional.

Lucas conheceu o Guri numa divulgação feita em sua escola em março de 2011, quando foi aprender violoncelo. "Não conhecia esse instrumento. O projeto é que me propôs a aprender a tocar", recorda numa conversa de áudio via WhatsApp. O músico está na capital de Moçambique, participando de intercâmbio. "É uma experiência maravilhosa, porque tenho aprendido muito musicalmente e pessoalmente. Além de aprender outro idioma, também estou aprendendo outros estilos musicais e confecção de instrumentos. Essa oportunidade de viajar e conhecer outras culturas consegui por intermédio do Projeto Guri", cita. 

O músico de Lençóis enviou uma foto de uma mbira, instrumento que pertence ao povo shona (comunidade da família etnolinguística Bantu, de grande parte da África subsaariana). Conhecido como lamelofones são populares por toda África, e, variam em número de teclas, disposição das notas, e possuem (ou não) até um ressonador.

Para o educador, o Guri vai além de um projeto de iniciação musical como é conhecido. "A gente acaba trabalhando outros temas na sala e aula, como aspectos sociais. O objetivo é atender a crianças com algumas vulnerabilidades social e elas passam por algumas negligência dentro da família e vivem situação complicada. Então trabalhamos de forma lúdica e não pesada de como superar tudo isso, há atendimento de psicólogo e vamos às escolas para saber como os alunos estão indo. Vejo que o Projeto Guri além de ensinar a tocar instrumento, também vai formando como pessoa. A vida não é só aquilo em que está imerso na realidade, complicada e instável", explica.

Música como aliada da educação

Prefeitura de Botucatu
As aulas do Projeto Guri de Botucatu são realizadas na Casa da Juventude, próximo à estação

Divulgação
Tábata Giglioli durante apresentação no Beatles Festival realizado recentemente em Jaú

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A secretária municipal de Cultura e Turismo de Jaú, Carolina Panini, comenta que Projeto Guri é de extrema relevância para a cidade, justamente porque trabalha não só a questão musical, mas também outras questões sociais. 

Para ela, é um projeto inclusivo por ter o foco na questão sócio-econômica, possibilita o estudo de música para quem não tem condições de pagar uma escola de música. "Isso é muito importante porque também tem preocupação pela formação humana desde a disciplina, trabalho em grupo e as referências musicais que acabam mudando as pessoas a não ficarem reféns daquilo que é proposto para elas ouvirem. O programa educacional proporciona outras formações culturais o que é importante na formação dessas crianças", explica a secretária.

Diante disso, ela diz que o Projeto Guri precisa ser mais estimulado nos bairros para trazer mais alunos para o programa. No momento atende 330 crianças e adolescentes, mas o polo tem 400 vagas.

Ela relata que alguns instrumentos têm apelo maior e maior procura pelas vagas, como violão, bateria e teclado, considerados de demanda maior, no entanto outros instrumentos são mais difícil conseguir fechar turma completa como é o caso de contrabaixo acústico e violoncelo.

"A gente sempre está tentando envolver o Projeto Guri em nossas atividades cultuais do município, justamente para que peguem gosto para se apresentem para o público. A nossa ideia é justamente que se consiga formar músico a longo prazo. Então isso tem papel fundamental na formação da cidade mesmo. Eu acredito que o Projeto Guri tem essa função de transformar aquelas pessoas que podem fazer parte", cita. 

"ARTE É TUDO"

Um exemplo de aluna que frequentou o Projeto Guri e prosseguiu na área, vivendo de música é o caso de Tábata Giglioli. "Comecei aos 12 anos de idade e aos 13 fui estudar no Conservatório de Tatuí, mas continuei no Guri paralelamente", conta a violonista, que "literalmente vive da atividade" lecionando e tocando em casamentos e eventos.

Ela relata que o Guri deu uma base e noção do universo musical, sendo um ponto de partida para ingresso na área musical. Na sua família, o bisavô tocava violino, mas ela não chegou a conhecê-lo. "Meu primeiro contato com o instrumento foi no Projeto Guri. Foi ali que me apaixonei pelo violino. A arte é tudo na minha vida!", finaliza.

Aprender música na escola estimula o aprendizado

O movimento para tornar obrigatório o ensino da música é permanente, mas parece que é mais forte no meio musical. Entre profissionais da educação talvez exista alguma resistência porque uma disciplina a mais significa que outra vai deixar de ser dada, e aí já viu... Muitos Estados possuem lei aprovada tornando obrigatório o ensino da música, mas é muito difícil colocar em prática, pela falta de profissionais. Para dar aula o sistema exige curso de graduação e nem sempre os músicos possuem ou se interessam em fazer, já que o salário é muito baixo. Então, mesmo que exista a legislação, não temos profissionais com habilitação.

O ensino da música deixou de ser obrigatório na década de 70, durante a ditadura. A disciplina foi substituída por educação artística, uma coisa que nunca deu muito certo, porque exige um professor com muitas habilidades. Na prática, costumam dar aula de desenho.

Hoje não é obrigatório, mas algumas escolas oferecem educação musical sob a forma de projetos, em horários alternativos. Não é considerada uma disciplina importante. Fazem lá uma fanfarra para tocar no 7 de setembro e só. O cenário é muito diferente em outros países, onde o ensino é obrigatório e as crianças aprendem a tocar um instrumento na escola, formando grupos e orquestras.

Aprender música por volta dos 7 anos é um estímulo cognitivo que abre inúmeras possibilidades de percepção, de incentivo à memória, socialização e agilidade na leitura. Em Ourinhos, temos a Escola Municipal de Música, é um curso livre, não está ligado à educação.

Com a desvalorização da cultura que estamos vivendo no atual governo, o ensino de música tem sido cada vez menos cogitado. Neusa Fleury Moraes é ex-secretária de Cultura de Ourinhos e professora.

Botucatu oferece incentivo para iniciantes integrarem Orquestra Jovem Municipal

O programa educacional estadual do Guri em convênio com o município de Botucatu é importante na cidade, porque ajuda a descobrir novos talentos para a Orquestra Jovem e, a longo prazo, os músicos que se aperfeiçoam podem participar até da Orquestra Sinfônica.

Nem todos os alunos que passam pelo Guri seguem carreira na música afinal é apenas iniciação musical, mas pequeno contingente acaba seguindo carreira após os 18 anos e é inevitável continuar os estudos em um conservatório musical até integra a Orquestra Sinfônica da cidade.

A secretária de Cultura de Botucatu, Cristina Cury Ramos, conta que desde 2010 o projeto está em Botucatu atendendo 270 alunos. Antes de ocupar o cargo de confiança na pasta, Cristina diz que já conhecia as atividades do projeto e ia às apresentações dos jovens. Logo quando assumiu a Secretaria, ela relata que fez questão de se apresentar e conhecer todos os grupos. "Esse projeto faz realmente a diferença, porque no ano passado efetivamos a criação de uma Orquestra Jovem. O Guri ajuda muito nos primeiros contatos de crianças e adolescentes na iniciação musical e a Orquestra é um processo de seleção, mas vários acabam integrando a corporação. A ideia é que o aluno participe da Orquestra Jovem um dia e até a Sinfônica", relata.

No dia 18 de agosto deste ano, a Orquestra Sinfônica vai se apresentar em um concerto na Sala São Paulo, na capital. "Esse era um sonho da cidade, já estamos se mobilizando para levar os jovens da Orquestra Jovem, do Projeto Guri e de outro programa de musicalização para incentivá-los a assistir à apresentação. Isso amplia os horizontes desses jovens", relata. As aulas do Guri são realizadas na Casa da Juventude, localizada no prédio da estação ferroviária que foi restaurada.

 

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