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Nova democracia

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Na semana passada, escrevi neste espaço sobre a época do impeachment do Collor e sobre a perda de referências ideológicas na política. Uma semana antes, abordei a Grécia: "(...) Coloca-se o povo sob uma "ameaça terrível", para que ele vote por medo e não por convicção. Na Grécia, espalham que se a extrema esquerda ganhar novamente, o novo governo vai se rebelar contra o FMI e a União Europeia e as consequência serão trágicas." Foi esse discurso que venceu as últimas eleições gregas do dia 17. É inconcebível que o cidadão grego queira mais arrocho salarial, mais desemprego e menos benefícios sociais. Votaram por medo de uma desgraça maior ainda. Lembro que quando o Lula estava para vencer o Collor, em 1989, havia um boato sobre a divisão das casas dos ricos entre os pobres, caso ele vencesse mesmo. A campanha do Collor foi vitoriosa usando tática semelhante à do mercado financeiro e seus representantes na Grécia. A BBC de Londres fez até um documentário, "Muito além do Cidadão Kane" (imperdível), sobre como uma grande emissora de televisão conduziu tudo. Tudo para que o Lula não ganhasse.

Naquela época, o Lula ainda era um idealista. Era barbudo, cabelos desalinhados, vestia uns ternos jambrados, mas era um político do povo, saído do povo, que representava o povão mesmo. Hoje ele faz política de massas. Parece ser a mesma coisa, mas não é. Lula ainda representa o povo, mas o ambiente do poder fez com que ele respondesse a um intrincado mecanismo de hierarquias de grupos políticos e econômicos, cujo espelho é o mensalão. Ou melhor, o espelho é o modo como as mais importantes figuras nacionais do PT se comportaram diante do escândalo. Voltando aos gregos, a Nova Democracia venceu. É o nome do partido de centro que ganhou as eleições na base da ameaça ao povo e vai governar em coalizão com, vejam só, um partido socialista moderado. Percebam que os nomes dos partidos não falam mais nada sobre eles. O que há de democrático em aceitar o jogo da União Europeia e do FMI, contra os interesses do próprio povo, que não pára de protestar contra isso? Qual socialista de verdade, mesmo que moderado, aceitaria integrar tal governo? Não há moderação que justifique isso.

Até a queda do muro de Berlim, ainda havia opções políticas claras, pois as ideologias ainda não tinham sido filtradas totalmente pelos interesses dos líderes dos partidos e pela ação dos meios de comunicação de massa. Hoje as siglas se perderam na cabeça do povo, o que acaba dando vazão a discursos radicais, como o do partido neonazista grego, que elegeu vários deputados na eleição anterior. Parte do povo votou neles porque ali, pelo menos, havia uma ideologia e um compromisso claros. Na hora do drama, até o nazismo é colocado em pauta.

Em São Paulo, Luíza Erundina desistiu de concorrer à vice prefeitura porque o PT fez uma aliança com o Maluf. Erundina é do tempo em que PT e Maluf eram opostos por natureza e por ideologia. Ela justificou a desistência dizendo: "-O PT deveria saber que eu e o Maluf sempre fomos água e óleo." Ou seja, ela disse que não se une a Maluf para coisa alguma. E completou: "-Lula vai se arrepender desse apoio do Maluf, eu tenho certeza." A profecia já se realizou. A charge de sexta-feira do Jornal da Cidade era o Lula falando com a Dilma, todo queimado. As coalizões entre siglas partidárias desgastadas acabam servindo para deturpar a cabeça do eleitor - para que ele não saiba a diferença entre esquerda e direita, para que ele desista de tentar entender a política, para que ele não possa optar conscientemente. Uma vez eu entrevistei um Deputado Federal do PPS, o Partido Popular Socialista, e perguntei se ele era a favor da estatização dos meios de produção. "-Afinal, o senhor pertence a um partido popular e socialista", emendei na pergunta. Ele me respondeu o seguinte: "-Eu sou socialista, mas nunca defendi esse socialismo radical, científico, marxista." Ele é socialista, a nova democracia venceu na Grécia... e nada muda.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião

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