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Mais de 50 mil km 'de bagagem'

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

Ele tem 48 anos e ela 20. Juntos, já percorreram mais de 50 mil quilômetros, passando por 20 países, nos últimos dois anos. Essa é a história do arquiteto e artista plástico João Carlos da Silva Gonçalves e sua bicicleta, que conhecem as costas brasileiras, a vegetação amazônica, salinas, trilhas e montanhas da América do Sul até as paisagens do México, deixando os rastros das pedaladas por aí, inclusive por Bauru, onde considera ter um "QG".

Antes de todo esse percurso, João vivia em São José dos Campos, onde nasceu. Foi de lá que, em 6 de outubro de 2017, saiu rumo a Amazônia, levando apenas sua bike e quatro mochilas, que pesam cerca de 50 kg. "Aluguei minha casa para uma pessoa e larguei tudo para trás. Aprendi que a gente é muito feliz com pouco e que não é necessário ter apego às coisas. O que eu faço é uma busca de mim mesmo e, nisso, estive em 20 países. Percorri mais de 50 mil quilômetros e conheci muita gente. Guardo tudo anotado em um 'diário de bordo' que, um dia, pretendo publicar", declara. 

O valor do aluguel foi e é o que financia as cinco expedições do projeto pessoal de João, que ganhou nome de Harpia. "Primeiro, eu sai para ir até a Amazônia, mas quando cheguei em Belo Horizonte, percebi o nível de dificuldade e acabei voltando para minha cidade. Depois, em uma segunda saída, programei tudo melhor e cheguei a Manaus", relembra.

Aos poucos, João foi se entregando às estradas e às trilhas e tomou coragem para sair do País. "Vi que era possível fazer longos deslocamentos e resolvi fazer o Sul, na terceira expedição. Entrei pelo Chuí e fiz Mar del Plata até Colônia do Sacramento. Lá, ganhei uma carona até Buenos Aires e atravessei a cidade de veleiro. Depois, saí sentido Norte da Argentina. Voltei pedalando até Guarapuava. Quando vai chegando mais perto de casa, eu busco algum ônibus ou avião, devido à insegurança nas grandes cidades", comenta. "Além disso, em algumas cidades, como Bauru, Foz do Iguaçu, Manaus tenho 'QGs' em casas de amigos, onde posso me hospedar por um tempo", completa.

RISCOS

João comenta que os lugares onde as pessoas mais o alertavam sobre os riscos para a segurança, foram, na verdade, os que se sentiu mais seguro. "Eu passei por locais, realmente, muito perigosos. Na Nicarágua, em guerra civil, cortei o País com bastante medo e o mais rápido possível", diz.

Mas o que mais lhe marcou foi sua viagem com destino ao México, seu principal objetivo de viagem desde o início. "Saí em uma primeira tentativa de ir até lá, mas parei no Peru. Tive de voltar, pois meu inquilino resolveu deixar o imóvel. Depois, tentei de novo e cheguei. Estava programado para eu ir ao Golfo da Califórnia, ao Norte, mas quando estava na transição do Sul para México Central, aconteceu um acidente em que dois amigos ciclistas estavam em San Cristóbal de las Casas. Sofreram um ataque. Foi constatado que tiraram os órgãos deles, os decapitaram e cortaram seus membros. Eu fiquei muito abalado emocionalmente, tive de pedir escolta para fazer a volta e desisti de subir. Voltei por caminhos que ainda não conhecia e pensei muito sobre essa perda", diz.

 

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