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| Ana Claudia Bortolozzi Maia faz dinâmicas sobre o tema |
Apesar de desejarem alterar padrões de comportamento, muitos homens podem não conseguir fazer esta mudança sozinhos. É por isso que já começam a surgir no País diversas iniciativas para estimulá-los a abandonar o machismo, como é o caso do minicurso "Entendendo as masculinidades", ministrado no Rio de Janeiro.
Em Bauru, instituições de ensino, como a Unesp, também oferecem atividades gratuitas voltadas ao desenvolvimento humano de estudantes de escolas públicas e jovens atendidos por ONGs. Uma delas é liderada pela professora Ana Claudia Bortolozzi Maia, do Departamento de Psicologia na Faculdade de Ciências da universidade.
"Trabalhamos com crianças e adolescentes. E, principalmente entre os jovens, aspectos da masculinidade tóxica aparecem muito frequentemente. É um padrão que eles têm de engolir para corresponder às expectativas sociais e que, muitas vezes, eles não suportam", pontua.
Ana Claudia chegou a esta conclusão durante as dinâmicas realizadas com os alunos. Em uma delas, ela entrega máscaras para os jovens, em sua maioria estudantes de aproximadamente 13 anos de idade. De um lado da máscara, eles devem escrever como acreditam que as pessoas os enxergam e, de outro, como, de fato, se sentem e não demonstram.
"No primeiro caso, aparecem expressões como 'durão', 'bravo', 'pegador''. Depois, quando eles viram a máscara, aparecem ''medo', 'fraqueza', 'vontade de chorar''. Eles ficam muito sensibilizados, porque estas atividades ocorrem em grupos e eles percebem que os demais compartilham as mesmas aflições", pondera.
Estimulados a desempenhar esta masculinidade associada à agressividade e a reprimir manifestações de fraqueza, não surpreende que os homens estejam entre os que mais cometem suicídio - a média estimada é de sete homens a cada dez registros - e os que mais morrem em razão da violência urbana. Também são a maioria da população carcerária e os que menos aderem à rotina de saúde preventiva.
INSEGURANÇA
São, ainda, as vítimas mais frequentes - e graves - de homofobia. "Se ele não desempenhar o papel do homem másculo, começam a pairar dúvidas sobre sua orientação sexual, por mais que ele seja heterossexual. Então, este jovem acaba incorporando esta masculinidade tóxica, que traz muita insegurança emocional para ele e para as pessoas com quem ele se relaciona", acrescenta.
Para a professora, que é especialista em sexualidade humana, o caminho para transformar mentalidades e comportamentos nocivos "é a educação desde a infância". Com o objetivo de desconstruir a educação que privilegia a performance dos tradicionais papeis de gênero, atividades vêm sendo desenvolvidas pela Unesp até mesmo com professores que lidam diretamente com crianças em creches.
"O objetivo é trabalhar a autonomia destas crianças, para que elas tenham liberdade para expressar aquilo que sentem. Mas também investimos nos adolescentes. Quando eles se expõem, conversam e começam a entender um pouco sobre empatia, passam a respeitar mais o outro. Mesmo que a família tenha um ambiente tóxico, que o pai seja violento com a mãe, fazemos com que eles reflitam sobre a possibilidade de não reproduzir o mesmo modelo em suas histórias de vida", completa.
'Quero uma formação diferente para o meu filho''
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| Cezar Bender: até quem não joga futebol sofre pressão |
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| Mário Maldonado: geração de seu filho Erick deve ser diversa |
Mesmo tendo nascido em um ambiente familiar amoroso, o servidor público Mário Maldonado, 35 anos, cresceu diante da preocupação permanente do seu pai com a possibilidade de o filho ser homossexual. Hoje casado e pai de Erick, de quase 2 anos de idade, ele tem se esforçado para oferecer um modelo de educação diferente para o pequeno, livre de preconceitos.
"Eu cresci entendendo, por exemplo, que não podia usar rosa ou brincar com boneca. Fui ensinado a me comportar dentro de um padrão masculino e, quando adulto, isso foi uma barreira a ser superada. Felizmente, meu filho veio já dentro de uma geração que está sendo criada um pouco diferente", pondera.
Mário conta que vivenciou, durante a juventude, experiências de masculinidade tóxica comuns à maioria dos homens, como beijar mulheres na balada sob pressão dos amigos. "É uma época em que a gente tem de se afirmar como homem quase o tempo todo. Em uma discussão, você é instigado a ''resolver logo' o problema, usando violência. Senão, é chamado de viadinho. E eu sempre tive mais vontade de correr do que de brigar", revela.
O professor Cezar Bender, 38 anos, guarda em sua trajetória histórias bastante semelhantes. "Em todo grupo de moleques, sempre rola aquela competição para ver quem 'pega' mais mulheres. Quem não pega ninguém fica rotulado. Em final de balada, conseguir beijar alguém era quase uma obrigação", relembra.
Cezar conta ainda que, sem habilidade para jogar futebol, demorou a gostar do esporte, mas acabou conquistando a posição de goleiro no time da escola, o que lhe garantiu a desejada sensação de pertencimento ao grupo. "Comecei tarde, com 12, 13 anos. Até conseguir um bom desempenho como goleiro, ouvi muitas provocações, assim como ouviam os meninos que gostavam de vôlei. Menino que colocava brinco também era muito 'zoado'. Talvez com menor intensidade, mas acho que esse tipo de situação acontece com os garotos até hoje", analisa.
Saiba mais
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Para o leitor que gostou da reportagem e quer saber mais sobre o tema, uma dica é assistir ao documentário "A máscara em que você vive" (em inglês, "The mask you live in"), de 2015. Nele, a diretora Jennifer Siebel Newsom problematiza a naturalização de muitas características consideradas inatas ao gênero masculino. Apesar de debater sobre masculinidade tóxica com foco específico nos meninos e homens adultos dos Estados Unidos, os padrões de comportamento mostrados no documentário se repetem na cultura de muitos países, como o Brasil. A proposta, com a reflexão mostrada em entrevistas com especialistas e acadêmicos, é provocar um movimento que permita criar uma geração de homens mais saudáveis, psicologicamente mais evoluídos e felizes. O documentário está disponível nas plataformas Netflix e YouTube.




